quinta-feira, 24 de abril de 2008

As línguas são multiformes


A concretização da idéia de uma língua uniforme é uma utopia. Primeiro porque existem fatores, tanto internos quanto externos, que condicionam a variedade lingüística. E segundo porque, as variações lingüísticas existentes, não são fatos casuais, muito menos intencionais, ou seja, não se trata de que alguém, em algum lugar, um dia estabeleceu um decreto determinando: “a partir de hoje, as línguas sofrerão variações”. Ao contrário de tudo isso, existem elementos regentes que dão espaço à multiplicidade lingüística.
Freqüentemente, os elementos externos à língua que implicam a multiformidade lingüística, estão relacionados à região geográfica, classe, sexo, etnia, profissão, idade, etc. Por exemplo: um médico jamais falará como um matuto. Outro exemplo: Os termos e sotaques regionais utilizados na fala de um acreano (que é o meu caso) são completamente diferentes dos de um nordestino.
Já os fatores internos que produzem diferenças na fala de pessoas, estão muito mais ligados à gramática interior da língua. O que é isto? É exatamente a condição que a própria gramática nos concede de pronunciarmos determinadas palavras de formas variadas. Isto é, é comum ouvirmos aqui no Acre, mais especificamente em Rio Branco, palavras como faxa, baxo, quexo, ao invés de faixa, baixo e queixo. Isso reafirma com propriedade e respaldo a idéia de multiformidade da língua.
Finalmente, a multiplicidade lingüística é fruto da variedade social. Isso nos faz compreender que para afirmarmos, defendermos ou idealizarmos a existência de uma língua uniforme, precisamos pensar em uma sociedade também uniformizada, porque a variedade social reflete na língua, e para existir uma sociedade uniforme, seria necessário que se discutissem nas escolas diversos valores como culturais, profissionais, sociais, etc. Somente assim seria possível mudar a visão do ensino de língua portuguesa nas instituições escolares.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Repensando a pedagogia


No decorrer da história, assim como em todas as ciências, significantes transformações ocorreram no campo da pedagogia. Tendo origem correspondente a movimentos sociais e filosóficos, essas mudanças, relacionadas a um determinado período da história, foram definidas como tendências pedagógicas.
Libâneo (1994) as classificou em dois grupos: liberais e progressistas. Dessa forma, passamos pela pedagogia liberal, tendência liberal tradicional, liberal renovada progressista, liberal renovada não-diretiva, liberal tecnicista, pedagogia progressista, progressista libertadora, progressista libertária, até chegarmos à tendência progressista histórico-crítica.
Em 1996, sancionou-se a lei 9394 – de diretrizes e bases da educação nacional –. Esta, comparada à anterior, trouxe diversas mudanças e acréscimos imprescindíveis, dentre os quais estão: a participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola; o envolvimento das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou congêneres; igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; respeito à liberdade e apreço à tolerância; pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas, e formação dos especialistas da educação em curso superior de pedagogia ou pós-graduação.
A despeito dos avanços, mudanças e acréscimos pedagógicos supracitados, ainda há muito que melhorar na educação. O Brasil está entre os países com maior índice de deficiências educacionais.
Segundo o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade em 28/03/08, catorze milhões de crianças estão fora da escola.
De acordo com Marcos Bagno, em seu livro, Preconceito Lingüístico, há no Brasil, sessenta milhões – população igual à da França – de analfabetos plenos e funcionais.
Uma das causas mais visíveis responsáveis por esses números, mais precisamente os de analfabetismos funcionais – exemplo simplista: alguém que consegue decodificar as palavras de um texto, mas não o entende em sua totalidade – é a forma como os conteúdos são desenvolvidos nas escolas.
As aulas de língua portuguesa são, no geral, mera transmissão de um amontoado de regras descontextualizadas e inassimiláveis, em que o professor tem o aluno como depósito de seus conhecimentos, como um ser passivo, que não pensa, não lê e, por isso, não tem opinião. Aulas em que o docente desrespeita ou desconsidera totalmente o conhecimento de mundo do educando.
A isso se deve o fato de muitas pessoas dizerem: “eu odeio português”, pois as aulas são, com todo respeito, uma chatice.
Hoje, ao sair da sala em que assisti à última aula do meu estágio, conversei com dois amigos de escola. Eles perguntaram o que eu estava cursando. Quando respondi, um deles disse: “pro cara fazer letras o cara tem que ser forte”. E o outro exclamou: “eu nunca gostei de português”!
Aí está o nítido produto de uma pedagogia tradicional. Como disse Paulo Freire: “ensinar não é transferir conhecimento”. Não se pode ignorar a curiosidade que o discente tem, ainda que esta seja ingênua. Ao contrário disso, devo instigá-la, para que, saindo do território da ingenuidade, passe para o epistemológico.
Não se pode prescindir de salutar que conhecimento não se transmite, constrói-se. A função do mediador, como o próprio nome sugere, é mediar entre os conteúdos e o discente, isto é, proporcionar a construção daquele conhecimento.
Ainda neste estágio, estavam alguns professores e eu na sala para professores. De repente, uma aluna, de aproximadamente doze anos de idade, chegou-se à porta chorando desesperadamente “aos pés” de um “professor”, suplicando-lhe que recebesse seu trabalho no dia seguinte, pois ela o havia esquecido. O professor, grosseira e estupidamente, gritou com a aluna dizendo: “se você não trouxer esse trabalho amanhã, você vai ver se eu ainda vou receber”! Esse fato me remoeu os nervos. Isso, nem de longe, é ser professor. A meu ver, nada justifica tamanha desnaturalidade. Ensinar demanda rigorosidade metódica sim, bem como, tolerância, humildade, humanidade e sensibilidade. Freire escreveu: "me movo como educador porque, primeiro, me movo como gente”.
Por fim, precisamos planejar aulas mais interativas, menos exaustivas. Aulas em que nós professores ensinemos menos, e os nossos alunos aprendam mais.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Crianças

Elas são simplesmente maravilhosas, doces, lindas!Crianças. Quão inócuas são!Oxalá que os adultos as tenham pelo menos por um dia como inspiração!Não é à revelia que o manual, divinamente inspirado por Deus nos instrui:Sejam como crianças quanto à malícia!Crianças. Que doçuras!Elas transpiram e exalam uma alegria inesgotável e hermética;Sim.Batem-se, arranham-se, choram e até gritam;Mas carregam constantemente consigo um deliberativo e inexplicável perdão,Quase que extinto entre os “grandes”;O que torna infundados, quaisquer argumentos de natureza perniciosa a respeito delas;Amados e amigos leitores, inspiremo-nos, observemos e aprendamos com elas,Que transformam rios de tristeza, em autênticos mares de alegria!Crianças, abençoadas crianças.

Ah! Dias efêmeros! Que saudades de vocês!

Ah! Dias efêmeros!
Que saudades de vocês!
Lembro-me das vezes que chorei
Agarrado à saia da mamãe
Insistindo que me levasse com ela;
Das impetuosas chuvas de inverno;
Daquela noite em que a luz apagou
e a mamãe teve de ir comprar vela;
Ah! Naquele dia eu quase morri afogado
no quintal alagado da vovó!
Ah! Dias efêmeros!
Que saudades de vocês!
Dos embalos nos balanços do parque do colégio, só restaram velhas correntes enferrujadas e pedaços de tábuas estragadas;
Dos giros no carrossel, somente memórias ofuscadas, que remetem à aprazível tontura que sentia;
Das partidas de peteca, além das rasas amizades, e para ser sincero e verdadeiro, às vezes, das inimizades, coisas de criança,

Ficaram quase nenhumas abstratas reminiscências que alguma vez emergem súbita e repentinamente em minha rica consciência tranqüila!
Ah! Dias efêmeros!
Que saudades de vocês!




terça-feira, 1 de abril de 2008

Madrugada

São quase duas...
E aqui estou,

Cansado e insone do dia anterior;
Olhos ardidos,
Pálpebras pesadas,
À espera do sono tranqüilo,
Que se foi sem dizer nada;
Ou quem sabe, da beleza, da lindeza do amanhecer:
Do cantar dos pássaros; do raiar do sol;
Das nuvens esmaecidas, que embrulham sutilmente,
a morada do meu Deus.
Ah! Sei lá! Estudar?
Só amanhã! Pois, exausto hoje estou,
Meu espírito quer é Deus;
Mergulhar em seu amor,
Que mais forte que o cansaço,
Mais suave que meus braços,
Lança fora toda a dor;
Todo o medo;
Toda insônia,
Toda mágoa,
Tudo...