terça-feira, 31 de março de 2009

Uma forma de traumatizar

Minha ínfima experiência lecionando em sala de aula me impede de fazer comentários e afirmações mais firmes e categóricas a respeito do ensino de Língua Portuguesa; no entanto, há coisas que não necessitam de tanta prática ou superdotada inteligência para serem percebidas e denunciadas.
Apesar da pouca experiência, de porte de algum conhecimento teórico, arriscarei fazer alguma análise panorâmica do ensino de língua portuguesa. Tomarei como objeto de análise as aulas a que tenho assistido ultimamente, na sexta série “B”, na escola Marilda Golveia Viana.
Nas aulas de língua portuguesa, a primeira coisa que qualquer estagiário de senso crítico minimamente aguçado percebe é que os alunos são ensinados a pensar exclusivamente por duas linhas, opostas e excludentes, quais sejam: certo e errado.
Por outras palavras, nas aulas de língua portuguesa (ou de gramática), só se aprende o que é “certo” e o que é “errado”, nada mais. De um lado, temos o professor de português, que “fala certo” e “escreve certo”, que é detentor da “língua boa”, da “norma culta”, “correta”; de outro, o aluno, que “fala tudo errado” e que é absurdamente ensinado a pensar que “não sabe nada de português”; e que, portanto, precisa aprender com o mestre. Isso se deve, em parte, à jurássica confusão entre gramática e língua: aquela é tomada por esta; ou seja, a gramática é tida como sendo a própria língua, servindo de parâmetro de correção e coerção.
Isso é grave por pelo menos duas razões: primeiro, o aluno passa a acreditar que a língua falada por ele é imprestável, errada; segundo, a rígida “correção” bloqueia o aprendizado desse aluno, traumatizando-o.
Das aulas a que tenho assistido, posso afirmar com plena segurança que não há reflexão alguma sobre “variação linguística”. Quando muito há, aborda-se superficialmente a “variação linguística regional”, somente. A variação das línguas vai muito além disso. Muito mais.
Assim, o aluno é levado a pensar que só existe uma única forma de se dizer a mesma coisa; e que, qualquer outra possibilidade de manifestação linguística, implica erro grave, e até “assassinato gramatical”. Absurdo!
Numa dessas aulas, um aluno disse à professora: “professora, não truce o jornal”. Imediatamente, com ar de “sabe tudo”, a professora atravessou: “não é truce, é trouxe!” Num outro momento, um outro aluno pediu para “ir no banheiro”. Como era de se esperar, a mestra exclamou: “não se diz ir no banheiro”, se diz “ir ao banheiro!” Pensei comigo: “esse não abre mais a boca”. Dito e feito.
Não quero dizer, com esse relatos, que não se deva ensinar uma forma prestigiada de falar e de escrever; quero dizer, todavia, que a(s) forma(s) pretigiada(s) de se dizer e escrever não é(são) a(s) única(s) existente(s). É perfeita e cientificamente demonstrável que a fala não é caótica, sem ordem e sem gramática, como pensam e dizem alguns (desinformados). Dito de outra forma, a fala, a língua do aluno, obedece a normas, a regras de funcionamento, presta, é português; e como tal deve ser analisada, estudada e respeitada.
É muito menos tolo, do meu ponto de vista, mostrar ao educando POSSIBILIDADES de se dizer a mesma coisa, discutir com ele o valor que uma ou outra variedade da língua recebe pela sociedade, do que, com base em definições gramaticais imprecisas, muitas vezes pouco consistentes, condenar uma forma e abonar outra. Por que não dizer ao garoto que “ir no banheiro” também é português, mas que as camadas sociais mais elitizadas prestigiam “ir ao banheiro”? que mal há nisso? Que mal há em alertá-lo que, junto com a lei e outras coisas mais, as elites impõem também uma “língua certa”, única digna de ser chamada língua portuguesa? Por que a insistência em meter na cabeça do educando que a língua dele está errada? É tão difícil falar em “possibilidades” de se dizer e escrever a mesma coisa?
Do ponto de vista puramente linguístico-científico, os especialistas são unânimes em dizer que nenhuma variação é superior ou melhor que outra; as variações são, contudo, DIFERENTES umas das outras, e a sociedade – mais precisamente as classes elitizadas – é que atribuem valores a esta ou àquela variação, tornando-a mais ou menos prestigiada.
Se quisermos construir uma pedagogia da variação linguística, precisamos imediatamente repensar nossas concepções de linguagem, deixarmos de tratar a língua como homogênea e imutável. Não esqueçamos que é bastante louvável ensinar ao aluno o que é uma língua e o que é uma gramática. De outro modo, o ensino de língua materna tem grandes chances de continuar sendo uma forma de traumatizar.

domingo, 29 de março de 2009

Um domingo espetacular

Sou órfão de pai. Aos 10 anos de idade, numa cinzenta manhã, recebi a triste notícia de que haviam matado o senhor Auricélio Sá de Lima, meu querido papai. Apesar de ele nunca ter morado comigo nem jamais ter assumido seu papel de pai, sempre o tive como tal. Ele sempre me fez falta, muita falta.
Hoje, aos 20 anos, recebi um maravilhoso presente de Deus: meu tio, Ivo, que me viu ainda mamando, veio à minha casa. Conversamos sobre muitas coisas, inclusive sobre a triste morte do meu pai. Ter visto o meu pai em vida apenas uma única vez, e após 20 anos contemplá-lo por foto dentro de um caixão, é duro. Rasgou-me o coração. Mas, deixarei a parte triste de lado.
Vivi um “domingo espetacular”. Tive ainda a oportunidade de falar (por telefone) com meus avós paternos e com um bocado das minhas tias, que moram em Porto Velho-RO. Foi maravilhoso, magnificentíssimo!
Como se não bastasse tudo isso, terei a oportunidade de ir, se Deus permitir, no final deste ano, a Porto Velho, visitar e conhecer minha família; e, sobretudo, meus dois irmãos, por parte de pai – Leonardo e Lucas.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Certas palavras e expressões

Na língua portuguesa, como em todas as línguas, certas palavras e expressões, com o passar do tempo, vão agregando em torno de si fixos sentidos, conjuntos de idéias, sinônimos etc. Ser “especialista” em alguma área científica, significa, quase sempre, ser “oposicionista”, contrário a tudo que é de senso comum. Hoje, por exemplo, quase todos os cientistas políticos “descem o pau” no mandato de Lula, embora com governos anteriores tenha sido diferente. Abafa!
Por falar em Lula, estou farto de ouvir baboseiras do tipo “Lula não sabe nem falar”. Então, como é que ele fala, se não sabe falar? Mais: todo mundo entende direitinho o que ele fala, tanto que o Brasil inteiro votou nele; portanto, se ele fala, logo sabe falar. É óbvio.
Difícil é pensar no vocábulo “mídia” sem se lembrar, logo em seguida, dos termos “sensacionalismo” e “audiência”. “Negro” está diretamente ligado a “discriminação racial”, “desigualdade social” e, não raro, a “marginal”. Aqui, uma coisa vale dizer em alto e bom som: No Brasil existe racismo sim! Que o digam os discriminados, os negros. Digo isso porque, um certo ex-político acriano, de quem prefiro não revelar o nome, afirmou, com todas as letras (e, até um certo ar filosófico), que, “no Brasil, não existe racismo”. Uso do meu direito: discordo. Os fatos estão aí, para quem quiser ver, é claro. Valho-me do velho dito popular: “Contra fatos não há argumentos.”
E o que dizer da expressão “Congresso Nacional”? Aposto todas as minhas fichas como essa tua mente, totalmente destituída de malícia, já se remeteu, agorinha, aos termos “corrupção”, “roubo”, “mentira”, “mensalão”, “mensalinho”, “compra de dossiê” e muitas coisas ruins mais.
Isso se deve, todos sabemos, ao “ótimo trabalho” que vem sendo feito pelos nossos governantes em Brasília. Parabéns, amados políticos brasileiros! Continuaremos votando em vocês!

Reflexão gramatical

Talvez, a alguns que me lerão, poderá parecer meio sem razão ou estranho o que vou dizer: acho maravilhoso estudar o emprego da vírgula e das conjunções adversativas. Por essa razão, resolvi escrever um breve texto sobre o assunto.
Sei que existem centenas de escritores melhores do que eu, bem como sei que não estou entre os piores, tenho alguma noção de escrita. Tendo isso em vista, pretendo, por meio deste texto, ajudar a qualificar a escrita daqueles que se interessam pela produção de bons textos. Vamos refletir juntos sobre esse assunto:
As conjunções são essenciais para manter a coesão textual. Dito de outro modo, as conjunções servem para relacionar dois termos semelhantes de uma oração ou duas orações de um mesmo período.
Bom, as classificações dos tipos de conjunção são várias; e cada uma tenta expressar a função e o sentido que uma dada conjunção exerce na frase. Não nos é possível tratar aqui de todas as conjunções; assim, interessam-nos somente as conjunções adversativas, que, de novo, ligam dois termos ou duas orações, acrescentando-lhes, no entanto, uma idéia de contraste, de adversidade. As principais conjunções adversativas são: mas, porém, todavia, no entanto, entretanto e contudo.

Do sentido
Um exemplo: “Fui à escola, mas não houve aula”.
Repare que, a segunda oração, sintaticamente ligada à primeira pela conjunção adversativa “mas”, dá ao enunciado uma idéia de contraste, um sentido de adversidade, de contrariedade. Entende-se tal oposição de sentido porque o comum seria que, ao chegar à escola, houvesse aula.


Do emprego
Das adversativas, “mas” é sempre empregada no início da oração. Exemplo:
-- Vá aonde quiser, mas fique morando conosco.

Já as outras conjunções adversativas que mencionamos (porém, todavia, contudo etc) podem vir ora no começo da oração, ora após um de seus termos:
-- Vá aonde quiser, porém fique morando conosco.
-- Vá aonde quiser, fique, porém, morando conosco.

Note que, no primeiro exemplo, põe-se uma vírgula antes da conjunção; no segundo, vem ela entre vírgulas.
Há uma pausa bastante acentuada entre as orações que utilizamos acima como exemplo; por isso, podem elas ser separadas por ponto-e-vírgula. Assim:
-- Vá aonde quiser; porém fique morando conosco.
-- Vá aonde quiser; fique, porém, morando conosco.

A este último exemplo é mesmo a pontuação que melhor cabe.

Não me iludo: sei que este blog é lido por pouquíssimas pessoas, quase nenhuma, é verdade. Isso não me incomoda. Aos poucos que leem, procuro me dedicar, fazer o melhor texto, dentro das minhas limitações e possibilidades, é claro. Talvez este texto, por alguma razão, não seja tão claro para todos que lerão, no entanto, a alguém servirá, pelo menos um o entenderá.
Assim, espero, leitor meu, ter contribuído para a qualificação da tua escrita. Obrigado por me ler!

domingo, 22 de março de 2009

Alguma picuinha gramatical

Procurando entender um pouco mais sobre júri popular, fui até um texto da Veja, que responde a algumas questões a esse respeito. Lá, para a resposta de nímero 12, encontrei a seguinte pergunta: "O que fica à cargo do juiz em uma sessão de júri popular?".
Não sei como os farejadores de erros da Veja não sentiram o cheiro putrefacto exalando de "à cargo". "Cargo" é substantivo masculino; portanto, a preposição que o antecede não deveria estar acentuada pelo acento grave, marcador do fenômeno da crase (fusão do artigo "a" com a preposição "a"), que, nesse caso, jamais existiu.

Sacanagem, hein, DETRAN!

O corre-corre da vida não é como nesses filmes fantásticos (a) que assistimos na Globo, nem como nos desenhos exibidos pela Record. Enquanto vivermos sobre esta Terra, teremos aflições, passaremos por constrangimentos de todas as ordens, perrengues, seremos decepcionados por nossos melhores amigos.
Há constrangimentos mais simples – como chutar um tijolo em frente a uma lanchonete –; e outros mais graves: escorregar numa casca de banana e cair de bumbum no chão, na frente de um monte de meninas, por exemplo. Assim classifico eu, mas só quem vive tais situações sabe qual delas é a mais constrangedora. Vale lembrar que isso pode acontecer com qualquer pessoa, seja rica, pobre, cristão, não-cristão etc.
Na última sexta, 20, passei por um desses perrengues da vida. Cheguei ao SEBRAE por volta das 15:00h, para me inscrever no concurso do DETRAN-AC. Antes de sair de casa, li os trechos que considerei mais importantes do edital do concurso, mas não teve jeito, dancei legal.
Depois de esperar que fossem chamadas umas 200 pessoas (não estou exagerando), consegui pegar uma senha, já às 17:00h. Só não me avisaram que eu ia ter que esperar tanto: peguei a senha de número 482. Paciência, muita paciência!
Até ali tudo bem, fiz o que todo mundo fez (ou, pelo menos, o que todo mundo deveria fazer). Tendo minha senha, pensei: “bom, já tô aqui, não vou mais desistir, não”.
Veio a fome, sede, vontade de ir ao mictório - nome chique esse, hein! Cansado de ficar em pé, sentei... no chão, pois não tinha (ou, não havia, como queiram os puristas) cadeira para todo mundo.
Quando chamaram o dono da senha 380, já às 20:00h, um maravilhoso ser, de sexo feminino, com sua belíssima voz de comissária de bordo, anunciou: “pessoal, quem não trouxe a declaração da Universidade, nem adianta ficar na fila”. Sacanagem. Eu não tinha a tal declaração. Tinha boletos bancários referentes às mensalidades, tinha ainda a própria ficha de inscrição na Faculdade, mas, segundo o coordenador do concurso, esses documentos não serviam.
Apesar disso, pensei: “deve ter um jeito, vou pedir para sair e ir lá na Faculdade agora. Não me deixaram sair. De novo, sacanagem! O porteiro, com sua falsa dó de mim, disse que quem saísse não poderia mais entrar. Sacanagem!
Finalmente, cansado, chateado, com fome, com sede, com sono, “pedi pra sair”.
Como sei que esse é do tipo de concurso que funciona na peixada, sabendo que já existem cartas marcadas, e que eu, como muitos jovens desempregados de Rio Branco, dificilmente conseguiria uma vaga, tratei logo de me conformar, no caminho, de volta para casa. Agora só me resta uma coisa: estudar muito Direito direitinho para o concurso da Secretaria da Fazenda.

Uma dica: nunca vá à inscrição de um concurso sem a declaração da Universidade onde estudas! Com essa eu aprendi.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Duvido!...

Ontem, no Rio, a ABL, Academia Brasileira de Letras, lançou o Volp, Vocabulário ortográfico da língua portuguesa. Com 976 páginas e 381.128 verbetes, a “bíblia” ortográfica tem a finalidade, segundo Daniella Clark, de esclarecer as dúvidas deixadas pelo texto do Acordo Ortográfico.
No texto de Clark, no sítio G1, portal de notícias da Rede Globo, uma afirmação atraiu as minhas retinas. Evanildo Bechara, um dos nossos melhores gramáticos em atividade no país, "Perguntado se já havia memorizado todas as novas regras, ...brincou: Não. A gente está trabalhando nisso, disse rindo,..." Até aqui tudo bem, eu também não aprendi (por mera falta de interesse) todas as normas, ainda. Continuando a transcrição da resposta de Bechara, vem o que mais me interessou no texto: "...sempre ressaltando que considera a reforma um caminho essencial para a sobrevivência da língua portuguesa."
Bom, para qualquer bom entendedor, para qualquer um que saiba minimamente interpretar um texto, ou uma resposta, como é o caso, as linhas transcritas acima estão muito claras, não deixam dúvidas.
Lendo isso, inevitavelmente, fica a pergunta: o que tem a ver a “sobrevivência da LÍNGUA portuguesa” com a (suposta) e famigerada “reforma”? Bechara disse isso mesmo? Não acredito. Prefiro pensar que colocaram palavras na sua boca.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Cultura, a TV que faz bem

Entre as grandes raridades da vida, está assistir a um bom programa na televisão brasileira aberta. Não há muitos bons programas televisivos (e aos poucos que há, uma grande parte da população prefere não assistir).
Na verdade, o que é bom para uns, para outros, é lixo. Assim, há uma massa retumbante que adora ver o BBB 9 (nada contra), ao passo que uma minoria, um pouco mais atenta, prefere o Jornal do SBT, o Jornal Nacional ou o Roda Viva.
Não obstante o que dissemos, ainda é possível assistir a alguns poucos bons programas, pelo menos enquanto a TV Cultura existir e continuar contratando profissionais intelectualmente honestos. Ontem, zapeando no controle remoto, encontrei e tive a felicidade de assistir, no Especial Cultura, exibido por essa emissora, a uma entrevista com Elis Regina (1945-1982), uma das principais cantoras representantes da Música Popular Brasileira, a famosa “Pimentinha”, segundo Vinícius de Moraes, ou “Elis-cóptero”, como era chamada pela grande amiga Rita Lee. Em que outro canal de televisão se vê uma entrevista de Elis Regina, senhores?

É claro que a TV Cultura tem lá suas deficiências, bem como a Globo, a Band (com o CQC, por exemplo) e a Record têm suas qualidades (contáveis a dedo, é verdade); portanto, nem tudo são mil maravilhas. Mas, dessas quatro, sem sombra de dúvida, fico com a Cultura.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Ditadura gramatical

É mais que óbvio, para todos aqueles que quiserem ver, que, hoje, a maioria dos valores sociais estão invertidos; no mundo gramatical, não ocorre diferente: ao invés de partirmos do princípio de que a gramática se funda (ou deveria se fundar) no uso tido por culto, temos o contrário: os usos ditos cultos se fundam na gramática. Por outras palavras, a língua é submetida ao que diz a gramática, como se esta fosse aquela. A partir disso, tudo o que não estiver nos compêndios gramaticais é inculto, adjetivo que, por si só, é por demais expressivo, encurralando a retumbante maioria dos brasileiros; mas, deixemos essa questão para outro texto.
Tendo o que foi dito, num tempo em que não estamos mais vivendo a ditadura, os gramáticos exercem papel de ditadores: eles ditam, e nós obedecemos.
Uma pequena nota: há um poderosíssimo mercado livresco sendo abastecido e fomentado por essa ditadura. Não é à revelia que temos “colunas do português correto” (seja lá o que isso queira dizer), “consultórios gramaticais”, “manuais do bom português”, livros como “Não erre mais”, de Antônio Saconni, e por aí vai... E que problema há nisso? Aparentemente nenhum, pois só vemos aquilo que os nossos olhos veem, infelizmente. A esse respeito, uma coisa vale dizer: não é estudando normas gramaticais mortas e desconexas da realidade linguística culta brasileira que nossos alunos irão produzir bons textos; mas, sim, lendo muitos textos bem escritos (não como este, é claro), escrevendo mais ainda e, observando, com o acompanhamento do professor de língua, como esta funciona, como ela se organiza.
No meu tempo de ensinos médio e fundamental, normas foram ditadas de cima para baixo; e nós, sem questionamentos, sem direito a dizer nada, nada mesmo, tivemos de "engolir goela abaixo”. Tenho certeza que ainda hoje é assim, não muda, é crônico, grave. Definições como “sujeito é o ser sobre o qual se faz alguma declaração”, de cunho filosófico, e não propriamente linguístico, há muito questionadas por inúmeros pesquisadores e estudiosos da língua, são verdades absolutas nas aulas de língua (ou mesmo, de pura gramática) do Brasil até hoje. Absurdo equivalente seria continuar acreditando que o Sol gira em torno da Terra, quando Nicolau Copérnico há muito provou o contrário, ou mesmo que, apontar para as estrelas faz nascer verrugas.
É por essas e outras razões que se diz (com toda a razão) que uma das poucas ciências que não evoluem é a gramática – se é que esta pode ser chamada de ciência.
Regências verbais e nominais de total domínio dos falantes brasileiros (tidos por cultos, é bom que se diga) ainda são proibidas, isso mesmo, proibidas, vedadas, pela maioria dos autoproclamados guardiães da “boa língua”, por aqueles que defendem a língua das “atrocidades” de seus próprios falantes – despropósito parecido seria baixar um decreto proibindo as plantas de desenvolverem tamanhos diferentes umas das outras, ou de terem raízes distintas, por exemplo.
Professores, políticos, acadêmicos e doutores dizem, e com frequência escrevem, coisas do tipo “José está namorando com Ana”, “os danos causados pelas enchentes implicarão em gastos para o governo”, “obedeci o pai” etc. A esse respeito, com exceção do que dizem alguns poucos bons gramáticos como Celso Cunha, Evanildo Bechara, Rocha Lima e Celso Pedro Luft, regências como as que acabamos de mencionar, ainda são consideradas erradas, feias, estropiadas (por mera picuinha) por quase todos os que idealizam um purismo linguístico exacerbado.
Alguém precisa dizer aos nossos gramáticos que as línguas mudam, são mudadas por aqueles que as falam; que escrever ou dizer “eu vi ele” não é nenhum “atentado terrorista à língua”, nem um “assassinato gramatical” – como pensa uma meia dúzia de desinformados gramatiqueiros – mas, que a língua, como um rio, segue seu percurso naturalmente. Um famoso professor da tv, em suas colunas na Folha de São Paulo, onde mostra, de fato, o que pensa sobre língua, diria que essas formas são “um horror ao ouvido”. Paciência.
A esta altura do texto, alguém pode se perguntar: quem ele acha que é para questionar definições tão consagradas e gramáticos tão bem aceitos? Bom, eu sou um simples estudante, num país onde, junto com a cultura, com a lei e com outras coisas mais, as classes dominantes impõem também UMA língua certa, boa, única digna de receber o título de língua portuguesa.
Sou um quase-nada, é verdade: não ando de carro importado, não tenho dinheiro no banco nem no bolso e, ainda por cima, vou ser professor num país onde as autoridades federais não dão a mínima a tal profissão.

terça-feira, 17 de março de 2009

Deixem eu ser BRASILEIRO!

De Marcos Bagno
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Sou tradutor profissional há mais de vinte e cinco anos e a experiência acumulada nesse tempo me confere uma cristalina certeza: os revisores que trabalham nas nossas editoras pertencem a uma seita secreta com a missão de boicotar ao máximo o português brasileiro, impedir que ele se consagre na língua escrita para preservar tanto quanto possível a norma-padrão obsoleta que eles julgam ser a única forma digna de receber o nome de "língua portuguesa".
Sempre fico irritado quando recebo os meus exemplares de tradutor e, ao reler o que escrevi, encontro uma infinidade de "correções" que representam a obsessão paranóica de expurgar do texto escrito qualquer "marca de oralidade", qualquer característica propriamente brasileira de falar e de escrever o português. É sistemático, é premeditado (só pode ser). Todos os "num" e "numa" que uso são devidamente desmembrados em "em um" e "em uma", como se essas contrações, presentes na língua há mais de mil anos, fossem algum tipo de vício de linguagem. Me pergunto por que não fazem o mesmo com "nesse", "nisso" etc., ou com "no" e "na". Por que essa perseguição estúpida ao "num", "numa"? O mesmo acontece com o uso de "tinha" na formação do mais-que-perfeito composto: "tinha visto", "tinha dito", "tinha falado" são implacavelmente transformados em "havia visto" etc., embora qualquer criancinha saiba que o verbo "haver", no português brasileiro, é uma espécie em extinção, confinada a raríssimos ecossistemas textuais...
É claro que o sintoma mais visível e gritante desse boicote consciente ao português brasileiro é a putrefacta colocação pronominal. A próclise, isto é, o pronome antes do verbo, é veememente combatida, ainda que ela seja a única regra natural de colocação dos pronomes oblíquos na nossa língua. O combate é tão furibundo que até mesmo onde a tradição gramatical exige a próclise ela é ignorada, e os livros saem com coisas como "não conheço-te", "já formei-me", "porque viram-nos". Isso para não mencionar a jurássica mesóclise, que alguns necrófilos ainda acham que é uma opção de colocação pronominal, desprezando o fato de que se trata de um fenômeno gramatical morto e enterrado na língua dos brasileiros há séculos.
Senhoras revisoras e senhores revisores, deixem a gente escrever em português brasileiro, pelo amor de Oxum! Consultem os seus calendários: estamos no século 21! Vão estudar um pouco, saiam de sua redoma de vidro impermeável às mudanças da língua e venham aprender como se fala e se escreve o português do Brasil! Leiam alguns verbetes dos nossos melhores dicionários e aprendam que não tem nada de errado em escrever "assisti o filme", "deixa eu ver", que a forma "entre eu e você" não é nenhum atentado contra a língua, nem muito menos "eu custo a crer"! Esqueçam o que dizem pasquales, sacconis e squarisis, esses charlatães da gramática que não enxergam um palmo adiante do nariz! Ouçam os apelos de José de Alencar, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e tantos outros que há tanto tempo pedem, suplicam, imploram: deixem eu falar e escrever na minha língua, na língua que é a única capaz de expressar meus sentimentos, emoções e idéias! Deixem eu ser brasileiro, deixem eu escrever para ser entendido pelos meus contemporâneos!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Pensando a gramática: por que tantos porquês?

No correr dos anos, diversos são os problemas e carências enfrentados pela educação escolar brasileira. Num contexto nacional, ela só é mais um na lista dos inúmeros descasos sociais do Brasil.
Sou curioso, gosto muito de observar coisas, de meditar sobre elas, por mais insignificantes que sejam – o trabalho de uma formiga, por exemplo. Nessas minhas observâncias e meditações, percebo o quanto deixamos de aprender nas aulas de língua portuguesa.
Após o Ensino Médio, afora os alunos que fizeram cursinho, quem é que lembra o que é “objeto direto”?! Quais lembram o que é “agente da passiva”?! Poucos. Muito poucos. E, por que não lembram? Várias são as respostas; mas não me prenderei muito aqui. Vou apenas arriscar uma prática e simples resposta: as aulas de língua portuguesa (ou de gramática) a que assistimos eram desconexas da nossa realidade; portanto, não conseguiram nos interessar.
Bom, é sabido que o Brasil é um país de cultura essencialmente oral, não temos uma cultura livresca consolidada. Dito de outra forma, lemos muito pouco, e escrevemos menos ainda, quase nunca. Além disso, nossas aulas de gramática só nos ensinaram a decorar nomenclaturas e mais nomenclaturas.

Por essas e outras razões, quando escrevemos, frequentemente temos dúvidas. Dentre as muitas dúvidas com que nos deparamos, está o emprego dos porquês. Com finalidade estritamente prática – nada mais que isso – pensemos, a partir de agora, a respeito do emprego desses elementos. Vamos lá?
De saída, saibamos que, na escrita, as formas de porquês são quatro: por que/por quê/porque/porquê. Na fala, como se sabe, todos os porquês são pronunciados igualmente, ditos da mesma maneira.
Sem rodeios e complexidades, guardemos as seguintes observações:

a) por que (separado e sem acento)

Empregamos esta forma nas perguntas diretas:
Por que ele não veio à escola?

E nas perguntas indiretas (as que vem encaixadas numa sentença declarativa):
Não sei por que ele não veio à escola.
Nesse caso, das perguntas indiretas, repare que a expressão “por que” pode, perfeitamente, ser substituída por “o motivo pelo qual” ou por “a causa/razão pela qual”, ficando assim:


Não sei o motivo pelo qual ele não veio à escola.
Ou:
Não sei a razão pela qual ele não veio à escola.

Obs1: no que diz respeito à pontuação, note que as perguntas indiretas devem se encerrar com um ponto final, e não com um ponto de interrogração, como fazemos com as diretas.


b) porque (junto e sem acento)

De modo geral, usamos esta forma em nossas respostas e afirmações:
Ele não veio à escola porque estava doente.

c) por quê (separado e com acento)

Esta forma, usamos no fim das perguntas diretas:
Ele não veio à escola por quê?

E no fim das perguntas indiretas:
Ele não veio à escola e eu não sei por quê.

d) porquê (junto e com acento)

Neste caso, trata-se de um substantivo; por isso, usamos sempre acompanhado de um artigo (o porquê), de um demonstrativo (este porquê), de um possessivo (teus porquês), e por aí vai. Por essa razão também, podemos pluralizá-lo:
Roberto está na fase dos porquês.
Não entendi o porquê desta tua angústia.
É difícil detalhar todos os meus porquês.

Foi difícil? Pois é, eu também não achei. Moleza.

Um lembrete final: a única maneira de dirimirmos de vez qualquer dúvida a esse respeito é escrevendo e lendo muito. Não existe mágica. Só se aprende a escrever escrevendo!

Dica útil: cria um blog como esse e começa a escrever sobre o que te interessa! Não precisas pagar, é grátis!
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De Tiago Tavares
A partir de uma postagem do linguista Carlos Alberto Faraco

sexta-feira, 13 de março de 2009

Se já sabemos, por que nos ensinam?

Há fatos que ocorreram durante minha vida escolar que, talvez, nunca, nunca mesmo se justifiquem. Não estou falando do dia em que fiz a professora de português chorar. Não, não. Esse dia eu prefiro esquecer. Refiro-me a conteúdos que nos foram ensinados e que de nada nos serviram. Os números complexos (literalmente complexos) que estudei no 3º ano em matemática, por exemplo, jamais os usei, nunca me serviram, até hoje, para absolutamente nada. Naqueles dias ainda me serviram: ajudaram-me a passar na dificílima prova (e somente isso) do Afonso, meu amado e querido professor.
Não pretendo dizer, com isso, que sei que os números complexos não servem para nada, pois não os conheço tão bem assim; pretendo dizer, no entanto, que, quando os estudei, esqueceram-se de me ensinar o principal: para que eles servem, em que situações reais posso aplicá-los. Ensinados dessa forma, para mim, não fizeram sentido algum. Isso me leva a pensar, então, que o problema não são os números complexos, e sim a forma como estes são ensinados.
É realmente interessante observar como há coisas que nos foram ensinadas que nunca nos servirão para nada; é curioso (e, até cômico, é
verdade) lembrar conteúdos que nos ensinaram quando não havia necessidade, quando já os conhecíamos, e até já os utilizávamos.
Pensando a respeito, até hoje não compreendo o porquê de meus professores terem feito questão de nos ensinar que o feminino de boi é vaca. Ora, qualquer criança que chega à escola já sabe que 'a mulher do boi é a vaca'; portanto, não seria mais racional (e menos incoerente) que nos ensinassem sobre coisas que ainda não sabemos?
Penso que, um pouco mais interessante do que o feminino de boi é o plural de gravidez, que se faz gravidezes, não achas, caro leitor meu?

segunda-feira, 9 de março de 2009

É Fantástico não haver chuchu no Jordão!

De Aldo Nascimento
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Uma pessoa tem um sonho. “Quando crescer, serei jornalista.” A pessoa cresce. Estuda. Estuda. Estuda. Entra na faculdade de jornalismo. Estuda. Estuda. Estuda. Conclui a faculdade. Estuda. Estuda. Estuda. Pós-graduação. Finalmente, depois de tantos anos, consegue trabalhar na Globo. Vai para o interior do Acre e, aqui, depois de estudar tanto na faculdade, sua audiência divulga no Brasil que Jordão não conhece chuchu. A isso dão um nome: fantástico.
Depois, eu me perguntei: qual a relação entre não conhecer um chuchu e o Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH?
Outra dúvida: se o cálculo do IDH leva em consideração a expectativa de vida, o nível de educação e a renda da população, o que a falta de chuchu em Jordão estava fazendo em uma matéria sobre IDH? Última pergunta: qualidade de vida tem a ver com o consumo de chuchu?Ficou a impressão de que quem não conhece chuchu é atrasado ou motivo de chacota. Mas ficou também a impressão de que o jornalista global não conhece o seu próprio país, passando pelo Jordão como turista.
Assim, na condição de repórter-turista, sua matéria só poderia ter transmitido isto: superficialidade sobre nós.
Esperar de uma TV comercial e de um repórter-turista o registro de nossa identidade, convenhamos, seria anormal. O normal tem sido - que ironia! - os jornais acrianos ignorarem o interior deste Estado; tem sido desconhecerem o homem rural que nunca viu um chuchu.
Para uma Redação de Rio Branco, tão condicionada a ser aquário, Jordão não passa de um mapa. Se leitores daqui não encontram em nossos jornais o que é o Acre em Feijó, em Mâncio Lima ou em Assis Brasil, outros publicam o que não encontram no Jordão, neste caso, um chuchu. Se nossos jornalistas publicam matérias que ocultam o interior deste Estado, outros descobrem a falta de chuchu e riem de nós.
Após uma semana de o Fantástico rir do Acre, não houve um jornal da capital que tenha tomado a iniciativa de retirar do Jordão “a chacota do chuchu". O repórter-turista plantou nesta terra uma matéria para colher chuchu, e as redações acrianas só cultivam um jornalismo que desconhece Rodrigues Alves, Capixaba, Plácido de Castro. Do Rio de Janeiro, a Globo nos conhece “melhor”. Plim-plim!!!

Norma culta brasileira, eu indico!

Carlos Alberto Faraco, professor aposentado da UFPR, é um dos mais equilibrados linguistas da contamporaneidade.
Além de pesquisador, escritor, colunista e outras coisas mais, esse linguista já atuou como professor visitante em Universidades do exterior.
Com teorias consistentes e claras, Faraco desmonta ideias linguísticas do senso comum, confronta os que impõem sobre nós, brasileiros, uma língua artificial, que não se comprova na realidade linguística empírica dos falantes cultos brasileiros.
Esse é um livro sobre norma. Norma linguística.
As opiniões e ideias que a maioria de nós têm sobre língua, no mais das vezes, são equivocadas, reducionistas e, não raro, preconceituosas; pois, alternam, quase sempre, entre duas únicas possibilidades: certo ou errado. As línguas vão muito além disso!
Tendo isso em vista, esse achado vem esclarecer conceitos importantes como: norma, norma-padrão, norma gramatical, norma culta etc.
Portanto, eu indico! Norma Culta Brasileira: desatando alguns nós.

domingo, 8 de março de 2009

Um fenômeno: a volta de Ronaldo

Falar de futebol é sempre complicado, tendo em vista que envolve paixão, muita paixão. Hoje, no clássico entre Palmeiras e Corinthians, a atração do jogo, por uma questão de marketing, foi Ronaldo.
Assisti ao jogo, portanto, como qualquer outro que entenda de futebol mais do que eu, posso dizer que o "fenômeno" "pegou na bola" no máximo umas oito vezes, o suficiente para levar a torcida ao delírio, à locura.
Ronaldo foi, sem dúvida, um dos maiores atacantes revelados pelo futebol brasileiro, que, diga-se de rápida passagem, é uma fábrica de bons jogadores de futebol, uma fábrica que vende seus produtos a preço de banana, infelizmente.
Olhando a partida mais desapaixonadamente, vemos o quanto a mídia focaliza o que não deve, o quanto ela põe holofotes onde não há necessidade. Não digo, com isso, que Ronaldo não mereça a atenção dos repórteres, das emissoras; digo, no entanto, que, comentaristas da Band (como o 1. baboso do seu Neto, por exemplo) deveriam pensar um pouquinho mais antes de falar as baboseiras que falam, como num lance em que Ronaldo deu um simples drible e, esse "ilustre" comentarista -- em, talvez, não tendo o que dizer -- disse que, só em ter feito aquela jogada, Ronaldo já havia feito mais do que Souza, atacante do Corinthians, que ficou em campo durante quase o jogo inteiro.
Parece-me que alguém precisa dizer à imprensa que Ronaldo, aquele mesmo, revelado pelo Cruzeiro, já não é mais um fenômeno; alguém precisa mostrar à mídia que Ronaldo já não é mais aquele garotinho, de 20 anos ou um pouquinho mais, que explodiu na Toca da Raposa e que, anos depois, arrebentou com as seleções que tinham o Brasil como adversário nas Copas Mundiais.
De que ele vai voltar a jogar muita bola ainda, não tenho dúvida alguma; mas, jamais voltará a ser aquele que foi em 2002, contra a poderosa Alemanha.
De tudo o que já vi e ouvi de Ronaldo, o que mais me impressiona é a força, a garra, a insistência com que sempre voltou aos gramados, à vida, mesmo após inúmeras cirurgias e incontáveis "escândalos" (muitos destes, inchados pela mídia, que adora escândalos, é verdade).
Ronaldo deveria ser procurado pelos repórteres inteligentes, pela mídia séria (que se restringe a um punhado de bons profissionais) para falar do que já fez no futebol, do que já fez por crianças carentes, pois, daqui para frente, o que vier a fazer, no futebol, servirá apenas para engrandecer seu currículo, que, reconheça-se, já é demasiadamente extenso.
Portanto, eu, se tivesse a oportunidade de publicar alguma manchete sobre o clássico, não faria como a Rede Bandeirantes ou como a Rede Globo, que, amanhã, certamente estamparão: "A volta de Ronaldo: o fenômeno!"; mas, escreveria, um pouquinho diferente disso, o seguinte: "Um fenômeno: a volta de Ronaldo!"
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1. baboso: que ou aquele que (se) baba muito; babão - Dicionário Eletrônico Houaiss

sexta-feira, 6 de março de 2009

Candidatos a gramáticos? Políticos e jornalistas



Por Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Por causa do carnaval, de um congresso, de um pouco de preguiça, mas também porque certas coisas não devem ser esquecidas, republico um texto antigo, de meados da década de 90 do século passado. É que, de vez em quando, esse papo de que Lula fala errado volta à cena, ora nos blogs de comentaristas políticos, ora em insinuações de FHC, como ocorreu recentemente. Segue o texto:
Vêm aí as eleições presidenciais. Pessoalmente, não vejo problema em suportar o horário político na TV. Pior será aguentar de novo alguns sabidões dizendo - com pose de quem sabe do que está falando - que não se pode votar em determinado candidato porque tem pouca escolaridade ou, pior, pelo fato de que não sabe nem falar. Há alguns dias, até o Enéas, aquele da fala rápida e ideias fascistas, disse que acha que há um candidato, que a imprensa elogia muito, que não sabe expressar-se adequadamente, falando ou por escrito. Aliás, ele pensa que é um modelo de sabedoria linguística, quando qualquer estudioso de linguagem identificaria nele um indivíduo que tenta, através de um estilo antiquado (o último exemplar desse comportamento foi Jânio, mas certamente com outros propósitos e com competência infinitamente maior), esconder uma origem da qual se envergonha. É um exemplo ambulante de hipercorreção, ou seja, de inadequação linguística. No debate promovido pela TV Manchete, apenas para dar um exemplo, em três falas disse três vezes a palavra "primacial". Deve ter consultado um dicionário de sinônimos antes do debate.
Certamente, o discurso dos candidatos é um dos sintomas pelos quais podemos julgá-los. Mas também para isso também se exigem critérios. No mínimo, critérios tão claros quanto os utilizados para julgá-los em qualquer outro campo. E Enéas não é o único a emitir juízos superficiais ou equivocados sobre linguagem. É raro, mesmo entre os intelectuais, que haja domínio dos instrumentos necessários para avaliar certos aspectos da linguagem dos candidatos, sem preconceitos (pró ou contra).
Mesmo jornalistas, que vivem da linguagem e se revelam curiosos em relação a numerosos outros campos, utilizam-se às vezes de critérios de avaliação linguística muito primários. Vou dar um exemplo, com dados antigos, mas que, certamente, continua válido (inclusive porque dados do mesmo tipo continuam ocorrendo; aliás, com mais de um candidato, embora só se anotem os fatos quando ocorrem com um deles).
O jornal Folha de S. Paulo de 3 de agosto de 1990, na página 8 do caderno A, sob o título PALANQUE, abaixo da fotografia de Luiz Inácio Lula da Silva, publicou uma citação e um comentário. A citação é parte da fala de Lula no programa eleitoral do candidato de seu partido ao governo do Estado de São Paulo, fala levada ao ar na véspera. O comentário é anônimo, e talvez possa ser atribuído a Nelson de Sá, que assina a reportagem na qual PALANQUE é uma espécie de Box. A citação é:
"É importante que a gente saiba que as eleições é muito importante, porque as eleições pode fazer com que a gente possa escolher pessoas que tenham compromisso com a maioria do povo brasileiro".
O comentário é:
"Lula caprichou na sua volta à TV. Livre da obrigação de ser eleito, sentiu-se livre também de respeitar a língua portuguesa. Inaugurou - com todo o conhecido estilo - a temporada de atentados à regência verbal".
O que a Folha fez em agosto de 1990, os jornais fizeram quase diariamente no ano anterior, durante a campanha presidencial. Além de discutirem as propostas dos candidatos, ora com maior, ora com menor profundidade e discernimento, opinavam às vezes sobre a própria forma da linguagem, a gramática dos candidatos. E surpreenderam neles alguns dos chamados erros de português. Coisas de pouca importância, tratadas com observações quase amadoras, como as referentes às orações relativas do candidato ruralista Caiado, que nelas denunciava sua identidade rural.
A imprensa foi quase incapaz de perceber as numerosas construções em tópico-comentário da maioria dos candidatos, provavelmente porque elas já fazem parte da própria gramática dos jornalistas, apesar de estas construções terem estrutura semelhante, quando não igual, aos combatidos anacolutos, o que confirma a ideia de que a mesma construção linguística é avaliada de maneira diferente, segundo seu usuário. A ideia pode ser resumida assim: figura de linguagem de aluno - ou "ignorante" em geral - é vício, e vício de linguagem de gente fina é figura. Se a imprensa noticiou "erros" de todos os candidatos, e se divertiu com isso, foi em relação ao candidato Lula que ela ficou mais atenta, e a expressão "menas maracutaia" foi citada com alta frequência, como se fosse a característica mais relevante de seu discurso.
Mas, vejamos um pouco mais de perto a fala de Lula, em agosto de 1990: qualquer mestre-escola cuidadoso e sem preconceitos perceberia em seu texto duas construções não padrões (qualificadas normalmente de erradas): as eleições é e as eleições pode. Lembro que estava vendo o programa e que ouvi a primeira destas formas - não tenho certeza de ter ouvido a segunda (mas não seria de espantar que um ouvido atento, predisposto, ouvisse demais ou de menos) - e imaginei que Lula não seria perdoado por tê-la usado.
O comentarista do jornal destaca estas formas, que denunciam claramente a origem social do referido político: ele é um operário que não frequentou a escola por muito tempo, e o uso de tais construções denuncia claramente pessoas pouco escolarizadas. Qualquer investigação sobre o português do Brasil mostrará que a ausência de concordância verbal é uma das características mais evidentes da fala não culta ou mesmo informal.
A falta de instrução escolar que este tipo de linguagem denuncia é grave num candidato? Depende muito do que se espera do candidato. Durante a campanha presidencial de 88, houve quem achasse que Collor era um candidato melhor porque pelo menos não envergonharia o Brasil nos banquetes oficiais, por ser polido e poliglota. Queremos presidentes ou chefes de cerimonial, bons em etiqueta?
Consideremos, porém, outros aspectos da fala de Lula: observe-se a ocorrência de com que a gente possa e pessoas que tenham. Lula usa variavelmente a regra de concordância. Isto é, não é verdade, como se poderia pensar, que ele nunca aplica tal regra. Além disso, usa até mesmo o subjuntivo, forma em desaparecimento na fala de muitas pessoas - a denunciar talvez uma tendência de nossa língua - e evidente marca de formalidade, ou, se se quiser, da fala de pessoas instruídas.
Quem consultar algum manual de sociolinguística verá que Lula se comporta como qualquer dos falantes investigados em vários países: quando há uma regra variável (isto é, que ora produz uma certa marca, como a concordância, ora não), ele a aplica variavelmente (isto é, ora faz a concordância, ora não). O que esta fala denuncia em Lula é sua identidade social. Assim como a fala de Jânio denunciava mais que qualquer outra coisa seu arcaísmo (como é certamente o caso de Enéas, agora), assim se reconhece na fala de Lula sua origem de classe ou sua classe de origem.
Agora, analisemos o comentário do jornalista: primeiro, revela total desconhecimento de critérios pelos quais poderia entender o que ocorre na fala de Lula e o que isso significa efetivamente. Faltam critérios mínimos de análise de linguagem. Além disso, mesmo pelos sofríveis critérios que adota, o jornalista comete um erro grosseiro em seu comentário. Em sua análise é que ocorre efetivamente um erro, pelo critério que o próprio jornalista invoca e supostamente conhece e considera implicitamente que qualquer pessoa "competente" deveria conhecer.
Ele diz que Lula "inaugurou ... a temporada de atentados à regência verbal". Nenhum jornalista, que estuda um número razoável de anos na escola, bem mais do que Lula estudou, tendo numerosas pessoas e livros à disposição para consultar, mesmo na redação do jornal em que trabalha, e tendo à disposição o tempo que a escrita permite (mesmo ao jornalista), ao contrário do improviso da oralidade, como foi o caso de Lula, poderia cometer o engano que este comete: confundir regência com concordância. Na fala de Lula, seu estilo denota sua origem, na escrita do jornalista, seu erro denota, agora sim, uma certa incompetência.
Certamente, trata-se de falta de competência numa questão irrelevante, tão irrelevante que ele pode ser jornalista, talvez excelente, sem conhecê-lo, mas trata-se de efetiva ignorância. O que torna o fato grave não é a ignorância gramatical do jornalista, mas o fato de que foi uma tentativa de utilizar um conhecimento que é distribuído por critérios de classe como arma contra aquilo que o jornalista pretendeu que fosse a prova cabal da ignorância de Lula.
Mas o erro maior não foi confundir concordância com regência. Erro maior foi o jornalista escrever que Lula se sentiu livre de respeitar a língua portuguesa - uma forma de dizer que ele não segue regras do português em sua fala: se fala errado não fala português, se não fala português não fala língua nenhuma, então não fala, não sabe falar. Ora, isso é bem mais grave do que dizer de alguém que fala uma variedade inculta, ou popular, ou regional de uma língua qualquer. Não é preciso ser linguista ou cientista para saber que falas diferentes são dialetos, e não fala nenhuma.
Fazer uma análise linguística com critérios ruins equivale a fazer jornalismo com release, isto é, péssimo jornalismo. Por que se procuram fontes diversas para avaliar opiniões políticas, econômicas, morais, e não se buscam critérios diversos para analisar fatos de linguagem?

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Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp

terça-feira, 3 de março de 2009

Alegria e Vergonha


Por Isaac Melo
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É uma dura realidade, mas aquilo que a mídia não mostra o povo tende a desconhecer. No entanto, mostraram. E sabemos. Será que isso foi suficiente para provocar alguma mudança na mentalidade de políticos acreanos, especialmente os de Tarauacá, que agora passa de terra do abacaxi grande e da mulher bonita para terra de miseráveis? O Fantástico, da Rede Globo, elevou apenas esse problema ao conhecimento nacional, pois há muito tempo lideranças tarauacaenses vêm denunciando a podridão da política local. Mas nunca foram ouvidos. Por quê? Simplesmente pelo fato de serem tachados como “inimigos” de quem está no poder. E agora, serão ouvidos? Não. Acontecerá o que sempre acontece: simplesmente deixar o tempo passar e assim, o povo esquecer.E onde está o governo da florestania? É inconcebível que uma das regiões mais ricas do planeta esteja entre as mais miseráveis do país. Não há algo estranho nisso? Não há uma contradição com o próprio conceito de florestania, que visa a inclusão do homem a partir da floresta? Onde está essa inclusão? Miséria é inaceitável em qualquer contexto, mas muito mais em regiões que tem tanto a oferecer. Nós não vivemos no sertão nordestino, onde as questões climáticas são muito desfavoráveis, estamos na terra fartura e da esperança. Mas fartura e esperança para quem? O governo do Acre deveria parar de falar besteira, como a do tipo "o Acre será o melhor lugar para se viver a partir de 2010" (não que não quiséssemos), e acordar para a realidade. Antes de se ter um lugar melhor é necessário estar vivo e para isso é necessário comer. Sonhar é importante, mas projetar uma sociedade sobre sonhos é tolice.Não adianta isentar o povo dessa também. Se tivéssemos um povo menos corruptível teríamos menos ladrões no poder. O poeta já havia alertado “vai doer, vai sofrer” e quem sabe um dia aprender. É necessário mais que reivindicar, protestar, mas assumir também o compromisso com a sociedade da qual faz parte. Isso implica participação, honestidade e consciência crítica, coisa que ainda estamos engatinhando. Não adianta se espantar, como se já não soubessem de tudo, e fazer cara de vítima e inocente. Se quisesse enxergar, enxergaria e se quisesse mudar, mudaria.Há um grande desnível social em Tarauacá, o que é reflexo de um país de desigualdades. Creio que só um fazendeiro dessa região tenha mais boi que todo o número de pessoas de Jordão e Tarauacá juntas. Todavia, boi não é para alimentar pobre, mas para manter o luxo e o conforto dos ainda “coronéis de barranco” e “senhores da casa grande”, que ao longo desses anos mudaram apenas de nome e de endereço.O sentimento de vergonha não recai sobre a população de Tarauacá ou Jordão apenas, pois a realidade não é muito diferente nos demais municípios do Estado. A pior vergonha recai (isso para quem tem) sobre a classe política que tanto se alardeia, no entanto, apresenta poucos resultados práticos. O mais miserável não são esses apresentados pelo IDH, mas aqueles que fazem de palácios e prefeituras um salão nobre, onde se banqueteiam a desonestidade e a senhora ganância.Mas o acreano, assim como o nordestino, é antes de tudo um forte, usando o termo de Euclides da Cunha. Que isso não nos sirva de desculpa ou compensação, mas que confirme apenas a bravura de um povo que vive e resiste "heroicamente" há mais de um século, lutando contra a natureza e as piores formas de crueldade humana. Que orgulho de ser acreano-tarauacaense mesmo que o coração esteja escorrendo gotas de sangue de alegria e vergonha.Sei de uma coisa apenas, aprendido pelo saudoso Océlio de Medeiros – o povo do Acre ainda está na infância / mas nasceu com passado e o ironiza: / dos próprios feitos hoje ri o acreano / e o que ontem era épico hoje é cômico.
Texto copiado do blog do Altino Machado
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Isaac Melo é marista e graduando em filosofia pela PUC-PR.

segunda-feira, 2 de março de 2009

A questão do Acordo, de novo!

Com o início do ano letivo de 2009, professores e alunos têm um desafio de conhecer e se adaptar às novas regras da língua portuguesa que entram em vigor com a reforma ortográfica desde o dia 1º de janeiro. Nas salas de aula, as mudanças serão apresentadas e praticadas, mas os alunos tem dois anos para adotar definitivamente o 1. novo português.
Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste adotaram a 2. reforma, que resulta de um acordo internacional que busca 3. unificar a língua portuguesa.
O trecho acima foi copiado de um sítio jornalístico da capital acriana.
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Nos primeiros dias deste ano, com o fim de esclarecermos algumas confusões e de precisarmos informações concernentes ao Acordo Ortográfico, publicamos aqui neste blog alguns textos sobre o assunto, que vem sendo imprecisa e equivocadamente abordado pela imprensa.
Dissemos que, quando o assunto é língua, quase tudo o que a mídia divulga tem alguma dose de imprecisão. Há quem objete: mas, como assim? Por quê? Eu explico. A resposta é simples e objetiva: raramente as opiniões partem de verdadeiros especialistas no assunto; por conseguinte, quase sempre são imprecisas, para não dizer desastrosas.
A fim de qualificarmos um pouco mais o debate sobre esse assunto -- e nada mais do que isso -- analisemos algumas afirmações constantes do texto apresentado naquele sítio:
1. O autor da notícia fala em novo português. Ora, após o Acordo, o português é o mesmo; a língua é a mesma; o idioma é o mesmo; pois o Acordo se destina única e exclusivamente à ortografia, que, é necessário dizer, sofre mudanças tão minúsculas que as novas regras podem ser aprendidas em, exagerando, 1 horinha.
2. É perfeitamente compreensível o porquê de as pessoas falarem tanto em Reforma e muito pouco em Acordo: gramáticos famosos afirmam constantemente (na televisão, no rádio, em colunas do português correto -- seja lá o que isso queira dizer) que houve uma Reforma Ortográfica.
Informado pelo que dizem tais gramáticos, numa dessas conversas da vida, um amigo me disse: "agora vai ficar mais difícil ainda pra vocês que trabalham com língua portuguesa, porque aconteceu aí uma mudança radical na língua portuguesa". Antes que eu terminasse de explicar o que de fato ocorreu, ele disse: "talvez radical tenha sido mesmo a forma como eu falei, então".
A partir de uma análise mais criteriosa (e até mais científica) podemos dizer: não é Reforma, minha gente, é só um Acordo! Pois, o que de fato ocorreu foi um Acordo de Unificação Ortográfica, isto é, acordo sobre a grafia (do grego graphien = escrita, grafia), a escrita das palavras nos países de língua oficial Portuguesa. De maneira geral, as mudanças abarcam a acentuação de algumas palavas e tornam mais racional o emprego do hífen. Portanto, falar em Reforma da Língua Portuguesa é, no mínimo, um disparate. Como diz o filósofo popular, um coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
3. Um outro equívoco informacional, talvez um dos mais graves, está em dizer que houve "um acordo internacional que busca unificar a língua portuguesa".
As línguas são como são. Não há Acordo ou Lei no mundo que as unifique, que as torne homegêneas; o fenômeno da variação é inerente às línguas, isso mesmo, inseparavelmente ligado a elas, próprio delas. De novo, não há como unificá-las.
Despropósito equivalente seria tentar decretar ou acordar que todas as pessoas da terra tivessem a cor da pele igual.
Conforme já dissemos, o Acordo diz respeito à maneira como temos de escrever, e não à maneira como temos de pronunciar as palavras. Dessa forma, não há razão para perguntarmos se, sem o trema (ü), devemos dizer linguiça (como dizemos preguiça), ou se diremos linguiça mesmo, como já pronunciávamos. Ao escrevermos, no entanto, não usaremos mais os dois pinguinhos sobre a vogal "ü", exceto em alguns raríssimos casos. Assim, esperamos ter contribuído para o debate sobre esse assunto que, como disse o linguista Faraco, tem sido tão mal-tratado e maltratado pela imprensa brasileira.
Tiago Tavares - Formando em Letras

domingo, 1 de março de 2009

É sábado, minha gente!

Pessoal, é sábado! Não há dúvidas de que será muito bom. Se tu não fores, ficarei com muita dó de ti!
Até lá! Abraços!