quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mais um dia...

Foi-se o dia, e com ele o Sol;
Foi-se a noite, e com ela a Lua,
Que nesta noite estrelada,
Quando com o meu amor sonhava,
Sorriu para mim totalmente nua, descoberta, cativante.
Foi hoje dia de labor, é verdade; de angústias e dor, de agruras e desamor.
Um dia de saudades, de lembranças indeléveis. Também dia de decepção, que eu prefiro esquecer.
A esta altura da madrugada, sentado aqui sem fazer nada, de corpo cansado e alma abatida, do que ficou para trás não me lembrarei mais.
Deitarei minha cabeça no travesseiro e logo dormirei; e, amanhã de manhã, a quem pertenço buscarei, me entregarei por inteiro, somente d’Ele serei.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Evasão escolar: uma mazela do ensino

De Stella Maris Bortoni-Ricardo
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A Fundação Getulio Vargas e o Ibope acabam de jogar mais luz sobre as mazelas do ensino no Brasil. A FGV pôs por terra o mito de que a evasão escolar é motivada pela demanda por trabalho e renda. Pouco mais de um quarto (27,1%) dos jovens de 15 a 17 anos afirma ser essa a razão de abandonarem as salas de aula, enquanto 40,3% simplesmente admitem não se sentirem atraídos pelos estudos. Já o instituto de pesquisas ouviu 2.022 pessoas com mais de 16 anos em todo o país para saber quais são, na opinião deles, os principais problemas da educação. Não se pode dizer que aqui houve surpresas: a desmotivação dos professores pelos baixos salários (19%); a falta de segurança e a penetração de drogas nas escolas (17%); o número insuficiente de unidades de ensino (15%) e de professores (12%); e a falta de qualificação dos docentes (11%). Ao mesmo tempo, o ministro da Educação, Fernando Haddad, comemorou na semana passada o fato de o Brasil estar próximo de investir no setor 6% do PIB (soma das riquezas produzidas no país). Na opinião dele, mantido o ritmo atual, o percentual — que é a meta do Plano Nacional de Educação (PND) — será alcançado no próximo ano. O crescimento é uma realidade. De 2000 para 2007, o investimento anual por aluno da rede pública passou de R$ 1.574 para R$ 2.335. Em relação ao PIB, de 3,9% para 4,6%. Significa que, embora a pretensão de liderança no subcontinente, só agora estamos alcançando nossos sócios do Mercosul, se não na qualidade do ensino, ao menos no volume de recursos a ele destinados em relação ao PIB. A questão está em transformar os gastos maiores em melhorias concretas. Nesse sentido, o estudo da FGV e a pesquisa do Ibope podem funcionar como bússolas para orientar a mudança. Especialistas não apontam a falta de dinheiro, mas a má gestão dos recursos financeiros e humanos como principal causa das mazelas da rede pública de ensino brasileira. Anos letivos, por exemplo, costumam começar sem número suficiente de professores. Que aluno se motivará se no primeiro dia de aula já não houver quem lhe ensine uma ou mais matérias? Pior: a resposta a essa deficiência costuma ser dada com uma solução tapa-buraco: a contratação de professores temporários, que, em geral, são transferidos com constância e não criam vínculo com as comunidades escolares. Mais: em fevereiro, uma escola estadual da capital de Alagoas tinha 2 mil alunos matriculados e apenas 500 carteiras escolares. Outra, municipal, chegou ao cúmulo de adotar um rodízio, em que as séries ímpares (1ª e 3ª) funcionavam num dia e as pares (2ª e 4ª) noutro. Este ano, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) destinará R$ 5,1 bilhões às escolas; R$ 10 bilhões estão reservados para salário-educação. Além disso, o Orçamento da União prevê R$ 2 bilhões para gastos em mobiliário, ônibus escolar e reforma de colégios e R$ 1,5 bilhão a serem diretamente entregues aos diretores. Mas o Ministério da Educação nem sequer é devidamente informado sobre a situação das escolas país afora. Falta coordenação de esforços. Dessa forma, continuará longe o dia em que o Brasil terá um sistema de educação pública ideal, de preferência em tempo integral.

domingo, 19 de abril de 2009

Dois pesos e duas medidas

De Tiago Tavares
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Como prova a história das línguas, a complexidade das relações língua-sociedade-poder, em vários pontos, vai muito além do que podemos compreender. Nas pesquisas sócio-linguístico-científicas não há e nunca haverá um estudo acabado, pronto, que dê conta da totalidade desses fenômenos. Ainda há muito o que ser descoberto, observado, analisado.
Por outro lado, a Sociolinguística, ciência responsável por esse tipo de estudo, após inúmeros empreendimentos científicos, já tem muito a nos dizer sobre essas relações. Há casos interessantíssimos; outros, graves. Há ainda os anedóticos, é verdade.
Dentre tantos e tantos, pensemos, por exemplo, que, quando as formas gramaticais tidas por “erradas” (só porque não estão nas gramáticas normativas são tidas por erradas) são empregadas por pessoas das classes sociais mais prestigiadas, magicamente passam a ser consideradas “certas”. Ou seja, quando esses supostos erros viram regras na fala de pessoas socialmente “mais importantes”, já não causam mais arrepios, já não deixam mais os “donos da língua” de cabelos em pé, já não são mais “um horror”, como diz um famoso professor na televisão. Bestamente, sem interesse pela resposta, pergunto: mas, não são os mesmos “erros”? E os professores, que antes condenavam tais “erros”, tentam (sem sucesso, é claro) justificá-los, dizendo, por exemplo, que essas pessoas podem até se permitir “errar”, pois sabem utilizar, quando querem, as formas “corretas”. Se formas “incultas” forem encontradas em grandes escritores literários, a maioria pertencente à elite letrada, deixam de ser “incultas” (adjetivo bastante impreciso, do ponto de vista científico, saliente-se), e passam, automaticamente, a modelo de língua para os demais cidadãos. Então, só são erros se empregados por pobres, estigmatizados, iletrados? A “tropa da elite” não erra? Ah, já sei! Há erros mais errados que outros! é isso?! Cômico.
A partir de uma análise mais acurada, é perfeitamente possível perceber que os traços linguísticos – de concordância, por exemplo – da fala de Lula podem ser facilmente constatados na fala de outros políticos, de jornalistas, de escritores, de apresentadores de televisão e até de professores de português, obviamente. Entretanto, esses traços linguísticos, muitas vezes chamados de “erros crassos”, “erros amazônicos” ou de “gafes”, chamam mais a atenção, ficam mais evidentes quando partem de alguém com antecedentes biográficos rurais, sem formação universitária, operário e vindo de uma região geográfica menos prestigiada.
Dessa forma, só posso inferir uma explicação para isso: não é somente a língua do indivíduo que está sendo avaliada, mas o próprio indivíduo, sua classe social, o quanto ele tem depositado no banco, a roupa que veste, o carro que dirige etc. Portanto, caríssimo leitor, se conseguiu ligar o que leu ao título do lido, é provável que tenha captado bem a mensagem.
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P.S.: “Um homem distinto fala um francês admirável, um marginal só poderia falar um francês deplorável.” Marina Yaguello

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Outra boa de Possenti

Para não dizer que não falei de flores
De Sírio Possenti
Campinas (SP)

Sempre achei que não vale a pena escrever uma coluna para dizer que o verbo "adequar" é defectivo ou que o mais-que-perfeito de "ir" é "fora", assim como o do verbo "ser". Muito menos para repetir aquilo que todo mundo acha sobre certos temas. Da mesma maneira, não vale a pena haver uma coluna de divulgação científica para dizer que pardais têm penas e duas asas (sim, duas asas, e que servem para voar!). Aliás, não há colunas de divulgação científica para dizer tais platitudes. É duro reconhecer, mas é só no campo das línguas que existem colunas para repetir pedaços de aulas de primeiro grau.
Há duas razões básicas para escrever sobre língua. A primeira é mostrar que grande parte do pretenso saber que se divulga nos manuais e nas colunas-dicas é repeteco banal ou grossa bobagem. Quando quero saber se vale a pena comprar ou ler um desses livros do tipo "Não erre mais" ou "Os quinze erros mais frequentes e como evitá-los de maneira simples e bem-humorada", dou uma olhada no que dizem sobre casos como "em domicílio / a domicílio", "risco de vida / risco de morte", "TV a cores / TV em cores" etc. Se encontrar uma regrinha besta, já sei que o autor é iletrado, que acredita em Papai Noel e que apenas copiou uma lição errada (e de um livro ruim; por isso nenhum deles cita suas fontes). Se o cara ensina, por exemplo, que se DEVE dizer "em domicílio" e se, por cima, acrescentar que assim é porque se diz "em casa", já sei que não conhece seu trabalho e está enganando leitores.
A segunda razão para escrever sobre língua é debater questões mais complicadas, problemas. Esta, na verdade, é a razão principal: analisar construções alternativas ou opinar sobre certas expressões que circulam pela mídia porque foram proferidas por personalidades e que todo mundo - incluindo a Danuza Leão (por que a família não gerou duas Naras??) - decidiu que sabe o que querem dizer, e tomar partido, propor uma análise, correr riscos, debater. Por exemplo, mostrar que não é racista uma expressão que todos consideraram que é (se todos acharam que é, então não deve ser; afinal, não é à toa que o país tem se saído mal em todos os testes internacionais de leitura...).
A semana passada foi interessante para a coluna. Os leitores devem ter sido movidos pelo espírito religioso, porque os e-mails (nunca foram tantos, acho que por causa do feriado), em sua maioria, apoiavam a análise proposta. Fiquei impressionado. E mais confiante no país, juro.
Mas também houve quem dissesse a seco que fiz aquela análise porque devo ser petista fanático e fã do Lula. A esses leitores, informo que já recebi recados irados de outras bandas político-ideológicas, quando defendi, há algum tempo, que uma frase de FHC não significava o que todos achavam que significava (a história se repete). Ele tinha dito, a propósito de uma discussão política cujos detalhes esqueci, que não era preciso ser burro para ser de esquerda. Ora, TODOS acharam que ele chamou a TODOS os esquerdistas de burros. Na coluna que então mantinha, defendi outra interpretação (não esqueçam, tratava-se de FHC!): que sua frase queria dizer que se pode ser de esquerda e ser inteligente ao mesmo tempo (difícil é conciliar inteligência com posições de direita...), que os dois predicados não são incompatíveis. Claro que ele achava que havia burrice em certas posições esquerdistas, mas, eu dizia, ele não achava que isso caracterizava a esquerda enquanto tal. Foi difícil defender-me dos críticos de FHC de então, como o é agora defender-me do besteirol comum aos opositores de Lula (é fácil encontrar nele mais defeitos do que se imagina, mas nem sempre os que lhe são atribuídos).
Também já defendi, por escrito e em intervenções públicas, que expressões como "a coisa está preta e vai ficar ainda mais feia" (uma frase de Gérson, falando do Fluminense) não são racistas. Que a menção à cor não tem nada a ver, aqui, com raças ou etnias, já que é uma metáfora cosmológica (o mesmo se diga de "período negro da história", por exemplo).
Seria bem mais fácil dizer que há racismo tanto em "período negro" quanto em "banqueiros brancos de olhos azuis". Mas, se é para dizer isso, por que estudar? A gente não vive defendendo que se deve melhorar o nível da escola? Então!

domingo, 12 de abril de 2009

Lógica?

Por Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Uma repórter que entrevistou Lula em Londres começou pedindo desculpas por ter olhos azuis. Foi sem dúvida uma boa sacada para provocar o presidente ou para fazer rir, mais precisamente, rir dele, talvez acuado. Mas a pergunta revelou também um erro de lógica. Exatamente como o do "ítalo-descendente de pele branca e olhos claros" que entrou com um pedido de explicação no STF "contra" o presidente, por causa de sua declaração culpando a "gente branca de olhos azuis" pela crise. Clóvis Victorio Mezzomo afirma que se sentiu pessoalmente ofendido... (Folha de S. Paulo, 4/4/2009, p. B10).

Freud não disse que toda frase curta é um chiste.


Alguns leitores cometeram a mesma falácia em mensagens que me mandaram pelo e-mail que Terra Magazine fornece para os que querem me desancar ou, eventualmente, manifestar concordância. Diziam que eram brancos etc. e que se sentiram ofendidos. Como se Lula tivesse se referido a eles.
Uma das "técnicas" que se aprendem já no segundo dia das aulas de lógica é que uma coisa é dizer, por exemplo, que "todos os cariocas são brasileiros" e outra que "todos os brasileiros são cariocas". A segunda sentença ou proposição não se deduz da primeira, porque não se pode concluir mais de menos. É que o predicado de uma afirmativa não é universal, ou distribuído, mas sim particular. Portanto, quando a sentença é convertida e ele vai para a posição de sujeito, não pode ser universal (todos); só pode ser particular (alguns). "Os cariocas são brasileiros" significa "todos os cariocas são alguns dos brasileiros". Depois, aprende-se que isso se chama de falácia do consequente ("se o carioca é brasileiro, então o brasileiro é carioca" seria um exemplo dessa falácia).
Voltando à declaração de Lula: convertida em uma sentença com formato das que estão nos silogismos, ele teria dito que "todos os responsáveis por essa crise são brancos de olhos azuis", e não que "todos os brancos de olhos azuis são responsáveis por essa crise". Ou seja, que alguns brancos de olhos azuis são responsáveis - os banqueiros, os Madoffs etc. Pretender fazer parte desse grupelho é erro de lógica ou pura pretensão? Não sei o que é pior.
Aparentemente, ninguém mais estuda isso na escola, uma lástima. Um dia tive que fazer longo exercício de paciência diante de um interlocutor que lera em Freud que os chistes são breves e insistia em achar que todas as suas frases curtas (breves) deveriam ser chistes, como se Freud tivesse escrito que tudo o que é breve é chiste. Uma boa piada.
Ah, sim, como Lula também não deve ter estudado lógica, já que foi por pouco tempo à escola e a que mais frequentou era uma que formava torneiros mecânicos, embora tenha se dado melhor como orador (os oradores são cheios de falácias), respondeu à moça gentil e sorridente, sem esculachar sua falta de lógica. Talvez por não saber nada disso. Talvez por causa dos olhos dela.
Alguns leitores acharam que defendi Lula quando disse que a expressão que empregou não é racista. O texto pode ter soado assim a certos leitores, mas não é o que está escrito. Pelo menos, se o texto for lido logicamente. O que eu disse é que se costuma analisar de forma equivocada muitas das falas de Lula, como se não fosse ele o pouco escolarizado, mas sim os analistas. Diz-se que fala por metáforas quando se vale de comparações ou de metonímias, que acusou todos os brancos, quando não foi o caso etc.
E assim se comete outro erro de lógica, outra falácia: toma-se a crítica das análises erradas como se fosse uma defesa das declarações de Lula e até de suas ações de governo. Um leitor, para mostrar que eu estava errado defendendo o Lula apelou para as manifestações do MST, que o presidente deveria reprimir... E eu falei disso?
Deveríamos ler pelo menos o velho Aristóteles. Também sua Retórica, é claro. Ou mesmo algum manual com a lista das falácias mais comuns. Seria bem mais útil do que uma lista de regras gramaticais.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Esquizofrenia linguística

Por Tiago Tavares
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Na Linguística contemporânea, ao contrário do que pensam e dizem alguns, não há um estudioso sequer, dos melhores que temos, é claro, que defenda a tese de que não se deve ensinar uma norma padrão na escola. Sírio Possenti, por exemplo, doutor e professor da Unicamp, escreveu, em seu livro “Por que (não) ensinar gramática na escola”, um capítulo inteiro sobre esse assunto, intitulado “O papel da escola é ensinar língua padrão”. Como se vê, até pelo sugestivo “não” entre perêntesis no título do livro desse autor (dependendo do que se entenda por gramática, não se deve ensiná-la, é o que sugere Possenti), a questão não é se se deve ou não ensinar uma norma padrão; a questão é, entretanto, como essa “língua padrão” é ensinada, como essa gramática, que é tida por língua padrão, tem sido ensinada; e que “língua” é essa que se está ensinando ao aluno.
Do ensino de língua materna no Brasil, todos nós estamos carecas de saber que as aulas de Língua Portuguesa de quase todas as escolas, públicas e privadas, se resumem a decorebas de regras gramaticais desconexas de qualquer situação discursiva. As frases utilizadas como exemplo, na maioria das vezes, nem “existem” em situações reais de discurso, são inventadas unicamente para provar alguma regra de gramática. Ora, de há muito se sabe que o estudo de normas gramaticais isoladas não torna ninguém apto a produzir competentemente bons textos. Fique claro, por favor, que não estou dizendo que se deva jogar no lixo todas as gramáticas, isso é sair de um extremo e ir para outro, não resolve nada; quero dizer, contudo, que ensinar normas desligadas da realidade linguística do aluno (falo como aluno) não o torna competente para a produção de bons textos orais e escritos, uma das finalidades precípuas do ensino de língua materna. Se assim fosse, todos os nossos melhores gramáticos seriam grandes escritores; e seus livros estariam na lista dos best sellers (ai! um estrangeirismo!!), dos mais lidos. Regras gramaticais isoladas podem até ajudar aqui ou ali, mas, jamais farão daqueles que as aprendem eficazes escritores.
Pense-se, por exemplo, que estudamos regras de gramática isoladas durante, pelo menos, toda a nossa vida colegial e, ainda assim, quando necessitamos escrever algum texto, nos embaralhamos totalmente, pois não fomos ensinados a produzir textos; fomos, no máximo, ensinados a produzir frases que justifiquem regras gramaticais, muitas vezes obsoletas e desconectadas da realidade linguística padrão brasileira.
Para agravar ainda mais o ensino de língua materna no Brasil, contribui o fato de que, muitas das normas gramaticais ensinadas nas escolas daqui, são de origem portuguesa, da norma padrão de Portugal, pertencem ao português de lá; e foram incorporadas ao nosso idioma (que difere, em muitos aspectos, do de Portugal) pela elite brasileira no século XIX. As línguas faladas por aqui, nesse século, foram consideradas feias, estropiadas, sem valor, pelas classes sociais mais altas, pela elite letrada. Pejorativamente, falou-se até em “pretoguês”.
A colocação pronominal é, sem dúvida, a denúncia mais visível da arbitrariedade linguística e violência simbólica ocorridas por aqui naquele século; e que perduram até hoje. De maneira geral, é perfeitamente demonstrável que a (única, me arrisco a dizer) regra que rege a colocação pronominal, no português brasileiro, é a próclise, isto é, o pronome antes do verbo. Todas as outras são fidelíssimas ao português padrão de Portugal; portanto, nele se encaixam perfeitamente.
Não é de hoje que fatos linguísticos como esse vêm sendo denunciados. Só para citar um exemplo, Oswald de Andrade escreveu, em seu poema “Pronominais”, o seguinte: “Dê-me um cigarro / Diz a gramática / Do professor e do aluno / E do mulato sabido / Mas o bom negro e o bom branco / Da Nação Brasileira / Dizem todos os dias / Deixa disso camarada / Me dá um cigarro”.
Ainda hoje, século XXI, há quem ache que a mesóclise é uma opção de colocação dos pronomes. De fato, deveria ser uma opção, mas não é, já que somos OBRIGADOS (isso mesmo, obrigados) pelos “donos da língua” a escrever coisas do tipo “fá-lo-ão”, “queixar-me-ias”, “cantá-la-ei” etc., quando todos sabemos que esse tipo de colocação pronominal morreu e foi enterrada há muito tempo no português brasileiro contemporâneo. Dessa forma, ao invés de opção, que se pode escolher, optar por uma ou outra forma, há, indiscutivelmente, arbitrariedade, violência simbólica, imposição daqueles que (equivocadamente) acreditam que a língua morreu em 1908, com Machado de Assis, e que de lá pra cá não se escreveu mais nada “corretamente”.
Portanto, o Brasil vive, há várias décadas (ou mesmo séculos), um claro paradoxo linguístico, uma esquizofrenia perfeita: ensina-se uma língua tão estranha que, ao aluno, parece outra. E a língua dele, trazida de casa, é totalmente desprezada, considerada errada, feia, sem gramática; e, por isso, é deixada de lado e substituída pela “língua certa”, “boa”, “bonita” dos poucos iluminados gramáticos.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A beleza de uma mulher

Ontem, em uma visita à escola Marilda Golveia, ficaram patentes às minhas retinas a beleza e a delicadeza de uma mulher. Precisei, por conta do estágio em Língua Portuguesa que estou realizando, ir até à escola, para que o coordenador de aprendizagem respondesse a um breve questionário e assinasse alguns documentos meus pertinentes àquela atividade. Enfrentei uma chuva pinga-pinga e uma rua enlameada; e depois de alguns minutos, cheguei ao colégio.
O coordenador, com sua “doçura”, tratou logo de perguntar se eu era o professor de Espanhol que ele estava esperando; eu disse a ele que não. Expliquei-lhe que era estagiário e que necessitava de sua atenção por alguns instantes, para que pudesse ter meus documentos assinados. Ele disse: “ah! Sim, sim. Entra aqui, senta do meu lado.” Eu entrei e sentei.
Das perguntas que havia no questionário, talvez ele tenha respondido uma ou duas, no máximo. A cada questão, eu ouvia sua “doce voz” dizendo: “isso eu não sei, nem isso, isso também não etc...”; ele não sabia sequer quantos funcionários havia na escola, foi impressionante. Não saber de uma coisa ou de outra, a respeito do seu ambiente de trabalho, é normal; não saber de nada, no entanto, para um coordenador da educação, a meu ver, não é normal. Prejudica mais que ajuda.
Não tendo esse coordenador me ajudado em quase nada (por mera e explícita falta de vontade), levei a documentação até uma moça que trabalha na secretaria do colégio. Ela respondeu todo o questionário, assinou todos os documentos e ainda pediu “desculpa por qualquer coisa”. Eu a agradeci sinceramente e saí pensando na beleza e delicadeza daquela mulher. Não me refiro à beleza externa, pois, como mais ou menos diria Machado de Assis, ela “não era nem muito feia, nem muito bonita”; refiro-me, entretanto, ao que havia internamente naquele ser feminino: a vontade de resolver os problemas da escola, de ajudar a quem lá chega em busca de ajuda. Isso é belo.
De tudo, ficaram três coisas: a má vontade de um coordenador que não sabe, talvez, nem o dia do seu nascimento (e o pior: parece não ter a mínima vontade de saber); a beleza e a prontidão de uma mulher; e a imagem de uma escola que dispõe de alguns funcionários públicos “interessadíssimos” em fazer o trabalho que fazem.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Algumas cretinas expressões

Quando não tenho nada de mais importante a fazer, leio colunas de “dicas de português” na internet. É surpreendente, para quem tem uma visão de língua mais equilibrada, o número de cretinas expressões e palavras que tentam apontar (supostos) erros cometidos pelos falantes do português do Brasil. Nesses últimos meses, minhas leituras têm produzido forte anticorpo contra essas expressões.
Não há, talvez, nada mais cretino que ler colunas de “dicas de português” (ainda assim, eu leio) recheadas de expressões como “assassinato gramatical”, “atentado contra a língua”, “erro crasso”, “erro amazônico”. É de dar azia. Não há o mínimo de consideração ou respeito pelo falante brasileiro, muito menos estudo algum com respeito às diferentes modalidades da língua – fala e escrita, por exemplo.
Num dia desses, li num sítio qualquer que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao discursar em um palanque, “tropeçou no idioma”. Esse tipo de expressão é mais corrente que água de cachoeira. É de impressionar.
Não vou, aqui, até pela complexidade do assunto, entrar no mérito da questão, qual seja: o(s) conceito(s) de erro em língua; pretendo, no entanto, observar que, na maioria dessas colunas do “português correto” (seja lá o que isso queira dizer), seus autores visam (só pode ser isso) lucrar com dicas de português, sobrepor-se aos meros mortais falantes brasileiros, demonstrando uma “inteligência linguística” do além.
A bem da verdade, se em seus títulos esses autores escrevessem “dicas de gramática”, seriam muito mais honestos e coerentes. Se ao invés de acharem que estão acima dos outros em termos de “conhecimento de língua” desconfiassem de sua própria “sabedoria linguística”, seriam mais sábios, mais inteligentes.