terça-feira, 30 de junho de 2009

País emergente, educação submersa...

Marcos Bagno - Abril de 2009
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A Coreia do Sul tem uma população 7 vezes menor que a dos Estados Unidos. No entanto, a cada ano, ela forma o mesmo número de engenheiros que os EUA. Num programa internacional de avaliação, os sul-coreanos ficaram com o 1o lugar em solução de problemas, 1o em leitura, 3o em matemática e 7o em ciência. Em 1945, a taxa de alfabetização no país era de 22%, hoje é de 99%. É o que acontece quando uma nação mobiliza todos os seus recursos em favor da educação. Corta.
Em 2007, divulgou-se o INAF (Indicador de Analfabetismo Funcional): 75% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são incapazes de ler e interpretar adequadamente um texto simples. Se somos hoje quase 200 milhões, significa que 150 milhões são analfabetos funcionais, isto é, pessoas que tiveram acesso à escolarização mas não desenvolveram plenamente as habilidades de leitura (e de cálculo também), o equivalente às populações somadas da França e da Alemanha.
Esses dados não seriam suficientes para escandalizar nossas classes dirigentes? Não. A história da nossa formação social mostra que, há meio milênio, as classes dirigentes brasileiras não só não se escandalizam como tiram o máximo proveito desse abismo social que separa o pequeno círculo dominante da monumental maioria de classes subalternas. Os dados do analfabetismo funcional "coincidem" com os da distribuição (distribuição?) de renda em nosso país, a mais injusta do planeta.
O desenvolvimento econômico do Brasil nos últimos anos e sua crescente importância no panorama internacional - comprovada pela sigla BRIC, iniciais dos "países emergentes" - em nada se fazem acompanhar de um desenvolvimento social que mereça o mesmo destaque. Somos uma nação onde o elemento africano tem um profundo impacto na nossa história musical, religiosa, culinária, afetiva, linguística etc., mas continuamos profundamente racistas. Somos o país em que as desigualdades de salários entre homens e mulheres é das maiores do mundo. Temos um genocídio diariamente praticado contra os adolescentes pobres, negros em sua maioria, eliminados por traficantes e pela polícia. Um sistema carcerário que arrancou lágrimas do observador da Anistia Internacional, que o qualificou de "inferno". E, é claro, uma forte liderança entre os países mais corruptos.
Mais sinistro é comprovar, como as pesquisas vêm mostrando, que a maioria do nosso professorado também se inclui naquele apavorante índice de analfabetismo funcional. Procurados hoje em dia pelos estudantes de origem mais humilde e de baixíssimo letramento, os cursos de licenciatura continuam desconhecendo a realidade social de seu alunado, e vão diplomando milhares de pessoas sem habilitações mínimas para exercer a profissão docente. Já coletei centenas de textos escritos por professores da rede pública do Distrito Federal (maior renda per capita do país) e me surpreendi com sua quase absoluta incapacidade de escrever vinte linhas sobre o próprio ofício.
Enquanto nossas elites governantes ficam se divertindo com BRIC pra lá e G-20 pra cá, incomodadas apenas com as altas e baixas das bolsas, 75% dos brasileiros se veem desde sempre excluídos de qualquer progresso real no plano da cidadania. É triste viver num país emergente com uma educação submersa...

domingo, 21 de junho de 2009

Acústicos “elogios”

Tendo eu, na semana passada, falado (mal) de programas da televisão brasileira, sou obrigado, hoje, nesta linda tarde de domingo, a reconhecer “elogios” a certos gêneros musicais e certas músicas que tocam por onde passo: no meu bairro, por exemplo.
Fico realmente impressionado com a sensibilidade de seus compositores. Espanta-me, de verdade, o trabalho e “inspiração” que têm os autores dessas músicas para escrevê-las.
É impossível resistir às palavras e melodias que trazem tais canções. É lógico que tamanha qualidade e originalidade se dão pelo "alto nível" de letramento de seus autores. Passo, a partir de agora, a copiar abaixo dois trechos das que mais me impressionam, me encantam. A primeira delas é do grupo musical Saia Rodada:

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Vamos simbora pro um bar
Beber, cair, levantar
Vamos simbora pra um bar
Beber, cair, levantar (4x)
Vamos simbora pra um bar
Beber, cair, levantar
Vamos simbora pra um bar
Beber, cair, levantar (8x)

Senhores, confesso-lhes que, às vezes, quando estou distraído, chego a achar que a voz e letra de de tais músicas são de Caetano Veloso ou de Djavan, de Herbert Vianna ou de Humberto Gessinger, devido ao alto grau de elaboração.
É claro que, com minha aguda sensibilidade, jamais poderia deixar passar em branco e aqui me esquecer de reproduzir esta última, do magnificentíssimo Mc Créu, com suas rimas e métricas perfeitas:

É créu! É créu nelas!
É créu! É créu nelas!
"Vambora, que vamo"!
"Vambora, que vamo"!
Prá dança créu
Tem que ter disposição
Prá dança créu
Tem que ter habilidade
Pois essa dança
Ela não é mole não
Eu venho te lembrar
Que são 5 velocidades...(2x)
A primeira é devagarzinho
Só o aprendizado.É assim, oh!Créeeeu...(3x)
Se ligou? De novo!Crééééu...(3x)
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Isso, sim, é música de qualidade! Poderia reproduzir aqui muitas outras que me “agradam” e soam maravilhosamente bem aos meus tímpanos (como aquela "Se ela dança, eu danço", que amo de paixão); talvez até fique ao leitor a injustiça de não reproduzi-las, mas limito-me a essas duas. Desculpe-me!
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P.S.: A cada dia que passa tenho mais certeza da ineficiência, ineficácia e inoperância da escola na vida de brasileiros. Ah, cansei! Vou é assitir ao Faustão ou ao Silvio Santos!

sábado, 13 de junho de 2009

Uma batatada e tanto

No mais recente texto que escrevi neste quase nunca lido blogue, falei sobre a carência de bons programas na televisão brasileira, sobretudo na TV aberta. Perdoe-me o leitor se volto a falar sobre isso.
Hoje pela manhã, tendo degustado o pão-nosso-de-cada-dia, deitei-me no sofá, certo de que não encontraria nada de interessante na TV. Liguei-a mesmo assim. A Rede Globo transmitia o vôlei brasileiro, que vencia a Polônia (acho que era a Polônia). Sem perceber, zapeando, encontrei Nossa Língua, programa apresentado pelo professor Pasquele Cipro Neto na TV Cultura.
No momento em que “pulei” para a Cultura, o tal professor falava de Camões, e como de costume, utilizava uma MPB como subsídio de sua explicação. Nesta “aula”, a bola da vez era “Língua”, música de Caetano Veloso: Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões/Gosto de ser e de estar. Etc.
E o professor se empolgou, e lá pelas tantas, com ar de “sabe-tudo”, afirmou que Caetano escolheu dizer isso em sua música porque Camões foi “o pai do português moderno”. Ah, aí eu não aguentei. Não sou especialista em Literatura Portuguesa, muito menos em Camões, mas há informações que não necessitam de especialização ou superdotada inteligência para serem desmentidas. Pasquale deve ter se esquecido de um pequeno detalhe quase insignificante: Camões morreu em 1580! Como poderia representar modernidade, e mais do que isso, ter sido o pai do português moderno? Leiam vocês mesmos, senhores, um texto qualquer de Camões e tirem suas próprias conclusões!
Se bem que, como dizem por aí, tudo é relativo. Assim, de repente poderíamos até dizer (se o problema não fosse a veracidade dos fatos e da informação) que Eisten foi o pai da Psicanálise. Conta outra, Pasquale, que nessa eu não caí!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Nada de novo debaixo do Sol

Sempre que posso, assisto a programas de televisão. Seleciono-os, para não perder muito tempo – dificilmente há bons programas.
Quando o assunto é língua, nesses programas, um fato sempre me chama a atenção. Nunca vi um amador de Astronomia ser chamado em um programa de televisão para dar explicações científicas sobre a Astronomia, assim como nunca assisti a um jardineiro ou a alguém que ama plantas explicando em rede nacional sobre as dicotiledôneas, isso fica para os botânicos. Mas em matéria de língua, é impressionante como isso acontece com assiduidade.
Não assisto ao Caldeirão do Huck porque sei que quem vai “explicar” as questões envolvidas no Soletrando é a Sandy – (desin)formada em Letras, parece –, que não dirá nada de novo sobre língua e apenas repetirá uma lista de regras que podem ser encontradas (ou não, às vezes) na maioria das gramáticas normativas.
Quando muito há, entrevistam, nesses programas de grande audiência, jornalistas que são convidados a ensinar maneiras “certas” e “erradas” de se falar e escrever ou a analisar fatos da língua falada tendo por base “Os clássicos da literatura”. O resultado é sempre o mesmo: um desastre. Como diz Possenti, de onde menos se espera, é daí que não vem nada de interessante mesmo.
E o que fazer com a vasta pesquisa empreendida pelos verdadeiros especialistas em linguagem? Para onde vão os trabalhos de análise linguistica produzidos pelos linguistas? Eu respondo: vão para o lixo!
Por que jornalistas e gramáticos em geral não dizem nada de novo (nem mesmo em nota de rodapé de seus livros) sobre o tal do “gerundismo”? Ou sobre as chamadas construções em Tópico-Comentário, do tipo “O Brasil, ele é um país com alto índice de pobreza?” Não dizem porque não sabem nada sobre isso; e ainda que soubessem, tenho certeza que não teriam coragem de dizer.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A fazenda, não percam!...

Já estou de saída, portanto perdoem-me se minhas informações forem equivocadas ou imprecisas! Escrevo a vocês, senhores, para lhes informar sobre o novo Reality show da televisão brasileira – A fazenda –, que provavelmente a maioria já conhece, não me sendo necessário detalhar.
Quero, aqui, apenas dizer que, segundo Cris Flores, apresentadora do Hoje em dia, amanhã, à noite, será anunciado “o fazendeiro”, que será escolhido por nós (olha que privilégio!). Portanto, senhores, gastem todos os seus torpedos enviando seus votos para a Record, ainda dá tempo!
Ainda segundo a apresentadora, na votação, Dado Dolabela já está na frente. Temos a grande oportunidade de escolher um dos homens mais lindos do Brasil, e isso não acontece todos os dias; portanto, corramos e votemos, queridos leitores!
Uma curta nota: parafraseando Antônio Fagundes, no filme “Deus é brasileiro”, às vezes me pergunto, sem interesse pela resposta: “Onde esses diretores vão buscar tanta vocação para programas ruins?”
No mesmo molde da antiga “Casa dos Artistas” e do famigerado “Big Brother Brasil”, “A fazenda”, sem dúvida, alcançará (o que não é nada difícil) seus milhões de telespectadores.
Reforçando: Senhores, “A fazenda”, não percam... o tempo de vocês!