sexta-feira, 29 de maio de 2009

E veio Ventoforte, mas tão forte!...

Apesar do cansaço e do sono que me amoleciam o corpo ontem – passei o dia fora de casa projetando um evento cultural com uma amiga – não pude resistir ao convite desta (Alessandra), que me pediu para acompanhá-la ao Teatro Plácido de Castro (o Teatrão) para ver Bodas de Sangue, peça exibida pelo expressivo grupo de teatro Ventoforte, de São Paulo.
Cansado e com sono cheguei eu ao Tetrão, mas, de repente, veio Ventoforte, mas tão forte que... Com sua musicalidade excepcional, com um figurino de primeira, original, e com uma expressividade incrível, soprou meu sono, arrancou meu cansaço e me arrebatou com seu furor, com seu vento impetuoso, para dentro da peça, para o interior de cada ato, para os detalhes de cada gesto, de cada personagem.
Além da atuação quase perfeccionista dos atores, muito me impressionaram a agudeza de uma belíssima voz, a sensibilidade de um violonista, o sotaque de um senhor, provavelmente não-brasileiro, e a batucada de tambores que transportava a imaginação de qualquer um dos telespectadores para o meio da selva amazônica.
Sopra novamente, Ventoforte!


segunda-feira, 25 de maio de 2009

Um apólogo

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
- Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
- Deixe-me, senhora.
- Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
- Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
- Mas você é orgulhosa.
- Decerto que sou.
- Mas por quê?
- É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
- Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
- Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
- Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
- Também os batedores vão adiante do imperador.
- Você é imperador?
- Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana - para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
- Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
- Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
- Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: - Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!



Machado de Assis

domingo, 24 de maio de 2009

Inesquecível


A poesia cantada de Raimundo Nonato, sensível e respeitado poeta acriano, e a mímica inteligente do excelente ator Ivan de Castela, representando o teatro acriano, conversaram com meu espírito e incandesceram a noite de ontem, no nosso 2º Saral Literário, que ocorreu na TENTAMEN, belíssimo e histórico espaço cultural de Rio Branco.

Poesias ritmadas como as que ouvi ontem deveriam invadir mais lares, contagiar mais pessoas, levá-las a refletir sobre o dom gratuito da vida, mostrar-lhes que, apesar de tudo, ainda existem motivos reais para se viver: o Amor, por exemplo.

Tivemos ainda a oportunidade de interpretar, eu e os músicos da banda, as canções "O nome da paz", "5:50 PM", "Continuar", "Do alto da pedra" e "Como o Sol", das bandas Resgate, Oficina G3, Rosa de Sarón e Los Porongas, respetivamente.

Poetas inspirados, obrigado por alegrarem minha noite, por mexerem com minha sensibilidade, com minhas emoções e ideias; obrigado por mudarem ou ajustarem a minha "velha opinião formada sobre tudo". Noite marcante. Inesquecível. Se Deus permitir, que venham outras dessa!

sábado, 23 de maio de 2009

É hoje, minha gente!


Hoje, a partir das 18h:30 nós estaremos na TENTAMEN, ótimo ambiente para se fazer novas amizades, conhecer novas gentes, realizando o nosso 2º Saral Literário.
Exploração do texto em suas diversas formas e modalidades: haverá a participação especial de Raimundo Nonato, sensível poeta que joga com palavras; e de Ivan de Castella, representando o teatro acriano. Não há dúvidas de que será uma noite maravilhosa. Além disso, muita música para tocar o imaginário e a sensibilidade dos que estiverem presente. Contamos com tua participação. É hoje, pessoal!!!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
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Um brinde a Drummond. Viva Drummond!!!

terça-feira, 12 de maio de 2009

Bobagens ao vento 2

No sofá da sala a pensar. Dia de Sol. Do outro lado da rua, rosas me olham, folhas me olham, de olhos bem arregalados, diga-se. Talvez estejam preocupadas comigo, mais do que certa gente; pois, hoje, bem cedinho, me chamaram de vagabundo. Não gostei, não concordei, confesso; mas não revidei.
No sofá da sala a pensar. A pensar o quê? A vida, eu acho.
Deus hoje não me ouviu, parece. Ou não quis me responder. Não sei. Só sei que abusei dos pronomes interrogativos, ainda que sem interesse por respostas, é verdade. Indaguei só por indagar mesmo.
Levantei do sofá. Ir para onde? Fui a uma lanchonete, engordar um pouco, talvez... ficar como aquela gordinha que vai saindo agorinha da lanchonete, ao passo que vou chegando.
– Me dê uma saltenha e um suco de cupuaçu, disse eu, com uma tristeza que quase enclausurava minha voz.
A balconista mal olhou na minha cara, disse que não havia suco de cupuaçu, só de caju.

- Tudo bem, falei.
Para não tomar mais do teu precioso tempo, caríssimo leitor meu, tenho um último pensamento a revelar-te: hoje é um dos dias que discordo das pessoas que dizem ver em mim algum talento, dom para escrever, que falam até em dotes de escrita. Ao contrário de tudo isso, penso mesmo que possuo extraordinária vocação para reunir bobagens em curto espaço, pois olha só quanta besteira reuni em tão poucas linhas!

sábado, 9 de maio de 2009

Um programa mínimo

De Sírio Possenti
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Seria bom poder votar em partidos e programas, para poder cobrar depois. O que nunca ocorre, pelo menos para o povão.
Gostaria de votar em candidatos que tivessem um programa para a escola brasileira. Ainda mais especificamente, um projeto de letramento, ou seja, de inserção efetiva do (aluno) brasileiro no mundo da escrita. Esse programa conteria algumas proibições e alguns pontos de trabalho. O resto decorreria mais ou menos naturalmente. Ou dependeria mais de alterações na ordem econômica que no aparelho escolar.
Algumas proibições: análise gramatical (pelo menos até a quinta série), exercícios de preenchimento, exercícios estruturais. Pela simples razão de que não é assim que se aprende língua.
Alguns pontos de trabalho: a) leitura de material variado (jornal, revista, literatura - especialmente literatura) em alta escala, e na própria escola, tão logo os alunos dominem os mecanismos básicos da língua escrita (antes disso, os professores leriam para eles); b) escrita constante, várias vezes por dia, todos os dias: narrativas, comentários, resumos, paródias, paráfrases, diário, cartas etc. Muita leitura e muita escrita, simplesmente porque é assim que se aprende; c) como a língua é um lugar de marcação de identidades, frequentemente, de discriminação, a escola seria obrigada a dar ênfase aos aspectos da língua que são pretexto de discriminação social.
Este ponto merece algum detalhamento. Trocado em miúdos, isso significa que, dentre os chamados vulgarmente erros, a escola atacaria em primeiro lugar as construções dialetais que são objeto de discriminação, as formas que os sociolinguistas chamam de marcadores (que alguns falantes usam e outros não, numa mesma região, por critérios como classe social). Por exemplo, formas como "menas", "paiaço", "muié", "carça", construções como "os livro" e "nós vai". Em seguida, a atenção se voltaria para formas linguísticas menos marcadas. Somente depois é que se daria atenção a formas que não são mais socialmente marcadas, ou seja, percebidas como erros.
Seguindo esse critério, só depois de "eliminar" as formas socialmente marcadas é que a escola se dedicaria às formas menos marcadas, dentre as quais as relativas não padrões (o menino que eu falei com ele, a casa que o jardim dela tem uma mangueira), as famosas e cada vez mais frequentes construções em tópico e comentário, semelhantes aos anacolutos (meu time, ele vai precisar de muita sorte) e outras. Finalmente, a escola atacaria formas que ninguém mais nota que estão "erradas", só mesmo os ranzinzas. Aqui, eu incluiria a questão da colocação dos pronomes, certas regências (namorar, preferir) e expressões como "TV em cores". Apenas para evitar que alunos percam concursos porque os autores das provas são idiotas.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Otimismo

A época é sombria, para não dizer entrevada; mas ainda há esperança, apesar de tudo.
Apesar de tanta indiferença, ainda há quem seja diferente.
Não obstante desmedida desigualdade (em todos os sentidos), ainda há quem lute pelo contrário, quem se preocupe em defender os menos favorecidos, quem revolucione, ou tente, pelo menos, revolucionar.
Em meio a essa chuva de desonestidade, ainda há – eu acredito nisso – quem seja honesto, quem ame a justiça.
Apesar da mentira que alguns admiram, da mentira que habita os lábios de muitos, apesar disso, ainda existem humanos que falam a verdade, que vivem a verdade, que andam na verdade.
Apesar, enfim, do desamor que a maioria escolhe, ainda há um punhado de gente que resolveu amar o outro, que valoriza as pessoas mais do que as coisas; que, ao invés de usar as pessoas e amar as coisas, sabiamente, faz exatamente o contrário: usa as coisas e ama as pessoas.

domingo, 3 de maio de 2009