terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Alguma poesia que faço: O amor

O amor nasce,
O amor cresce,
O amor resiste;
O amor persiste.
O amor sente,
O amor é sentido,
O amor faz viver;
O amor é vivido.
O amor espera,
O amor sonha,
O amor desfalece.
O amor renasce;
O amor...O amor...
É um mistério.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Clarice Lispector: muitas mulheres em uma só

“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”
Clarice Lispector (1920-1977)
O pouco que conheço de Lispector é absolutamente suficiente para envolver-me, atrair-me. Seus textos são belíssimos; mais: profundos.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Uma expressão quase vazia de significado

É curioso observar como há gente com tanta habilidade na hora de classificar determinadas ocorrências linguísticas de “erros de português”. Tal classificação, no entanto, do ponto de vista estritamente linguístico, é tão imprecisa quanto dizer quem vai ganhar num duelo entre Palmeiras e Corinthians; tão vazia de significado quanto nomear uma equipe de especialistas em uma dada área da botânica de “pesquisadores de biologia”.
Fico embasbacado ao ver como há jornalistas que opinam sobre língua sem o mínimo conhecimento científico do assunto. Hoje pela manhã, eu assistia a uma deliciosa e inteligente reportagem (pelo menos enquanto o assunto não era língua, é claro) sobre os 455 anos de fundação da cidade de São Paulo, exibida pela Rede Record, quando a repórter, ao falar da impetuosa imigração de nordestinos para São Paulo, citou um famoso sanfoneiro, filho de italianos, que, segundo ela, compunha músicas com “muitos erros de português”.
Toda vez que ouço essa expressão, fico me perguntando durante um bom tempo o que isso quer dizer. Depreendo que há erros ou desvios de ortografia, de concordância nominal, de regência etc. mas, nunca compreendi bem essa genérica expressão “erro(s) de português”. Se alguém que me lê a entende, ajude-me, por favor!

sábado, 17 de janeiro de 2009

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?
Cecília Meireles (1901-1964)

Dizer que Cecília Meireles é uma das maiores poetisas da literatura brasileira (ou mesmo da literatura mundial) é de uma trivialidade tão grande que prefiro não dizer nada. Restrinjo-me a contemplar, entre outras coisas, seus escritos e sua aguda sensibilidade. Sem palavras.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

"Dê-me", diz a gramática, mas o brasileiro diz "me dá"!

Pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido;
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
Oswald de Andrade (1890-1954)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Você entende internetês?

Por Carlos Alberto Faraco

td blz? axu q tb naum vo hj... te+!!! abs!!!
Entendeu a mensagem? Bem, se você não é da tribo, certamente não entendeu o que está escrito aí. Trata-se de um fenômeno que se espalhou pelas salas de bate-papo (os famosos chats) da internet. É uma escrita que não segue a grafia normal da língua e que em muitos momentos lembra as abreviaturas que nós mesmos criamos para nossas notas pessoais de uma aula ou de uma conferência.
Os internautas, especialmente os jovens, desenvolveram esse novo sistema de escrita que acabou sendo chamado de internetês, embora não seja uma “língua”, mas apenas um modo de grafar as palavras.
Nele, se faz a redução drástica da forma gráfica das palavras, usam-se várias abreviaturas e dispensam-se os acentos. O sistema se completa com os chamados emoticons (do inglês emotion icons, ou ícones de emoções), ou seja, as carinhas em cuja composição entram, em diferentes combinações, a letra O, o sinal de dois-pontos, o hífen e cada um dos sinais de parênteses para sugerir expressões faciais de alegria ou tristeza, de espanto ou cansaço, como :-) ou :-(
Embora haja variações nas abreviaturas e símbolos utilizados, há uma boa parte já convencionalizada. E a razão é óbvia: se cada um criasse seus próprios símbolos, a comunicação seria impossível.
A invenção desse tipo de representação gráfica da língua decorreu da necessidade que os freqüentadores dos chats têm de escrever com muita rapidez para manter o bate-papo cheio de vida.
No fundo, trata-se da criação de uma espécie de taquigrafia ou estenografia. O fundamento é o mesmo: como nunca conseguimos escrever na mesma velocidade da fala (a mão é muito mais lenta do que o aparelho fonador), inventamos modos abreviados, condensados de grafar que nos permitem, então, registrar a fala acompanhando seu ritmo.
Algumas pessoas, ao verem textos escritos em internetês, ficam muito assustadas e logo pensam que os fins dos tempos estão chegando, que a juventude está perdida, que a internet está destruindo a língua. Ora, há um evidente exagero nessas reações. Primeiro, porque a língua em si não está sendo de modo algum afetada: as palavras continuam com suas pronúncias e seus sentidos corriqueiros. Elas estão apenas sendo grafadas de modo abreviado.
Por outro lado, o internetês é uma bela expressão da criatividade humana: os internautas estão dando uma resposta criativa às demandas postas pela comunicação rápida e informal que a tecnologia tornou possível. Estamos, então, diante de uma solução e não de um problema.
Claro, como qualquer sistema taquigráfico, esse modo de grafar a língua tem uso restrito. Ele cabe perfeitamente nos bate-papos rápidos e informais dos internautas. Em outros contextos, ele será totalmente inadequado. Assim, temos obrigatoriamente de usar a grafia normal em todo material escrito que se destina ao público em geral, como os jornais, os livros, as revistas, a publicidade, os documentos oficiais, as páginas da própria internet e assim por diante. Também nas provas, cartas formais e trabalhos escolares. Do contrário, não seremos entendidos e a comunicação escrita ficará frustrada.
O desafio posto hoje aos professores de português é mostrar precisamente isso aos jovens. Saber escrever de duas maneiras pode ser melhor do que escrever de uma só. Mas a competência se revela mesmo no uso adequado de cada sistema em seus respectivos contextos.

Professor Titular (aposentado) de Lingüística e Língua Portuguesa da UFPR E-mail: deolhonalingua@ufpr.br

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Protege-nos, Protógenes!

"Protege-nos, Protógenes!" Gostei muito do efeito de palavras produzido pelo desenhista do Roda Viva - muito "fera", diga-se de passagem - enquanto o destemido Protógenes Queiroz, delegado da Polícia Federal, era entrevistado no programa.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Sobre o Acordo Ortográfico - 3

Para a maioria dos bons profissionais do jornalismo brasileiro, sobre língua, atualmente não há nada mais interessante do que tratar do famígero Acordo Ortográfico.
Admiráveis jornalistas falam com certa frequência em "Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa". Do ponto de vista linguístico, todavia, a coisa não é bem assim. As mudanças ortográficas constantes do texto do Acordo Ortográfico são poucas; de maneira geral, alcançam a acentuação de algumas palavras e tentam tornar mais racional o emprego do hífen. Isso mexe em algo próximo de 0,5% das palavras escritas em língua portuguesa, o que é muitíssimo pouco para se falar em reforma. O que temos hoje é apenas a unificação das duas convenções ortográficas que vigoram no mundo da língua portuguesa: a brasileira, aqui no Brasil; e a portuguesa, em Portugal e nos demais países ditos lusófonos - Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor Leste. Portanto, caros leitores, não se trata de uma reforma, é apenas um acordo de unificação ortográfica!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Sobre o Acordo Ortográfico - 2

Quase tudo o que é publicação midiática (pelo menos quando o assunto é língua) merece alguma desconfiança científica. Isso se deve ao seguinte fato: quase nunca as opiniões são emitidas por verdadeiros especialistas da área. Devido à divulgação do texto do Acordo Ortográfico, nestes primeiros dias de 2009, a imprensa - mais frequentemente a televisionada - muito tem falado sobre uma (suposta) unificação da língua portuguesa. Há, no entanto, nessa forma de abordagem da questão, um notável equívoco linguistico. As línguas não são passíveis de unificação. As línguas, conforme o tempo e o uso (estes são apenas dois, de muitos tantos outros elementos responsáveis pelo fenômeno da variação das línguas), variam, mudam, adequam-se às necessidades e às situações discursivas de seus falantes, usuários; assim, não há, portanto, acordo, lei, decreto ou tratado no mundo que as unifique, que as torne homogêneas. O texto do Acordo prevê, na verdade, a unificação da ortografia dos países de língua oficial portuguesa, conforme já esclarecido na postagem 1.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Sobre o Acordo Ortográfico - 1

Como muito do que a mídia divulga sobre língua, nas matérias sobre o Acordo Ortográfico, a abordagem acerca do trema (¨) tem, quase sempre, alguma dose de imprecisão. De quando em quando, assistimos a jornalistas de grande nome - como Carlos Nascimento, do Jornal do SBT - fazendo a seguinte pergunta: "E agora, sem o trema, diremos linguiça (como dizemos preguiça) ou linguiça mesmo, como já pronunciamos?".
Esclareçamos a questão: o Acordo não mexe na pronúncia das palavras, por isso foi denominado Acordo Ortográfico, acordo sobre a grafia, isto é, sobre a escrita das palavras nos países de língua oficial portuguesa. Portanto, com o trema ou sem ele, a pronúncia de linguiça continuará a mesma.
Na escrita, a que de fato o Acordo Ortográfico se destina, no entanto, não se deve mais usar o trema, exceto em palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros que o têm: Müller, mülleriano, por exemplo.
Assim, escreveremos linguiça, frequente, aguentar, sequência, tudo bem tranquilo.