quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Uma jornalista e um grande rabo

Diz a música-tema do CD Sacos Plásticos, dos Titãs: Acima dos homens, a lei/E acima da lei dos homens/A lei de Deus/Acima dos homens, o céu/E acima do céu dos homens/O nome de Deus/E acima da lei de Deus/O dinheiro! Eis a maior de todas as leis: o dinheiro!
A mídia brasileira em geral dispõe de bons profissionais do jornalismo, de pessoas inteligentes. O problema é o dinheiro. A Bíblia afirma ser ele a raiz de todos os males. Verdade verídica! Eis a razão por que as Redes de TV são tão ruins, tão acríticas: inteligências compradas. Há pessoas inteligentes, mas compradas; intelectuais, mas vendidas.
Hoje cedo, numa matéria exibida pela Rede Record sobre a detenção de Maguila, ex-lutador de boxe, por ter agredido um segurança que o empediu de entrar num parque em SP, costumeiramente visitado pelo ex-pugilista, assisti a uma jornalista de um grande rabo... preso.
Parecia excelente jornalista, mas na hora que precisou falar contra Maguila, logo faltou coragem, e disse: “agora resta saber se Maguila cometeu algum crime ao agredir o segurança ou se foram os seguranças que erraram em não deixá-lo adentrar o parque.” Que frouxa! Que medrosa! Que rabo! Foi um *jabe , minha amiga. É claro que o nariz do segurança do Parque Ecológico do Tietê está estourado, não há dúvidas! É a merda do dinheiro e sua força! Se nossos jornalistas não tivessem seus rabos presos, teríamos matérias melhores; se tivessem mais coragem, suas reportagens seriam mais interessantes. Mas são rabo-preso. O dinheiro é foda!
*golpe frontal com o punho que está a frente na guarda.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Uma descrição infeliz

Até que ponto o que dizem e escrevem por aí sobre as línguas em geral tem fundamento científico?
Se você está cansado de ver o pessoal maltratando a pobre da língua portuguesa, essa é sua comunidade! Erros acontecem, visto que nossa língua é complicada. Mas, há muita gente que assassina literalmente o pobre do Português! "Mim" não compra nada...nem ninguém pede pra "mim pegar", pra "mim colocar "GERUNDISMO NÃO DÁ!!!Eu vou "estar te transferindo" pra pessoa que vai "estar te passando" as informações que você vai "estar precisando"!Só para relembrar: "Seje" não existe e muito menos "menas". Uma comunidade para pessoas cujos ouvidos são sensíveis às agressões ao português.Vamos proteger nossa língua desses verdadeiros "serial killers" da nossa gramática!!
Descrição de uma dessas infelizes comunidades do orkut onde as línguas são consideradas produto acabado, sistemas imutáveis, unos. Como se não sofressem interferência de quem as fala; como se não fossem constituídas de conjuntos de variedades; como se fossem algo fora de nós, como uma caixa de ferramentas que pudésssemos utilizar e depois devolvê-la ao lugar onde a encontramos; mais grave: como se as línguas precisassem ser protegidas de seus falantes. Paradoxo. Na verdade, podemos dizer sem rodeios que, em parte, somos a língua que falamos, nos constituímos por meio da linguagem.
Descrições dessa natureza só depõem contra a própria inteligência de que as faz, isso para não mencionar as discriminações e preconceitos nelas imbuídos. Na tentativa de acertar o alvo, quem emite esse tipo de opinião sobre as línguas (às vezes, sem saber) acaba tomando um tiro pela culatra.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal. Feliz 2010!

Para muitos de nós, fim de ano é sempre especial. É tempo de nos avaliarmos: analisarmos o que fizemos e o que deveríamos ter feito. É tempo de nos projetarmos para o ano seguinte, de agradecimentos, de abraços e também de banquetes, de mesas fartas de comida, para uns, ao passo que outros não têm nem mesmo a mesa, muito menos a comida sobre a mesa – situação lamentável para um país tão rico. Mas deixemos que outro texto se encarregue dessa questão.
Estou feliz, apesar de tudo. Digo “apesar de tudo” porque este não foi um ano muito fácil para mim: em minha vida, tive de tomar muitas decisões decisivas (perdão pela tautologia da expressão). Mas estou feliz!
Sei que este blogue não é lido por quase ninguém além de mim (sempre repito isso), mas sei que há uns pouquíssimos interessados em ler alguma coisa que publico por aqui; portanto, a esses que dedicam nem que seja um restinho do seu precioso tempo lendo estas páginas, aos que se deleitam quando passam as retinas por essas linhas ou que enxergam alguma luzinha nas entrelinhas deste espaço, e até àqueles que riem do que escrevo ou aproveitam a ocasião para me desancar, desejo-lhes FELIZ NATAL e NOVO ANO de grandes realizações. Um forte abraço a todos e até o próximo texto. Que venha 2010!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Desancando um pouco...

Sou um homem de ideias um tanto confusas, admito. Há vezes que não compreendo nem a mim mesmo. Faço avaliações o tempo todo. Mal comparando, certas vezes sou dual, como um desses áudios de filmes ripados que baixamos da internet. Fico em cima do muro por alguns instantes. Não por muitos, por alguns, eu disse, porque sempre pendo para um dos lados do muro. Eu avisei que sou confuso.
Quando se trata de programas televisivos, sempre faço alguma mínima análise para saber se são dignos de serem assistidos. À maioria deles, não assisto. Alguns são bons pela metade. Outros são uma merda, como esses chamados reality shows, A fazenda, Big brother, Casa dos artistas, tudo merda do mesmo buraco. (Não sei por que o meu editor do Word não quer reconhecer a palavra “merda”, será que ele assiste à Fazenda?)
Mas ainda há, para nossa surpresa, na TV aberta, bons programas de televisão. Cito alguns: Provocações, Roda Viva, Letra Livre, Univesp, Rumos da Música, Café filosófico, entre outros; todos exibidos pela TV Cultura. Há alguns exibidos por outras emissoras que se enquadram, na minha opinião, no que chamei acima de “bons pela metade”. Mas são poucos. A maioria é mesmo de todo ruim.
É que, os anos e as leituras produziram e continuam a produzir em mim um anticorpo suficiente para combater certas doenças do mundo moderno. Certos programinhas de televisão, por exemplo, bem como certas leituras ou certas músicas. Sinto verdadeira ojeriza (aversão) ao ver, ainda que seja de relance, a banheira do Domingo legal ou o Domingão do Bestão. Tenho ânsia de vômito. Asia. Tudo que não presta. Agora falei com pura sinceridade; e até com certa raiva, confesso. Como diz Humberto Gessinger, do Engenheiros do Hawaii, em uma de suas belíssimas e inteligentes canções, não consigo ver “graça nas gracinhas da TV” e “morro de rir no horário eleitoral”.
Curta Outras fraquências!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O jovem e o emprego

Estudos têm mostrado as transformações pelas quais vem passando o mundo moderno. No mercado de trabalho, por exemplo, vêm ocorrendo, sobretudo após a Revolução Industrial do séc. XIX, inúmeras mudanças e adaptações.
Novas profissões aparecem todos os dias, ao passo que outras deixam de existir. Um exemplo deste último caso é que, com a evolução tecnológica, cada vez mais pessoas são substituídas por máquinas nos setores de produção industrial. Isso, dizem alguns economistas, é a causa principal do desemprego mundial; outros, discordando, preferem acreditar (e eu estou com esses) que as decisões políticas dos nossos governantes é que são a causa real do desemprego no mundo.
Diante dessa loucura, fruto de um sistema capitalista, como fica a situação do jovem deste século? O mercado exige dele algo impossível – experiência profissional. Para efeitos de exemplificação, como pode um jovem estudante de Administração ter experiências profissionais sem nunca ter trabalhado?
Assim, resta ao jovem contemporâneo uma única saída: correr atrás de estágios remunerados (ou não) que, além de lhe garantirem uma renda mínima (bolsa), lhe proporcionam o aprendizado de uma profissão.

domingo, 8 de novembro de 2009

Uma mentira etimológica

Como eu, certamente você já viu algum professor evocar a etimologia (origem) de certas palavras para explicar, esclarecer ou comentar algum assunto. Quem não se lembra, por exemplo, das aulas de ortografia, em que o professor de Português explicava que a palavra ortografia é formada pelos elementos gregos orthós, que significa reto, correto, direito; e graphiem, que quer dizer grafia, escrita? Ou das aulas de introdução à Biologia, onde se dizia que bio significa vida, ao passo que, logia, estudo. Pois é.
O conhecimento da origem das palavras, isto é, de sua etimologia, é importante, entre outras coisas, para investigarmos os múltiplos processos mentais que levam os falantes de uma língua a reanalisar e a reinterpretar os sentidos originais das palavras, refazendo novos sentidos, dando nomes velhos a coisas novas, devido à semelhança de forma ou de uso.
O problema é que nem sempre conhecemos, de fato, o real significado original da palavra ou expressão em questão, e nos apressamos em apresentar a quem falamos ou escrevemos etimologias sem pé e sem cabeça.
Certa vez, precisei participar de uma capacitação pedagógica para ministrar cursos profissionalizantes como mediador ligado a uma determinada instituição educacional. Fui.
Logo de início, na tentativa de reinterpretar a nomenclatura e o conceito de certos elementos da educação atual, como o aluno, que, de acordo com essa teoria, passaria a ser educando; o professor, mediador, etc., etc., a palestrante disse que a palavra aluno deriva do latim alumnu, e seria formada pelo elemento a-, que indica negação, privação, mais lumnu (luz, brilho). Dessa forma, o significado original apontaria para algo como “aquele que vive nas trevas, que não tem luz, sem brilho”, o que justificaria o fato de esse aluno precisar de um mediador que lhe mostre o caminho, e tal. Mentira etimológica! Tudo mentira!
Na verdade, aluno deriva do verbo latino álere, que quer dizer “fazer aumentar, crescer, desenvolver, nutrir, alimentar, produzir, fortalecer”.
Bem na origem, alumnu significava, em latim, “criança do peito, menino que está aprendendo, discípulo”. Nada com essa besteirada toda de “sem luz” ou “sem brilho”. Nada a ver. Essa só é mais uma mentira etimológica que alguém inventou; mas como toda mentira tem perna curta...

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

aLgUmA pOeSiA

MOTIVO

Eu amo e é só. Mais nada.
Eu amo porque sofro, e sofro porque amo.
Eu, simultaneamente, amo e sofro, sofro e amo.
Amo como a mim mesmo;
Por vezes, amo até mais que a mim mesmo, reconheço.
Fosse eu um pássaro, seria um beija-flor;
Se poeta, sou poeta do amor.

Tiago Tavares

domingo, 1 de novembro de 2009

Um caso

Dentre tantos casos de purismo linguístico, escolhi, neste textinho, comentar um – a famosa condenação purista da utilíssima expressão “outra alternativa”.
Dizem os propagadores do purismo exacerbado que, na formação da palavra alternativa, está presente o elemento alter, que em latim já significa “outro”, de maneira que, dizer ou escrever coisas do tipo “não tenho outra alternativa” caracterizaria redundância, ou mesmo pleonasmo vicioso, como se nós, falantes, tivéssemos que interpretar as palavras por pedaços, como se tivéssemos de conhecer a origem de todas as palavras que usamos, como se fosse suficiente dizer "não tenho alternativa". Bobagem!
Levando a cabo o mesmo raciocínio torto, dizem ainda que não se deve (é assim mesmo que eles se pronunciam, sempre em tom autoritário, nunca sugestivo ou alternativo) dizer ou escrever frases como “essa/esta é a única alternativa que...”, pois, se existe na palavra o elemento latino alter, isto é, “outro”, segundo eles, seria necessário que houvesse pelo menos duas “coisas”, para que se pudesse alternar entre uma e outra. Mil vezes bobagem!
Sei que os que me leem até se surpreendem quando digo que há manuaizinhos de gramática e professores de língua portuguesa que proliferam esse tipo de explicação estapafúrdia por aí. Mas há. Por incrível que pareça, há.
Sobre esse tipo de explicação irracional, qualquer pessoa que use minimamente o seu cérebro pode fazer, logo de cara, a seguinte pergunta: Égua! desde quando se fala latim no Brasil? Temos quase duzentas línguas sendo faladas atualmente aqui, e nenhuma delas é o latim, sabemos.
Portanto, queridos, nem precisa dizer que “outra alternativa” é expressão perfeitamente legítima e amplamente usada em praticamente todos os textos escritos na mídia brasileira e verificável na fala dos quase 200 milhões de brasileiros (sem falar da chamada grande literatura, é claro).
Dessa forma, a “única alternativa” que nos resta é usar essa expressão sempre que sentirmos vontade, sem medo algum das caretas que fazem os puristas. “Outra alternativa” é a gente mandar eles irem “catar coquim” ou pedir que enfiem a viola no saco e deixem nossa língua sossegada.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

pOeSiA no EJORB

Por esses dias, estive realizando um Estágio Curricular Obrigatório na escola José Ribamar Batista. Como objetivo, tínhamos a ideia de trabalhar com os discentes, em três dias, uma poesia moderna.
Portanto, iniciei falando do Pré-Modernismo; depois, passei para o Modernismo propriamente dito. Li com eles textos de autores como Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles, os quais serviram de base para o projeto. Além disso, apresentei-lhes a letra de "Paciência", belíssima música de Lenine, para que observassem os traços da poesia deste autor.
Por fim, realizamos um mini-concurso de poesia: eu selecionei cinco dos principais poemas e, desses cinco, eles votaram em um. Como o trabalho e o mini-concurso foram desenvolvidos em duas turmas, confira abaixo a produção dos dois ganhadores.


BOI VELHO

Boi velho, boi de arrasto
Arrasta avó, menino e padrasto

Boi que um dia foi de acompanhar
Agora é de arrastar.

Arrasta nas costas uma solidão
Como eu arrasto a dor no meu coração.
Lucas Ferreira, 1º ano "C"

AMOR

O amor é considerado uma espada: tem dois gumes – a felicidade e a mágoa.
Apesar de ser uma pequena palavra, tem grande significado; e afeta o homem e sua amada.
Denis Lopes, 1º ano "D"

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Viva a língua viva!

É comum se ouvir dizer, com base na gramatiquice, é claro, que o verbo namorar, frequente em qualquer produção textual que se peça de adolescentes, é transitivo direto, e não indireto, não aceitando (parece até ter volição própria), desta forma, a preposição com. Assim, segundo os que apregoam isso, não se deve dizer (nem – pelo amor de Deus! – escrever) coisas do tipo "Paulo namora com Ana"; mas, sim, "Paulo namora Ana". Até o corretor ortográfico do Word foi contaminado por esse purismo – rejeita tal preposição.

Esse fenômeno, quando ocorre (e ocorre a todo instante e em qualquer lugar – praticamente chove no molhado), logo é caracterizado pela maioria como erro. Alguns vão além – falam em assassinato gramatical, em erro crasso, erro amazônico, atropelamento do idioma, desrespeito à língua de Camões etc., são tantas classificações idiotas, que eu, particularmente, detesto.

No entanto, além de alguns pouquíssimos colegas de profissão, da área de Letras, eu não conheço (e, certamente, você também não) muitas pessoas que usem esse verbo (salvo raríssimas exceções na escrita monitorada) como transitivo direto, ou seja, sem ser acompanhado da preposição com. Isso já é fato suficiente para se investigar. Se todos usam, e a gramática normativa se funda no uso (ou, pelo menos, deveria se fundar, e não o contrário, como pensam alguns desavisados), é um claro indício de que esse fenômeno está mudando.

Outra questão interessante é o uso do verbo amar combinado com o pronome reto ele/ela, em construções do tipo “eu amo muito ele/ela”. Dizem os ranzinzas que o correto seria eu o/a amo; ou, simplesmente, amo-o/a. É outra má análise dos fatos. Sabe-se, por meio de pesquisas, que, no Brasil, com exceção da grande literatura, isso só ocorre na escrita mais monitorada e na fala de uns três ou quatro.

Não se trata de ignorar as formas tradicionais – quem quiser que as use à vontade; mas de receber sem picuinhas ou menosprezo as formas mais inovadoras. Não é difícil dizer para um educando que namorar com é uma construção perfeitamente possível, gramatical, que faz parte da Língua Portuguesa. Entretanto, certos profissionais se contentam em prescrever aos seus alunos (parece coisa de médico) que o certo é assim, e não assado.

Não bastarem as observações factuais, leiamos gramáticos-filólogos profissionais como Celso Pedro Luft e Celso Cunha, talvez nos respaldem. Esqueçamos um pouco os manuaizinhos do tipo siga o modelo ou Não erre mais!

Vamos parar com essa besteira de querer impedir/proibir a língua de mudar. Ela já nos provou por várias vezes que é mais forte que a força do purismo exacerbado – era Latim, depois, galego-português; e virou Português.

Viva a língua dos Andrade Mário e Oswald! Viva a língua de todos nós! Viva a língua viva!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Sonho de Ploft

Saúde pública: uma realidade cruel

Historicamente, é verificável que a saúde no Brasil sempre foi (e não há indícios de que um dia será diferente) uma realidade lastimável. E pensar que pagamos caro para ter pelo menos o mínimo: uma saúde pública que funcione.
Hoje cedo, em busca de saúde, fui ao posto Augusto Hidalgo de Lima, que, por conta da reforma pela qual está passando, atualmente está funcionando num templo de uma igreja, no bairro Bahia. Lá, encontrei, como das outras vezes que precisei dele, uma fila enorme que começara a se formar pela madrugada, por volta das 2h.
Às 7h da manhã, o número de fichas não deu nem mesmo para quem mais necessitava ser atendido – só eram 14 fichas. Médicos? Só Clínico Geral; e à tarde, para quem conseguiu ficha de manhã. Para piorar a situação, o despreparado que estava entregando as fichas distribuiu de duas para uma única pessoa. Já imagina a confusão que isso deu? Pois é. Não é ficção, é a realidade cruel da saúde pública em Rio Branco. E por que não dizer no Brasil?
Este país está entre os que têm mais alta carga tributária – trabalhamos em torno de 147 dias anuais só para pagar impostos. Absurdo! Em forma de retorno ao que pagamos, pacientes, às vezes, entes queridos nossos, são mortos (isso mesmo, SÃO MORTOS!, pois o governo é quem os mata) nas filas dos pronto-socorros; mães dão à luz nos bancos de hospitais. É lamentável; mas é a realidade cruel!
Enquanto isso, o Rio e o Brasil comemoram o fato de sediar os jogos olímpicos de 2016. Três perguntinhas: haverá como jogar doente? Há como competir sem saúde? Há motivos para comemorar?
Senhores deputados, experimentem “dormir” numa fila dessas para conseguir pegar uma ficha! Experimentem! Opa!, desculpem-me! Falei besteira. Desculpem-me, senhores, pela afronta! Perdão! Esqueci-me de que vocês todos têm Unimed e Ameron.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Enfim, mudanças no ensino à vista!

Estou feliz; e surpreso, é verdade. Eu explico: é que, hoje, em meu primeiro dia de estágio, descobri que a escola está mudando; ou melhor, que o ensino de língua materna está mudando. As mudanças ainda são tímidas, reconheça-se, mas já é um bom sinal; e, obviamente, todas as grandes mudanças começam com pequenas modificações.
A questão é a seguinte: no Brasil, a educação linguística escolar formal sempre se resumiu ao ensino de regras gramaticais e nada mais. Isso está mudando, bem devagar, mas está mudando, graças a Deus.O ensino de língua sempre se restringiu a ensinar que determinadas formas linguísticas são certas enquanto outras são erradas. Só isso. No fundo, ensinar Português se confundia com ensinar gramática. Hoje, grande parte dos docentes substituiu (ou aperfeiçoou) esses métodos de ensino por outros mais eficazes (pelo simples fato de que não é assim que se aprende língua), dando mais espaço à leitura de textos – sobretudo literários – e à escrita contínua (pelo óbvio motivo de que é assim que se aprende língua). Louvado seja Jeová!
Na aula a que assisti hoje, na escola de Ensino Médio José Ribamar Rodrigues, no 1º ano “C”, presenciei algo novo: a docente Rosciene Marques de Oliveira leu belíssimas crônicas com seus educandos. A primeira crônica lida pela professora foi “O padeiro”, do grande Rubem Braga. Além das características da crônica, Rosciene trabalhou criticamente a questão das classes e estratificações sociais, tendo como ponto de partida da discussão a frase “Não é ninguém, é o padeiro!”, extraída da própria crônica lida.
Depois, escolheu-se um aluno para ler “A última crônica”, de Fernando Sabino. Feito isso, a professora apontou as funções da linguagem de maior destaque dentro dos textos lidos.
Por fim, para dar um pouco de graça à aula, Rosciene fez a leitura de “O homem trocado”, texto cômico e delicioso de Luis Fernando Veríssimo.
Assim, lidos esses textos e feitos os devidos e necessários comentários pela docente, esta deu aos educandos algumas diretrizes e dados para que, a partir das observações e comentários feitos por ela sobre as características do gênero crônica, eles produzissem um texto de pouco mais de 20 linhas.
Apreciei bastante esta aula. Deliciei-me. Sou grato aos meus professores da faculdade por terem me ensinado desde cedo (ou pelo menos terem me indicado leituras que me fizessem saber) o que é uma língua e o que é uma gramática – sorte que a maioria dos estudantes, infelizmente, nunca teve (e que tantos outros, lamentavelmente, nunca terão).

TV Aldeia, Sistema (Público?) de Comunicação

Sempre que vejo a programação da TV Aldeia, reflito sobre algumas questões, dentre as quais, certamente não por acaso, a do conceito de público.
Ao questionar o dicionário, em sua primeira resposta, ele me diz que público é o que é relativo ou pertencente a um povo, a uma coletividade. Logo em seguida, ele me diz ainda que público é o que é relativo ou pertencente a um país, estado, cidade, etc. Em qual das duas acepçõs A TV Aldeia mais se enquadra?
Não entendo a razão por que só se tecem elogios ao governo e nunca críticas. Falo, obviamente, de críticas ponderadas, construtivas, que partam de uma esquerda equilibrada e inteligente; e não de “crítica por crítica”, de uma esquerda burra-cega.
Como se as "notícias favoráveis" -- das quais falou Toinho Alves, na 1ª Pré-Conferência Estadual de Comunicação, ocorrida na última sexta-feira -- emitidas pelos programas jornalísticos da TV Aldeia não fossem suficientes para divulgar as bem-feitorias de Arnóbio Marques, nos intervalos da programação, fica ainda mais explícito o domínio sob o qual se encontra o tal Sistema Público de Comunicação. Só reproduz o que o chefe manda.
Por que o que não é feito por Rio Branco fica sempre fora da programação? O governo é perfeito? É tão difícil ser minimamente honesto? Por que as lentes das câmeras da TV Aldeia nunca capturaram sequer vultos imagéticos das incontáveis ruas esburacadas e sem saneamento básico dos históricos bairros João Eduardo I e II (isso para ficar nos que mais conheço)?
Ante isso, fico entre duas questões: TV Aldeia, Sistema Público de Comunicação, no sentido do que é relativo ou pertencente a um povo, ou TV Aldeia, Sistema Público de Comunicação, no sentido do que é relativo ou pertencente a um país, estado, cidade? TV Aldeia ou TV Binho? Eis a(s) questão(ões)!!

Uma delícia!

O homem trocado -- Luis Fernando Veríssimo
_________
O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.
- Tudo perfeito - diz a enfermeira, sorrindo.
- Eu estava com medo desta operação...
- Por quê? Não havia risco nenhum.
- Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos...E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.
- E o meu nome? Outro engano.
- Seu nome não é Lírio?
- Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e...
Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar nauniversidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
- Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mêspassado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
- O senhor não faz chamadas interurbanas?
- Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.
- Por quê?
- Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:
- O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.
- Se você diz que a operação foi bem...
A enfermeira parou de sorrir.
- Apendicite? - perguntou, hesitante.
- É. A operação era para tirar o apêndice.
- Não era para trocar de sexo?

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Só essa mixuruquice?

Impressão da nova prova do Enem vai custar R$ 31,9 milhões
Além da impressão, gráfica fará manuseio e entrega aos Correios.
_____________
Robson Bonin Do G1, em Brasília
A impressão da nova prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que será realizada nos dias 5 e 6 de dezembro, vai custar R$ 31,9 milhões, segundo contrato assinado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) com a gráfica “RR Donnelly Moore”, publicado na edição desta quarta-feira (14) do “Diário Oficial da União”. Além da impressão das provas, a gráfica será responsável pelo manuseio, embalagem, rotulagem e entrega dos cadernos de provas do Enem aos Correios.
A notícia de quebra do sigilo do exame fez com que o Ministério da Educação cancelasse a prova que seria aplicada para mais de 4 milhões de estudantes.
Publicada à página 67 do caderno três do Diário Oficial, a contratação da nova gráfica não traz detalhes sobre possíveis procedimentos de segurança que terão de ser adotados pela empresa para evitar que um novo vazamento, como o ocorrido no dia 1º de outubro, volte a acontecer.
O Inep pesquisou o mercado em busca de gráficas com a certificação necessária que pudesse executar integralmente o objeto"
O Ministério da Educação, em parceria com a Polícia Federal, a Força Nacional de Segurança e os Correios, trabalha para elaborar uma nova estratégia de segurança para evitar outro boicote ao Enem. Esse planejamento é mantido em sigilo para evitar o comprometimento das operações.
A empresa foi contratada na modalidade de “dispensa de licitação”. No contrato, o Inep afirma ter pesquisado no mercado uma relação de empresas que teriam capacidade para realizar a impressão da prova: “O Inep pesquisou o mercado em busca de gráficas com a certificação necessária que pudesse executar integralmente o objeto”.
Assinam a publicação o presidente do Inep, Reynaldo Fernandes, e o coordenador de despesas do órgão, Claudio Francisco Souza de Salles.

Palavras ao vento

Meu pensar vai fundo...
Quanto mais fundo, mais escuro, que, às vezes, me perco...
Me acho, me encontro de novo, e vou escavando, perscrutando o segredo e as verdades das coisas, das pessoas, do universo.
E quanto mais escavo, e quanto mais fundo chego, mais percebo o quão longe me encontro do fim.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter


A começar pelo próprio autor deste romance, Mário de Andrade foi, no Brasil, um dos maiores idelizadores do Modernismo. Macunaíma, seu mais expressivo romance, é o reflexo mais nítido do homem brasileiro. E era essa sua intenção mesmo: mostrar a nossa cara, como disse Cazuza, em uma de suas canções.
O Brasil sempre teve dificuldade de reconhecer o que lhe é autóctone. A Europa, até hoje, nunca deixou de nos servir de modelo, infelizmente. Corajosamente, em contraste a essa ideia, Mário revolucionou. Arrebentou. Gritou para o mundo inteiro ouvir: Brasil, mostra a tua cara! Mostrou a cara linguística brasileira, os costumes, as ideologias, as lendas, os misticismos, os fatos históricos ocorridos por aqui.
A lógica norteadora do romance de Andrade é a mistura: Macunaíma, filho de uma índia, nasce negro e feio; tem dois irmãos, Maanape e Jiguê -- o primeiro, índio; o segundo, negro. Portanto, o autor, sábia e destemidamente, revela em seu personagem a mais completa feição do brasileiro, e sugere um incompleto processo de formação do nosso povo.
Enfim, o alvo maior do autor era discutir, na forma e no conteúdo do romance, como o brasileiro ainda não tinha completado seu processo de formação, seu caráter, sua identidade nacional.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Arte pela arte" ou "merda por merda"?

A aderência geral da população brasileira às merdas cantadas por essa tal Banda Dejavu só revela a condição cultural e educacional deste país. Sempre foi assim e não há indício algum de que um dia será diferente. O dilema é o seguinte: quanto menos precisarmos pensar, melhor!
Na escola temos uma miséria educacional: em linhas gerais, quando muito a escola faz, consegue miseravelmente alfabetizar.
P.S.: Aqui, tudo o que é merda "pega" logo!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Famosos também são humanos

No último dia 20, num show em Paraguaçu Paulista, o cantor Daniel, todo enxerido, puxou uma policial militar para dançar. Trecho do show foi gravado pelo público e foi parar na internet.
Antes de iniciar o show, a policial entregou uma Bíblia ao cantor, por isso pensou que o mesmo estivesse tentando agradecê-la em público.
Durante a dança, a policial militar explicou para Daniel que poderia ser presa. Aí foi que o bichão se exibiu mesmo: fez o gesto de que estava sendo algemado e disse à policial que seria preso com ela. Isso quase deu em coisa séria (para a policial, é claro): a PM instaurou um processo, que posteriormente foi arquivado.
"Aquela atitude minha não seria correta, talvez. Eu não imaginava jamais que a coisa fluiria dessa forma, dessa maneira", disse Daniel ao Bom dia Brasil.
Cá entre nós: dentre toda a multidão, Daniel não poderia ter "mexido" com ninguém pior -- a policial é considerada de conduta exemplar, é evangélica e seu marido é sargento e pastor. Puts: poderia até ter levado um tiro por mexer no que é dos outros (risos)! Abaixo o vídeo:

terça-feira, 22 de setembro de 2009

DEIXEM O MEU ÓCULOS EM PAZ!

Marcos Bagno - Julho de 2009
____________________________
É mesmo uma pena que nossos melhores dicionários de referência, o Aurélio e o Houaiss, oscilem entre a tentativa de preservação das prescrições tradicionais e a vontade de incorporar e abonar as formas inovadoras já consagradas no uso do português brasileiro. Digo isso porque, ao tratar do substantivo óculo(s), ambos os dicionários assumem o tom mais prescritivista e autoritário possível, em franca contradição com as análises mais bem feitas que encontramos em outros verbetes:
AURÉLIO SÉCULO XXI: "No Brasil, pelo menos, diz-se, erroneamente, o óculos, este óculos, meu óculos" (verbete ÓCULOS)
HOUAISS: "A palavra óculos é pluralia tantum* ... sendo, portanto, erro a discordância de número (um óculos) que se tem vulgarizado no português coloquial do Brasil (formas corretas: uns óculos, meus óculos, um par de óculos)" (verbete ÓCULO)
*Pluralia tantum são as palavras que só são usadas no plural como bodas, anais, costas, férias.
Como diria nosso herói Macunaíma: "Ai, que preguiça!" Por que essa insistência em achar que esse importante dispositivo para melhorar a visão (que eu uso há quarenta anos!) tem que ser considerado como um par? Por que não chamá-lo então de binóculo, já que também existe o monóculo?
O que aconteceu com óculos foi o mesmo que aconteceu com tesouras, cuecas, calças, ceroulas, tenazes, listados pelo dicionário Houaiss no verbete PLURALIA TANTUM. Nesse verbete, a análise, felizmente, não recorre à imposição do que é "correto" e à condenação do "erro", sendo, ao contrário, isenta desses preconceitos:
PLURALIA TANTUM
Rubrica: gramática.
expressão latina com que são referidos os substantivos de uma língua cuja forma é um plural morfológico, mas que semanticamente podem denotar uma única unidade; trata-se sempre de referentes formados de partes simetricamente duplicadas (p.ex.: tesouras, cuecas, calças, óculos, ceroulas, tenazes)
Uso
embora o emprego do pl[ural] para indicar uma só parelha seja normal no português, registra-se uma dicotomia de tendência: de um lado, para obviar possíveis ambiguidades e explicitar a unidade, o locutor refere-se a um par de tesouras, de alicates, de pinças etc.; de outro, esp[ecialmente] no port[uguês] do Brasil, consuma-se o quase geral emprego do sing[ular] nos mesmos casos: uma tesoura, uma tenaz, a minha calça, a cueca.
É uma pena que não se tenha mencionado também o "quase geral emprego do singular" no caso de óculos. A razão do nosso uso de óculos no singular está nessas palavras do verbete: "substantivos cuja forma é um plural morfológico, mas que semanticamente podem denotar uma única unidade".
Pronto, gente, é só isso: é semântica! A semântica estuda a relação entre as palavras e as coisas do mundo que elas designam. Se nós concebemos o óculos como uma coisa só, nossa lógica linguística vai querer corresponder à nossa lógica de percepção da realidade: se o objeto é considerado como uma unidade, a palavra que o designa só pode estar no singular!
Vamos parar com essa insistência boboca, deixar todo mundo usar seu óculos em paz e cuidar de coisas mais importantes? Por exemplo: somente 8% das escolas com as melhores médias do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) em 2009 eram públicas. Não é perdendo tempo tentando convencer os alunos de que a palavra óculos só pode ser usada no plural que nosso ensino público vai sair do fundo do poço!

Uma bela sacada


Dentre as muitas artes ontem produzidas por Chico Caruso (grande chargista do clássico Roda Viva), enquanto Marina Silva era entrevistada, gostei, especialmente, do jogo de sentido desta frase: "Saí do PT porque estava me sentindo MEIO sem AMBIENTE." Foi uma bela sacada!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Vamos promover a língua!

De Carlos Alberto Faraco - 03/08/2009
______________
Meu texto anterior (Deixemos a língua em paz!), publicado na Gazeta do Povo de 17/07/2009 e, depois, transcrito nesta coluna, provocou alguns questionamentos de leitores. Um deles me pergunta se não é dever de todos promover a língua portuguesa; outro, se não acho abusivo o uso atual de estrangeirismos; e, por fim, um terceiro me pergunta como devemos proceder com os estrangeirismos se uma lei estapafúrdia não é a solução.
Vou comentar o primeiro ponto neste texto. Voltarei aos outros oportunamente.
Vamos começar nos colocando de acordo quanto à primeira questão. É óbvio que, como sociedade, devemos promover a língua portuguesa, que é a língua da maioria da população brasileira. E aqui não há segredo: a promoção da língua depende basicamente de uma boa educação linguística no nível fundamental e médio.
Uma boa educação deve garantir que todas as crianças sejam efetiva e rapidamente alfabetizadas; que todas as crianças e jovens alcancem bons níveis de letramento (ou seja, de familiarização com a cultura escrita), dominando as práticas sociais de leitura e produção de textos e tendo amplo acesso, por meio de uma boa rede de bibliotecas públicas, a bens culturais como livros, revistas e jornais.
É preciso também oferecer às nossas crianças e aos nossos jovens as condições para que eles conheçam a história e a realidade linguística do Brasil – saber, por exemplo, que a sociedade brasileira é multilíngue, embora o Estado brasileiro tenha uma só língua oficial, e entender todas as implicações dessa complexa realidade.
Nesta mesma direção, é preciso que nossas crianças e jovens compreendam o funcionamento social da língua e desenvolvam atitudes radicalmente contrárias ao preconceito linguístico ainda tão arraigado entre nós e que tem tantas consequências deletérias nas nossas relações sociais.
Estamos cumprindo satisfatoriamente estas tarefas? Claramente não. O processo de alfabetização não tem sido universalmente eficaz (muitas crianças estão chegando a séries mais avançadas da escola fundamental sem o domínio do alfabeto). Por outro lado, a escola não tem conseguido ampliar o nível de letramento dos alunos, como mostram os exames de avaliações do domínio de leitura (Prova Brasil e ENEM) e de escrita (ENEM). Falta ao país uma rede de boas bibliotecas públicas. Pouco ou nada temos feito para esclarecer as crianças e os jovens sobre a realidade linguística do país e para combater o preconceito linguístico.
Com isso, não temos sido capazes de romper os elevados índices de analfabetismo funcional que continuam dilacerando nossa cultura e afetando, por consequência, nosso desenvolvimento econômico e social (cf. os dados do INAF – Índice Nacional de Alfabetismo Funcional e da pesquisa Retrato da Leitura no Brasil).
Temos ainda índices elevados de analfabetismo absoluto. A mais generosa das estatísticas diz que 12% da população adulta brasileira são analfabetos. Recentemente, o IBGE divulgou índices ainda mais alarmantes (cf. Folha de S. Paulo, 14/7/09): 11,5% das crianças brasileiras de 8 e 9 anos são analfabetas. No Nordeste, o índice vai a 23%. No Maranhão, atinge o pico nacional: 38%!! Ainda um dado: quase a metade dos nossos jovens entre 15 e 17 anos está fora da escola.
Se queremos garantir a promoção da língua portuguesa é este quadro dramático que precisamos mudar: todas as crianças e jovens na escola, recebendo uma boa educação linguística e com acesso amplo aos bens da cultura da escrita. O resto, como diz a sabedoria popular, não passa de conversa pra boi dormir.
____________________________
*Professor Titular (aposentado) de Linguística e Língua portuguesa da Universidade Federal do Paraná.Organizador do livro Estrangeirismos: guerras em torno da língua (Editora Parábola)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sem tempo

Tenho andado meio sem tempo para novas publicações. Em breve, novos textos. Aos pouquíssimos leitores que gastam algum tempo lendo este blogue (isso mesmo, blogue, com "ue"!), abraços! Até logo, espero!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

Uma das de Danilo Gentilli



"Se o Didi está mesmo preocupado com o bem-estar das nossas crianças, deveria parar de fazer 'A turma do Didi'".

Danilo Gentilli, repórter do CQC

http://twitter.com/DaniloGentilI

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

No congresso

Aconteceu no Congresso Nacional...
- Sua excelência quer fazer o favor de tirar a mão do meu bolso?
- Perdão, excelência. Pensei que sua excelência estivesse distraído.

Momento filosófico 2


Numa dessas aulas que ministramos, uma aluna, do mais profundo de suas reflexões reflexivas, do mais oculto de suas entranhentas entranhas, extraiu, com muita dificuldade, a seguinte conclusão:


“É fácil fazer o fácil, difícil é não fazer o difícil”.
Jecksa Adsa

Momento filosófico


Ontem, na parada de ônibus, quando eu ia para a faculdade, ouvi a conversa de dois desses policiais que estão tentando minimizar a violência na "Baixada". Eles haviam acabado de discutir com uma "dona" de uma igreja na esquina da rua em que moro.
Não ouvi a discussão; mas, ao saírem de lá e passarem "filosofando" na minha frente, captei (e anotei) o que eles disseram em seu "momento filosófico". Leia isto:

"Não tem como o errado tá certo. O errado vai tá sempre errado. No dia que eu ver o errado tá certo, é porque ele não tá errado, ele tá certo."

Outros significados


A:
ABISMADO - sujeito que caiu de um abismo.
ABREVIATURA - ato de se abrir um carro de polícia.
ADVERSÁRIO - dia de nascimento do fanho.
AÇUCAREIRO - revendedor de açúcar que vende acima da tabela.
ALOPATIA - dar um telefonema para a tia.
AMADOR - o mesmo que masoquista.
ARMARINHO - vento proveniente do mar.
ASPIRADO - carta de baralho completamente maluca.
ASSALTANTE - um "A" que salta.

B:
BACANAL - reunião de bacanas.
BARBICHA - boteco para gays.
BARGANHAR - receber um botequim de herança.
BARRACÃO - proibe a entrada de caninos.
BIMESTRE - mestre em duas artes marciais.
BISCOITO - fazer sexo duas vezes.

C:
CAATINGA - cheiro ruim.
CAÇADOR - sujeito masoquista.
CALICE - ordem para ficar calado.
CAMINHÃO - estrada muito grande.
CANGURU - líder espiritual de cachorros.
CATÁLOGO - ato de se apanhar coisas rapidamente.
CERVEJA - é o sonho de toda revista.
CLEPTOMANÍACO - mania por Eric Clapton.
COITADO - pessoa vítima de coito.
COMPULSÃO - qualquer animal com pulso grande.
CONVERSÃO - papo prolongado.
CONTRIBUIR - ir para algum lugar com vários índios.
COORDENADA - que não tem cor.

D:
DEMOCRACIA - sistema de governo do inferno.
DEPRESSÃO - espécie de panela angustiante.
DESTILADO - aquilo que nao está do lado de lá.
DESVIADO - uma dezena de homossexuais.
DETERGENTE - ato de prender indivíduos suspeitos.
DETERMINA - prender uma moça.
DETERMINE - prender a namorada do Mickey.
DIABETES - as dançarinas do diabo.

E:
EDIFÍCIO - antônimo de "é fácil".
EFICIÊNCIA - estudo das propriedades da letra "F".
ENTREGUEI - estar cercado de homossexuais.
ESFERA - animal feroz amansado.
ESTOURO - touro que sofreu operação de mudança de sexo.
EVENTO - constataçao de que realmente é vento, nao furacao.
EXÓTICO - algo que deixou de ser ótico, passou a ser olfativo ou auditivo.
EXPEDIDOR - mendigo que subiu de vida.

F:
FLUXOGRAMA - direção em que cresce o capim.
FORNECEDOR - empresário dedicado ao ramo de encantar os masoquistas.

G:
GENITÁLIA - órgao reprodutor dos italianos.

H:
HALOGÊNIO - forma de cumprimentar pessoas muito inteligentes.
HOMOSSEXUAL - Sabão utilizado para lavar as partes íntimas.

J:
JURISPRUDENTE - diz-se do grupo de jurados que declara inocente o filho do bicheiro que, em legítima defesa da honra e apenas levemente embriagado, bombardeou o asilo de velhinhos cegos Nossa Senhora do Amparo.

K:
KARMA - expressao mineira para evitar o pânico.

L:
LEILÃO - Leila com mais de 2 metros de altura.
LOCADORA - uma mulher maluca de nome Dora.
LUZ SOLAR - luz proveniente da sola do sapato.

M:
MINISTÉRIO - aparelho de som de dimensões reduzidas.
MISSÃO - culto religioso com mais de 3 horas de duração.

N:
NOVAMENTE - diz-se de indivíduos que renovam sua maneira de pensar.

O:
OBSCURO - "OB" na cor preta.

P:
PADRÃO - padre muito alto.
PORNOGRÁFICO - o mesmo que "colocar no desenho".
PRESIDIÁRIO - aquele que é preso diariamente.
PRESSUPOR - colocar preço em alguma coisa.
PSICOPATA - veterinário especialista em doenças mentais de patas.

Q:
QUARTZO - partze ou aposentzo de um apartamentzo.

R:
RAZÃO - lago muito extenso porém pouco profundo.
RODAPÉ - aquele que tinha carro mas agora roda a pé.

S:
SAARA - muulher do Jaacó.
SEXÓLOGO - sexo apressado.
SIMPATIA - concordância com a irma da mae.
SOSSEGA - Mulher que tem os outros sentidos mas é desprovida de visão.
SUBURBANO - habitante do buraco do metrô.

T:
TALENTO - característica de alguma coisa devagar.
TESTÍCULO - pequeno texto.
TIPICA - o que o mosquito nos faz.
TRIGAL - cantora baiana elevada ao cubo.
TRIPULANTE - especialista em salto triplo.

U:
UNÇÃO - erro de concordância muito freqüente (o correto seria "um é").

V:
VATAPÁ - ordem dada por prefeito de cidade esburacada, no Nordeste.
VIADUTO - tubulação por onde fluem homossexuais.
VIDENTE - dentista falando sobre seu trabalho.
VIOLENTAMENTE - observou com lentidão.
VIÚVA - ato de ver uva.
VOLÁTIL - sobrinho avisando onde vai.

Z:
ZUNZUNZUM - na Fórmula 1, momento em que o espectador percebe que os três líderes da prova acabaram de passar a sua frente.
ZOOLÓGICO - reunião de animais racionais.

Uma definição em vigor

Politicagem
substantivo feminino
Uso: pejorativo.
1 política de interesses pessoais, de troca de favores, ou de realizações insignificantes
2 o conjunto dos políticos que se dedicam a essa espécie de política
__________________________
"Politicagem" ou "politicalha" é o que os nossos politicantes (representantes?) fazem com mestria no Congresso mais caro do mundo. Não podemos culpar o "horror econômico" pela desgraça deste país. A miséria e a falta de emprego no Brasil não são de origem econômica (não se justificam pela substituição do homem pela máquina na indústria, por exemplo); são, no entanto, fruto de decisões tomadas por nossos governantes, aqueles em quem nós, burra (e sinceramente), depositamos nossa confiança, os elegemos. A culpa é "nossa!"

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Uma definição necessária

Política
substantivo feminino
1 arte ou ciência de governar
2 arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; aplicação desta arte aos negócios internos da nação (política interna) ou aos negócios externos (política externa); ciência política
3 orientação ou método político
3.1 Derivação: por extensão de sentido.
série de medidas para a obtenção de um fim
4 arte de guiar ou influenciar o modo de governo pela organização de um partido, pela influência da opinião pública, pela aliciação de eleitores etc.
5 prática ou profissão de conduzir negócios políticos
6 conjunto de princípios ou opiniões políticas
6.1 o conjunto de opiniões e/ou simpatias de uma pessoa com relação à arte ou ciência política, a uma doutrina ou ação política etc.
7 cerimônia, cortesia, urbanidade
8 Derivação: sentido figurado.
habilidade no relacionar-se com os outros tendo em vista a obtenção de resultados desejados
9 Derivação: sentido figurado.
astúcia, maquiavelismo no processo de obtenção de alguma coisa
___________________

O povo não sabe seu(s) significado(s). Os "guias cegos" do povo também não. Melhor: alguns sabem, mas pervertem-no, deturpam-no acintosa, maquiavélica e propositadamente. O Aurélio e o Houaiss nos ajudam. Ah, se lêssemos pelo menos dicionários!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Bate-papo com o linguista Marcos Bagno

Extra Classe - O senhor tem afirmado que a norma-padrão da língua portuguesa se transforma com freqüência em instrumento de exclusão social. O que é preconceito lingüístico?
Marcos Bagno - É preciso distinguir a "norma culta", que é a língua falada e escrita pelos brasileiros com acesso à cultura letrada, da "norma-padrão", fonte de preconceito social, que não é língua de ninguém, é só um ideal de língua, cada vez mais distante e difícil de ser alcançado - quase um saber esotérico! Não se pode confundir o uso real, autêntico, empiricamente coletável da língua por parte dos falantes privilegiados (a norma culta), do modelo idealizado de língua "boa", arbitrariamente definido pelos gramáticos normativistas. O preconceito lingüístico existe em todas as sociedades onde se estabeleceu uma tradição escolar, uma cultura literária e instituições reguladoras dos usos da língua como a Academia Brasileira de Letras, por exemplo. Uma vez que toda e qualquer língua é essencialmente heterogênea, o que ocorre é a exclusão da maioria dos falantes do círculo restrito do "falar bem". No caso do Brasil, nem mesmo as camadas privilegiadas da população acreditam falar bem a língua portuguesa, porque nosso modelo de "língua certa" é extremamente arcaico, inspirado nos usos literários dos escritores de Portugal na primeira metade do século 19.
EC - Por que Pasquale Cipro Neto, Josué Machado, Eduardo Martins, Arnaldo Niskier, que se autodenominam gramáticos, não aceitam a variação lingüística e desqualificam os lingüistas?
Bagno - Não classifico nenhum deles como gramático. Esse título cabe a especialistas, a filólogos, a pessoas que dedicam sua vida à pesquisa da tradição gramatical, à revisão das bases teóricas da doutrina como Evanildo Bechara, Celso Cunha, Celso P. Luft, Rocha Lima. As pessoas citadas na pergunta fazem parte daquilo que chamo de "comandos paragramaticais". Não têm formação científica suficiente, muitas vezes não têm nenhuma, nem são da área das Letras, e se limitam a reproduzir, sem crítica, a doutrina gramatical normativa, como se ela fosse um bloco compacto, como se não houvesse divergências teóricas entre os próprios gramáticos. Essa atitude é muito antiga. Desde que a instituição gramatical surgiu, 300 anos antes de Cristo, no mundo de cultura grega da Antigüidade, há sempre um grupo de pessoas preocupadas com a "decadência" e a "ruína" do idioma e lutando para preservar a língua.
EC - O que é mais importante, a língua falada ou a gramática tradicional ensinada na escola?
Bagno - A língua tem que ser estudada e apreciada sempre em sua totalidade de manifestações: como faculdade cognitiva, como sistema de palavras e regras estruturado para a interação humana, como instituição social, como forma de conhecimento do mundo. E também tem de ser estudada em todas as suas modalidades: falada, escrita, híbrida. A língua falada tem seu lugar no ensino assim como a escrita. Não basta reconhecer que a criança, quando chega na escola, já sabe falar a língua. É preciso mostrar a ela como essa língua falada pode ser usada nas interações sociais, quais são as diferenças entre os gêneros discursivos, entre os eventos de interação, quais são as instâncias públicas e privadas de uso da fala, e quais as normas sociais que presidem esses usos. A gramática tradicional, como patrimônio cultural do Ocidente, merece ser estudada, mas não como uma doutrina cheia de dogmas e verdades eternas, e sim como um conjunto de idéias e conceitos que precisa ser constantemente criticado, revisto, atualizado e até, se for o caso, abandonado no todo ou em parte.
EC - A proposta é reconhecer que a gramática normativa não é um dogma...
Bagno - Ao contrário do que apregoam alguns dos "comandos paragramaticais", nenhum lingüista sério está mandando jogar as gramáticas no lixo, mas querendo que sejam tratadas como aquilo que elas são: obras produzidas por seres humanos - e não frutos de alguma 'revelação divina' - e, portanto, sujeitas à crítica e à reformulação. Os lingüistas são os primeiros a reconhecer que os gramáticos da Antigüidade tiveram intuições importantes ao definir sua doutrina, ao especular sobre o funcionamento da língua. Mas eles só se interessavam pela língua grega (e, mais tarde, pela latina), e todo o aparato que criaram (a nomenclatura tradicional) se adequava mais ou menos bem ao grego e ao latim. Para analisar outras línguas é preciso criar outros aparatos descritivos, outra teoria. O problema é que a gramática normativa virou uma instituição sociocultural, que passou a ser reverenciada como se fosse um crime submetê-la a juízo e revisão.
EC - O que deve vir antes, o estudo científico da língua ou o domínio da escrita e da leitura?
Bagno - No tocante ao ensino, já está provado e comprovado que o mais importante é promover o letramento dos aprendizes, isto é, a inserção destes cidadãos no mundo da cultura letrada que é o nosso. E isso só se faz por meio da leitura e da escrita, da escrita e da leitura, da reescrita e da releitura. Nada de entupir a cabeça das criancinhas com uma nomenclatura profusa, confusa, muitas vezes incoerente. Vamos deixar isso para mais tarde, lá pelo Ensino Médio, quando a pessoa já souber ler e escrever bem. Se é só no Ensino Médio que as aulas de química, física, biologia aparecem, por que o estudo científico da língua tem de ser feito já nos primeiros anos de escolarização? Vamos pôr essa gente para ler e escrever, pois é disso que o cidadão precisa na sua vida diária. Nenhum profissional bem-sucedido, hoje, em qualquer área de atuação, precisa saber o que é uma "oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo", mas precisa saber ler e escrever muito bem. E a gente só aprende a ler e a escrever... lendo e escrevendo!
EC - A gramática da língua padrão está focada em uma das variedades lingüísticas, a escrita, que tem como modelo a literatura de Portugal. Sendo assim, esse ideal de língua desconhece a identidade social e cultural dos brasileiros?
Bagno - Trata-se de assumir que nós falamos uma língua toda nossa, o português brasileiro ou simplesmente brasileiro, com gramática própria, bastante diferente da do português europeu, e mais diferente ainda da norma padrão tradicional (que não é língua de ninguém!). Quando isso for assumido sem medo nem escrúpulos, poderemos produzir gramáticas que descrevam e autorizem o que já é falado e escrito por aqui há mais de cem anos; poderemos parar de ensinar coisas irrelevantes, modos de conjugação verbal que ninguém fala (nem escreve), regras de concordância obsoletas, colocação pronominal e outras coisas que não têm nada a ver com o uso real, contemporâneo do português brasileiro, inclusive da parte dos mais letrados, dos melhores escritores de cem anos para cá.
EC - Falta correspondência entre pesquisa e políticas públicas no campo da linguagem?
Bagno - A mudança depende, sobretudo, de uma política lingüística, coisa que não existe no Brasil. É preciso que o Estado legisle, racionalmente, sobre as questões da língua e das línguas (são mais de 200 no território brasileiro!) e sobre o ensino dessa(s) língua(s). E é para isso que esse mesmo Estado mantém, nas universidades públicas, importantes centros de pesquisa em lingüística teórica e lingüística aplicada: para subsidiar as ações públicas no tocante às questões de linguagem. Porém, o Estado brasileiro ainda não acordou para isso. Acima de tudo porque vivemos numa ilusão de monolinguismo: aqui "todo mundo fala português", "todo mundo se entende", então não é preciso que o Estado interfira nesse campo. Tremenda ilusão! Os exemplos de países como o Canadá, a Espanha, a Bélgica, a Suécia, a Noruega, a Índia, e até nosso vizinho Paraguai, entre outros - países onde existe uma política lingüística clara, oficial, explícita -, deveriam servir de fonte de inspiração e reflexão para os legisladores brasileiros para que nossa sociedade fosse realmente democrática, inclusive no campo das relações lingüísticas.
EC - Qual é o papel da escola na constituição dessa educação lingüística digna a que o senhor se refere?
Bagno - Não se trata, como defendem alguns desavisados, de reconhecer e valorizar as variedades regionais, sociais, etc. e ficar no discurso (reacionário) do "politicamente correto". O papel fundamental da escola é levar as pessoas a conhecer e aprender coisas que elas não sabem. Assim, na questão da linguagem, a tarefa da escola é levar os aprendizes a dominar plenamente a leitura e a escrita, coisas que só se aprende na escola, e também conhecer e usar outras formas de falar e de escrever, entre elas (mas não só!) as formas tradicionais, eruditas, clássicas ou "cultas". Trata-se, então, de ampliar o repertório lingüístico dos aprendizes. Mas isso tem que ser feito com uma pedagogia democratizadora das relações sociais, e não por meio da condenação das formas variantes, das formas inovadoras, e pela imposição autoritária das formas consideradas as únicas "certas".
EC - Formas lingüísticas já fixadas pelo uso, inclusive na língua escrita, ainda são condenadas pela gramática normativa. Como mudar isso?
Bagno - De fato, o apego excessivo à norma-padrão tradicional cria esses conflitos. É inaceitável que formas não registradas pela tradição normativa, presentes até mesmo na nossa melhor literatura há mais de cem anos, continuem sendo condenadas pelos puristas. É ridículo dizer que a forma "eu custo a crer" é errada, quando ela já aparece desde José de Alencar (que morreu em 1877). É preciso divulgar amplamente os resultados das importantes pesquisas que têm sido feitas sobre o português brasileiro nos últimos 50 anos, mostrar o que já se fixou e o que já desapareceu da língua, e autorizar esses usos novos. Como já disse antes, é preciso haver uma política lingüística de Estado que reconheça a nossa língua como ela é hoje. Por exemplo, o Ministério da Educação deveria produzir uma gramática de referência do português brasileiro que descrevesse e autorizasse os usos que já estão aí há tanto tempo, mas que continuam sendo perseguidos como "pecados" pelos "comandos paragramaticais".
EC - Qual é a relação entre linguagem e poder?
Bagno - A linguagem é um importantíssimo elemento de dominação sociocultural e política, talvez o mais importante instrumento de dominação e opressão. Quem está no poder quer continuar nele e, para isso, a maneira de falar dos poderosos, dos privilegiados, se transforma numa arma de defesa do poder contra a eventual insurreição dos oprimidos. O lingüista italiano Maurizzio Gnerre, que trabalhou no Brasil, escreveu que a norma-padrão tradicional é uma "cerca de arame farpado", que separa uma pequena elite de iluminados do resto da população. Não é por acaso que, em todas as sociedades européias, o modelo de língua "certa" tenha sempre se baseado no modo de falar das regiões mais ricas, politicamente importantes, centros do poder. Não é por acaso também que o inglês-padrão é chamado de "inglês da Rainha". Assim como o rei francês Luís XV dizia que "o Estado sou eu", os poderosos também podem dizer "língua é a minha" - o resto é "jargão", "algaravia", "dialeto", "caçanje", ou simplesmente "não é português".

_______________________________
ENTREVISTA DE MARCOS BAGNO AO JORNAL EXTRACLASSE DO SINDICATO DOS PROFESSORES DO RIO GRANDE DO SUL - FEVEREIRO DE 2008

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Notícia matinal: Edir Macedo e mais 9 viram réus por lavagem de dinheiro


A Justiça de São Paulo acatou ontem a denúncia contra o bispo Edir Macedo e outras nove pessoas ligadas à Igreja Universal do Reino de Deus por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Segundo o Ministério Público Estadual (MPE), eles são acusados de integrarem um esquema envolvendo empresas de fachada, que remetia ao Exterior dinheiro obtido com doações de fiéis. Esse dinheiro, depositado em paraísos fiscais, voltava ao Brasil em forma de contratos de mútuo utilizados para a aquisição de empresas.

A acusação formal foi oferecida no último dia 5 pelo MPE, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) - Núcleo São Paulo, e recebida pelo juiz da 9ª Vara Criminal da Capital. Além de Edir Macedo, foram denunciados Alba Maria da Costa, Edilson da Conceição Gonzales, Honorilton Gonçalves da Costa, Jerônimo Alves Ferreira, João Batista Ramos da Silva, João Luís Dutra Leite, Maurício Albuquerque e Silva, Osvaldo Scriorilli e Veríssimo de Jesus.

De acordo com a denúncia, Edir Macedo e os demais acusados há cerca de 10 anos vêm se utilizando da igreja para a prática de fraudes. Durante as investigações, os promotores conseguiram localizar milhares de depósitos em dinheiro em favor da Igreja Universal. Somente no período entre março de 2003 a março de 2008, esses depósitos somaram R$ 3,9 bilhões, de acordo com o MPE.

Levantamento feito pelo MPE e pela Polícia Civil, com base em dados bancários e fiscais obtidos judicialmente, mostra que a Igreja Universal movimenta cerca de R$ 1,4 bilhão por ano no Brasil, dinheiro arrecadado por meio do pagamento de dízimo por seus milhares de fiéis espalhados por 4.500 templos, instalados em 1.500 cidades do País.

Dízimo

Na denúncia, o MPE destaca que Edir Macedo e outros bispos destinavam grande parte de sua pregação para a coleta do dízimo, enfatizando a necessidade de a igreja angariar recursos para a compra de óleos santos de Israel, o financiamento de novos templos e o pagamento de pregações nas rádios e TVs. A Universal aceitava cheques, carros e outros bens como doação.

Ainda segundo a denúncia, Edir Macedo e os outros denunciados se aproveitaram da imunidade tributária estabelecida pela Constituição para templos religiosos e passaram a utilizar a Igreja Universal para benefício próprio, captando os valores dos dízimos, ofertas e contribuições dos fiéis, investindo em bens particulares, como imóveis, veículos ou joias. Para os promotores, ficou comprovado que o dinheiro das doações, em vez de ser utilizado para a manutenção dos cultos, era desviado para atender a interesses particulares dos denunciados.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Sarney tem razão: são todos bundões!


De Marcelo Taz

______________________________

Gente, vamos deixar de procurar chifre em cabeça de cavalo. Ontem Sarney deu uma mostra clara do por quê as acusações contra ele teimam em não "pegar". Temos um senado tão bundão, omisso e "esperto" quanto o próprio ex-presidente. O resumo do recado do bigode (nem precisava ter usado o powerpoint ou ter tomado café-da-manhã com Zé Dirceu): "ora crianças, logo vocês... somos todos iguais: um bando de bundões com 170 assessores treinados para não largamos nunca esse osso!"


Todos, sem exceção, colocaram suas barbas, cabelos tingidos e ternos mal cortados de molho. A TV Senado varria o plenário e a gente via com nitidez de um microscópico: a face espelhada suja do pessoal do demo, tucanos se ajeitando mal acomodados no poleiro do passado, suplentes tontos e desconhecidos entorpecidos de prazer diante do momento "histórico", o olhar vidrado anabolizado de Collor, petistas como Mercadante e Tião Viana, desconfortáveis com os closes da câmera em suas caras de coerência com prazo de validade vencido... Enfim, um espetáculo televisivo
muito didático.


Na mídia, outros velhotes medíocres que estavam em silêncio, como Carlos Heitor Cony, já saem em defesa de Sarney, ambos colegas imortais de biografia coroada com grand finale podre antes do pé na cova.


Desejo deles: parem de investigar o Zé, ele é como todos nós, um católico supersticioso com alguns pecadinhos.


Lamento informar, crianças. Se preferem continuar agarrados ao osso onde mamam há décadas, a escolha é vossa. Ano que vem, tem renovação de 2/3 do Senado e, tecnicamente, 100% da Câmara. Se já se assustaram com o "tsunami da internet" desta vez, imagine o que vem aí nas Eleições 2010. Uma indigestão muito forte está a caminho. Não digam que não avisei.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Ler é trabalho!


Em pleno século XXI, qualquer teórico ou estudioso das questões de leitura no Brasil afirma, sem rodeios, que ainda somos um país que pouco lê – quase nunca – se comparado a outros mais desenvolvidos.
Isso explica ou está relacionado a alguns fatos: a falta de hábito de escrever, por exemplo. Sem dúvidas, a sociedade brasileira se expressa mais pela oralidade que pela escrita. Somos uma sociedade que se informa mais pelo telejornal ou pelas conversas de beira de esquina que pela leitura de jornais, livros ou revistas.
Nossos professores do colegial sempre nos ensinaram que ler é importante – embora a maioria deles não gostasse de ler. Então, ler é importante, certo? Certo.
No entanto, se olharmos mais de perto a leitura na escola, a prática contraria o discurso. Contrariamente ao que se prega, se há um fato que tira do sério a maioria dos coordenadores de ensino é ver uma cambada de moleques e um professor fora de sala lendo. Chamam logo o professor no saco: “O que esses meninos estão fazendo fora de sala, não há nada pra fazer?”. Isso com a maior naturalidade (e ignorância), como se ler não fosse fazer alguma coisa, não fosse trabalho. Ler exige concentração, disposição, atenção, etc. Ler é tarefa. Ler é exercício. Ler é trabalho!
Se algum professor quiser transparecer que não está com vontade de dar aulas, basta levar os alunos para uma sala de leitura ou para um pátio para ler. Lamentavelmente, para um bocado de gestores, mais importante que essa história de ler é cumprir o programa de ensino ditado pela Secretaria de Educação.

Tiago Tavares

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A queda - As últimas horas de Sarney?

video

Segunda-feira, à noitinha, Cristiana Lôbo, do G1, publicou mais uma notinha sobre a novela Sarney. Seriam as últimas horas dele no Senado? Seria "A Queda"? Tenho lá minhas dúvidas. Enquanto isso, curtamos o vídeo que está rolando no youtube (trecho do filme A Queda - as últimas horas de Hitler), uma sátira a Sarney e ao safado e preguiçoso Congresso que (man)temos em Brasília.

P.S.: vi este vídeo pela primeira vez no blogue do prof. Aldo Nascimento.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Edu Lobo é irado, tá ligado, bródi?


De Arnaldo Bloch - 02/08/09
_________________________

*Culpar a juventude? Ah, não esculacha!*

Estacionei a bicicleta em frente ao BB lanches e, enquanto acertava as extremidades da tranca, ouvia a conversa da rapaziada.
- Aquele som é irado. Frenético.
- Caraca, bródi, mandaí. Fiquei bolado.
- Sinistro.

Atei o cadeado, empinei o nariz e tive certeza de que o som era um rap, um funk, ou algo que não soasse minimamente eficaz sem uma roda de subwoofers estourando o asfalto.

Entre as gírias, contudo, identifiquei elementos estranhos ao contexto aprioristicamente estabelecido (precontexto?): - Anos 60, bródi, a música brasileira bombava, Edu Lobo era sinistro, compositor de responsa. "Ponteio" ganhou o festival, tá ligado? "Ponteio", tá ligaaaaado, bródi????? Pisquei umas três vezes para checar se era a endorfina que me fazia ouvir vozes e dei uma porrada no tornozelo em vias de câimbra.

Mas as vozes não davam trégua: - Viu o Quarteto Novo no acompanhamento, bródi? Quarteto Novo e Edu Lobo era um esculacho, Hermeto quebrava tudo.

Era isso mesmo: os presumidos três patetas, que minutos antes não passavam de uns manés mais alienados que a própria alienação, convertiam-se, num átimo, em adolescentes esclarecidos, discutindo, com os recursos idiomáticos à disposição, o panorama da música brasileira nos anos 60, e faziam juízos de valor numa escala primária, mas correta.

Dias antes, num debate do qual participara na Biblioteca Nacional, para um público de ensino médio (com Mauro Ventura e Vítor Iório na mesa), alguém, entre os catedráticos presentes, puxou a ladainha: - A juventude não lê. Não sabe de nada.

Fica à mercê da televisão e da internet.

Eu, que sou bem mais jovem que o dito catedrático, já defendi muito essa ideia, que pode ter lá suas razões de ser. Mas, diante de um público de ensino médio atento, simpático e interessado, puxei pelo meu registro mais moderado e, talvez, temperado pelos primeiros ventos da maturidade.

- Quer saber? Cansei dessa conversa de que a juventude não lê. E, se não lê, de quem é a culpa? Dos professores, do ensino, do desprezo pelo conhecimento de humanidades, do espírito de competição acirrada e de interesse ultraespecializado, da falta de ideias e, sobretudo, da ausência de um chefe de Estado que faça a revolução pela educação, aquela que ninguém tem coragem de assumir como prioridade? - discursei.

Uma semana depois, em bate-papo com a atual turma de estagiários do GLOBO (cheia de gente a fim de inovar) conduzido pelo Luiz Paulo Horta, eu repercutia minhas impressões, partindo para uma autocrítica de meus tempos de adolescente em Copacabana.

- A gente fala muito das novas gerações, mas se eu for analisar, passei a minha juventude assistindo a "Star Trek", "Vila Sésamo", chupão da Sandra Bréa na novela das dez e, nos intervalos, folheando revista de mulher pelada. Tudo bem que as noites eu consumia em claro lendo clássicos (indicados por meu pai, não pela escola) e tentando escrever uma obra-prima (nos intervalos, mais mulher pelada...), e pela manhã mamãe achava que eu estava tuberculoso. Consciência política, nascido que fui em 1965 e não tendo tido pais militantes, a minha, então, era zerinho da Silva. Só acordei para a vida ao gongo de Vianninha e Millôr, quando a censura caiu aos 45 do segundo tempo, e os teatros fervilharam.

Tudo isso para dizer que essas sentenças sobre a juventude dos outros são o maior papo brabo. Um colega aqui da arte discorda: diz que o tal encontro no bicicletário do BB lanches foi como um raio divino, exceção das exceções, o cara citando Edu devia estudar música, daí aquela espuma de conhecimento borbulhando no mar de gírias.

Sei não. Saber escolher o que ler e o que saber na internet não é muito diferente de se antenar com as prateleiras de uma biblioteca.

Sem interesse, sem paixão, não se vai encontrar nada que preste, no papel ou no monitor, hoje ou há cem anos, com as gírias de hoje ou as do baú do tataravô.

Dizem que o mundo atual é tribalista. Quem quiser conversar sobre o quanto Edu Lobo é irado, tá ligado, bródi? (no meu tempo eu diria Edu Lobo é um barato, morou, xará?, e meu pai talvez dissesse Edu Lobo é bacana, manja, meu chapa?, e vovô diria que o Edu é batuta, supimpa, XPTO, e vamos), mas como eu ia dizendo, quem quiser encher a bola de Edu Lobo vai encontrar a turma certa na casa de sucos certa, na gíria certa, sem prejuízo ou exclusão da turma do funk, isso quando as duas turmas não se cruzarem nas fusion sessions ou nas pistas ao som de remixesgeniais. E digo mais: uhuuuuu, isssssssa, cáspite, caraca.

Culpar a juventude é o mesmo que culpar a política, o jornalismo, o direito, a medicina, pelos erros do político, do jornalista, do juiz, do médico. O mesmo que culpar o funk pela violência dos indivíduos. É o medo de olhar para o umbigo da própria ignorância, o envelhecimento das ideias, a preguiça de transformar, de compreender as novas falas quando estas anseiam por conhecimento mas rejeitam o bolor e o peso de métodos, currículos e formações ora substanciais no conteúdo e velhas no código, ora vazias de saber e mais modernas que a modernidade.

Viva a juventude. Viva Edu Lobo. Viva o funk. E viva a educação.

domingo, 2 de agosto de 2009

Palavras ao vento


Em busca do texto, quiçá, do pretexto para escrever, perco-me;
Então, assim mesmo, lanço-me no inescrutável mundo dos versos, dos vocábulos, imersos, em tão profunda obscuridade.
Títulos, subtítulos, tantos, quantos...
Ah, não! este, não; este, também não; nem aquele; são todos ridículos.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Classe Média - Max Gonzaga

video

Classe Média

Max Gonzaga

Composição: Max Gonzaga

Sou classe média
Papagaio de todo telejornal
Eu acredito
Na imparcialidade da revista semanal
Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio “coletivos”
E vou de carro que comprei a prestação
Só pago impostos
Estou sempre no limite do meu cheque especial
Eu viajo pouco, no máximo um pacote cvc tri-anual
Mais eu “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”

Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Mas fico indignado com estado quando sou incomodado
Pelo pedinte esfomeado que me estende a mão
O pára-brisa ensaboado
É camelo, biju com bala
E as peripécias do artista malabarista do farol
Mas se o assalto é em moema

O assassinato é no “jardins”
A filha do executivo é estuprada até o fim
Ai a mídia manifesta a sua opinião regressa
De implantar pena de morte, ou reduzir a idade penal
E eu que sou bem informado concordo e faço passeata
Enquanto aumenta a audiência e a tiragem do jornal
Porque eu não “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em
itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Toda tragédia só me importa quando bate em minha porta
Porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida