sexta-feira, 31 de julho de 2009

Classe Média - Max Gonzaga

Classe Média

Max Gonzaga

Composição: Max Gonzaga

Sou classe média
Papagaio de todo telejornal
Eu acredito
Na imparcialidade da revista semanal
Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio “coletivos”
E vou de carro que comprei a prestação
Só pago impostos
Estou sempre no limite do meu cheque especial
Eu viajo pouco, no máximo um pacote cvc tri-anual
Mais eu “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”

Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Mas fico indignado com estado quando sou incomodado
Pelo pedinte esfomeado que me estende a mão
O pára-brisa ensaboado
É camelo, biju com bala
E as peripécias do artista malabarista do farol
Mas se o assalto é em moema

O assassinato é no “jardins”
A filha do executivo é estuprada até o fim
Ai a mídia manifesta a sua opinião regressa
De implantar pena de morte, ou reduzir a idade penal
E eu que sou bem informado concordo e faço passeata
Enquanto aumenta a audiência e a tiragem do jornal
Porque eu não “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em
itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Toda tragédia só me importa quando bate em minha porta
Porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida

Cujo

De Sírio Possenti - em 30/07/09

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Chegado de longa viagem, peguei logo meus jornais, que não lia há uma semana. Em um do dia (Folha de S. Paulo, 26/07/2009), fui aos colunistas (gosto de debates, mesmo que só implícitos, e não confio muito nesse jornal como noticioso). Estava lendo o Clóvis Rossi e, na cabeça de um parágrafo, vi que lá estava: "Outro dia, alguém que acabei não anotando o nome sugeriu que as Nações Unidas...". Assim mesmo, sem a vírgula também esperada.
Faz alguns anos que não consigo ler sem prestar especial atenção a certos fatos, dos quais saem minhas modestas colunas. Tropeçar nesta frase, à qual falta notoriamente um "cujo", sendo ela de Clóvis Rossi e não de um caipira (em cujo (!) dialeto Amadeu Amaral anotou que os pronomes relativos se reduzem ao "que"), assim de cara, me fez decidir que escreveria de novo sobre esta morte já mais do que constatada. Foi bom o tropeço nesse dado, já que não posso escrever sobre a falta de assunto, como os cronistas de verdade.
Disse que à frase falta um "cujo". A maioria dos falantes a diria assim mesmo (muitos nem escrevem, e muitos dos que são mais jovens ou menos experientes nem se dariam conta de que "cujo" cabe aqui, não o reconhecem mais, ou nem sabem dele). Talvez até dissessem "alguém que acabei não anotando o nome dele..." (ver os tipos de relativas em Tarallo, "A pesquisa sociolingüística", Ática).
Mas as variedades lingüísticas estão associadas tanto a tipos de falantes quanto a contextos e a modalidades. Pessoas menos cultas provavelmente nunca empregam "cujo". Pessoas mais cultas (e mais velhas), escrevendo formalmente, ainda o empregam bastante (eu incluído). Ou quereriam empregar. Mas, às vezes, por mais que o queiram, por mais que se apliquem ou que telefonem ao professor Pasquale para dirimir suas dúvidas, nem se dão conta que é o caso de ter uma, e produzem sua frase sem "cujo", com um "que" nu, como se fossem jovens e estivessem numa conversa de bar.
A frase de Clóvis Rossi teria tudo para ser "Outro dia, alguém cujo nome acabei não anotando, sugeriu que as Nações Unidas...". Aposto que, se tivesse percebido, faria uma nota ao final de sua coluna seguinte, talvez se desculpando (até porque, dias antes, dissera que Lula não sabe falar, embora o contexto fosse um pouco diferente). Repito: acho que Clóvis Rossi, se percebesse, pediria desculpas.
Talvez eu lhe escrevesse, como faço às vezes (em geral, ele se lixa, às vezes me manda pastar), para dizer-lhe que ele não estaria errado, que, no fundo, é mais moderno do que gostaria de ser, que ainda vai ser citado por estudiosos do português por ter produzido um excelente dado sintomático de mudança do sistema pronominal. Que só poderia achar que está errado se pensasse que a língua portuguesa é só a que está no manual de redação do seu jornal, o que é ruim para qualquer pessoa, mas é bem pior para um jornalista (eles não gostam dos fatos?).
Pois é. Queira-se ou não, o cujo morreu. O fato de que foi muito usado, de que ainda surge muitas vezes, e do fato óbvio de que seu funcionamento e seu sentido precisam ser explicitados nos textos em que aparece não significa que ainda está vivo. Nas línguas, elementos mortos continuam funcionando. Até porque, muitas vezes, lemos textos cuja gramática não se usa mais. Ou porque muitos acham que a língua viva é coisa de ignorante, e por isso a evitam.
Aos que acham que dizer isso é a mesma coisa que propor que o pronome "cujo" não precisa mais ser "ensinado" na escola não entende(ra)m nada de língua, nem de ensino.
Para provocar, segue uma notinha de M. Said Ali sobre o tal "cujo", ou sobre um de seus empregos arcaicos: "Tem esse pronome quem a forma possessiva cujo, dando-se-lhe gênero e número da cousa possuída:
Cujas são estas coroas tã esplandeçentes? (S. Josafate 47) - Cuja he esta barca que preste? (Gil Vicente 1, 232) - Cuja he esta imagem? (Vieira, Serm. 5, 334) - E as despesas deste injusto intertenimento ... por cuja conta correm? (Ib., 2, 92) - E todos esses bens que juntaste a que chamas bens, cujos serão? (Ib., 5, 456)".
Já escrevi nesta coluna, acho que comentando nota do prof. Pasquale exatamente sobre esta questão, que um dos problemas que surgem quando se defende, sem explicitar metodologias, que se deve ensinar "cujo", mais-que-perfeito e mesóclise, entre outras coisas, é decidir o limite do que faz parte do programa escolar e do que fica fora dele. Por exemplo: devemos ensinar (e exigir) o uso de casos de "cujo" como os acima citados? Ou é o caso de decifrá-los quando ocorrem e de dizer que são arcaísmos - o que não impede de aprendê-los?
E devemos escrever gramáticas nas quais se diz que "cujo concorda em gênero e número" ou devemos continuar escrevendo, como Said Ali, que "se dá a ele gênero e número"? E por que não ensinar também "he","intertenimento", "tã", "cousa" etc." Por que?
E o que fazer com os arcaísmos que ainda não foram declarados como tais, como o "cujo" que Clóvis Rossi deixou de usar, certamente sem querer, que é quando a regra vale mesmo?

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Sírio Possenti é professor associado do departamento de Linguística da Unicamp

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Educação da marcha à ré

Enquanto crescemos, idealizamos – profissões, casamento, patrimônio, posições etc. Sem maiores dificuldades, lembro-me perfeitamente de minha infância escolar, sobretudo de minhas professoras. Não me esquecerei principalmente da Sandra (de Língua Portuguesa) e da Lucilene (de História). Meus colegas de turma daqueles anos, que agora me leem, hão de concordar comigo que essas duas professoras eram excelentes. A prova mais firme de que eram excelentes é o fato de que as odiávamos, pois todos os bons professores eram odiados por nós.
Essas duas exímias docentes me serviram de inspiração; fizeram-me sonhar com esta ilustre profissão que hoje exerço – professorado. Recordo-me aquelas aulas, as explicações, os gráficos representando as classes feudais, em História, ou a lista de conjugações verbais, em Língua Portuguesa. Aquilo tudo me encantava, de verdade.
Hoje, como profissional da área, vendo a profissão com um olhar amadurecido, mais criticamente, entristeço-me de ver o que vejo: má remuneração (para começar); falta quase total de apoio do poder público (fato que já resumiria tudo o que pretendo dizer com este textinho); em suma, descaso desmedido com tão insigne profissão. Se isso não é forte o suficiente para matar meus sonhos, idealizações e anseios profissionais, o é, pelo menos, para desanimá-los.
Perdido em minhas indagações a esse respeito, sempre me faço algumas perguntas: por que um deputado é mais bem remunerado que um professor? Mais: por que um deputado brasileiro (corrupto?) é mais bem remunerado que um professor? Mais ainda: por que um deputado, que trabalha menos que qualquer outro profissional (todos sabemos disso), além de desfrutar de inúmeras regalias (como verba de gabinete, auxílio-moradia, auxílio-paletó, só para ficarmos em três, pois a lista de auxílios é infindável), ganha mais que quase todo profissional de qualquer outra área? Isso me indigna, revoltame-me profundamente. Não me desce.
É muito fácil saber por que nossas escolas caminham cada vez mais para o desfalecimento e miséria nos quais já se encontram. Não é muito difícil entender por que nossas escolas contribuem fielmente para a deseducação acelerada e eficiente dos habitantes deste país – o dinheiro que pagamos aos cofres públicos não volta para a educação, conforme deveria; ao contrário, fica preso no cós de alguma cueca de algum político “íntegro” dos que (man)temos no Congresso Nacional Brasileiro.
Senhores, segundo pesquisas, o nosso congresso é o mais caro do mundo, superando o da China, o do Japão e o dos Estados Unidos, países de longe mais desenvolvidos que o Brasil. Nossos “retos” representantes gastaram em 2008 mais de R$ 11.000,00 por minuto. Absurdo. Isso não é o bastante para envergonhá-los? Não. Eles simplesmente não têm vergonha.
Por essas razões, escolas não têm sequer papel para imprimir um texto para ser trabalhado pelo professor de Língua Portuguesa, por exemplo. Por essas e outras mais, quando tem papel na impressora, não há tinta – isso quando há impressora, é claro. Lamentável.
Portanto, por todos esses fatos, que são mais do que suficientes para a miséria de um país; e alguns outros mais que não foram mencionados, caminhamos, diligentemente, na perfeita educação da marcha à ré.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Dvd G3


Primeiro, veio o cd; agora, o dvd. Sábado, dia 25, Oficina G3, considerada uma das maiores bandas de rock evangélico, gravou mais um dvd. Desta feita, o espetáculo foi na Usina Santa Bárbara (SP). A equipe está trabalhando na pós-produção do disco, que, em breve, será lançado. Sem dúvida, um dos mais importantes álbuns para a G3; um novo tempo, tendo em vista a nova composição do grupo.

Lançado o cd, já se esperava a gravação e lançamento do dvd, que, certamente, saiu com notória qualidade. Eu vou conferir o material!

domingo, 26 de julho de 2009

Bagno, o irônico!

SE ISSO É FILOSOFIA, DEUS NOS SACUDA!
Marcos Bagno - Junho de 2009
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Um amigo me deu a dica: "já leu o que Olgária Mattos escreveu sobre o Acordo Ortográfico?" Fui ler, no site Carta Maior (27/4). Fiquei perplexo. Primeiro, por causa da forma. A renomada professora de filosofia da USP produziu um texto anfigúrico, de vocabulário tão empolado que me deu saudades de ler Platão em grego, mais agradável é claro. Depois, pelo conteúdo. Embora eu seja favorável ao Acordo Ortográfico, gosto de ouvir os argumentos em contrário, quando são elaborados com um mínimo de pé e cabeça. Pé e cabeça, porém, é o que falta ao texto de Olgária, cuja quase obscuridade não consegue esconder as batatadas e abobrinhas que ela plantou ali. Vejam só: "A mais recente reforma ortográfica do português no Brasil subordina a língua às contingências do mercado e à agramaticalidade de sua fala oral, rompendo o equilíbrio entre a anomia e a gramatização que caracterizam uma língua viva. Expressionista antes da reforma, 'idéia' ou ' idêia', a pronúncia diferenciava o português do Brasil e de Portugal, suscitando o metron de seu estranhamento e de seu parentesco, revelador do ethos de um povo. Assim, diferentemente de unificar a palavra escrita, a reforma neutraliza a língua falada, despersonalizando-a." Santa Epistemologia, orai por nós! Falar de "agramaticalidade da fala oral" (fala oral?! existe uma escrita oral?) é ignorar que toda a linguística moderna, desde 1916, nega peremptoriamente a ideia de que a língua falada é "agramatical", isto é, não segue regras, é caótica, como supunham os primeiros filólogos gregos, três séculos antes de Cristo! Nossa filósofa confunde língua com ortografia (erro primário que os livros didáticos de 1o ano do fundamental tentam logo extirpar) ao imaginar que a retirada do acento da palavra "ideia" vai provocar alguma diferença na pronúncia aqui e em Portugal. Ridículo! Antes do Acordo já escrevíamos "titia", embora os pernambucanos pronunciem "titia" e os cariocas "tchitchia". Isso por acaso alguma vez "neutralizou" a língua falada? Abobrinha pura! Achar também que a língua falada sofre de "anomia" é negar um século e meio de estudos da psicologia cognitiva, da linguística, da biologia, da psicolinguística, da filosofia da linguagem...E a batatada final: "Por valorizar na língua seu caráter sumário, cômodo e elementar [como é?], esta reforma dissolve a dimensão ética da linguagem, da leitura e da literatura [uau!]. Sob a hegemonia da oralidade agramatical e anti-literária, as desgramatizações [hein?!] não seguem as 'tendências da língua viva', mas obscurecem nuances e refinamentos na comunicação oral e escrita". O que é, meu Santo Tomás, o "caráter sumário, cômodo e elementar da língua"? Por favor, me diga, porque nós linguistas temos uma dificuldade tremenda em convencer os alunos do caráter complexo, perturbador e intrincado das línguas humanas! E, por fim, falar da "oralidade agramatical e antiliterária" é traduzir, em termos mal empregados, o senso comum, para o qual só a escrita tem "gramática" e só é possível produzir "literatura" por escrito. Pré-científico até a medula!Pobre Platão! Pobre Aristóteles! Pobres estoicos! Pobre Agostinho! Pobre Saussure! Pobre Peirce! Pobre Wittgenstein! Pobre Benveniste! Pobre Lacan! Todo o vosso trabalho foi em vão! E ainda falam mal das opiniões dos jogadores de futebol...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Nunca será!

Hoje, bem cedinho, fui acordado com a notícia de que Romário está sendo investigado por ter supostamente participado do Jogo da Pirâmide, que, na verdade, se trata de uma arrecadação ilegal de dinheiro. Após ser preso por não pagar pensão alimentícia, agora vem mais essa para cima do Baixinho.
Não pretendo avaliar se houve ou não envolvimento do craque (isso mesmo, craque!) com essa jogatina; pretendo, no entanto, observar um fato: todos estamos carecas de saber que as leis no Brasil só funcionam para os pobres, para os menos favorecidos socialmente, para os mais miseráveis. Ao ver a notícia, pensei comigo – Romário iria para trás das grades mesmo? Por quanto tempo, hein? Piada.
Parece que as pessoas ou fingem que não sabem ou se esquecem de que, neste país, quem tem dinheiro não fica preso por muito tempo (o banqueiro Daniel Dantas está preso?); isso quando pelo menos vai preso. Enquanto o baixinho tiver grana... Nunca será!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Acústico Los Porongas


Tão esperado pelos rio-branquenses que curtem suas poéticas canções, eles vieram de São Paulo arrasar a noite de ontem, no Teatrão. Com o excelente letrista que é Diogo Soares, Los Porongas apresentaram canções antigas e outras novas pelo Projeto Pixinguinha, iniciando uma turnê aqui na terrinha.
A banda convidou ainda alguns músicos amigos para incrementarem a noitada. Eu fui lá, conferi. Fui surpreendido mais uma vez com o jogo de palavras feito pelos porongueiros de Rio Branco. Os caras são muito bons.
Aparência ou essência, o que é mais importante? Essa foi a pergunta que ficou no ar ao término do show, quando Diogo Soares comentou que, ao se apresentarem nos palcos pelo Brasil afora, pessoas (idiotas) duvidam da origem da banda, questionam se acrianos têm capacidade de fazerem o que a banda faz, de serem criativos quanto a banda o é.
Levando a essência deste Acre e confrontando a aparência, Los Porongas vai aprumando a proa da canoa por este país; e numa hora dessas a proa apruma e voa, e se vai, como o Sol...

Deixemos a língua em paz!

De Carlos Alberto Faraco
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Quando uma autoridade apresenta projetos de regulação do uso social da língua, eu logo me assusto. E me assusto, em primeiro lugar, como cidadão. Hoje, a autoridade quer determinar como devo usar as palavras. Amanhã vai querer dizer que livros poderei ler. Depois, que músicas poderei ouvir. E, por fim, que ideias e crenças estarei autorizado a ter.
Não há como deixar de sentir nestes projetos um forte cheiro de autoritarismo. E essa sensação se agrava – e muito – quando observamos a história do século 20: os governantes que quiseram controlar o uso da língua constituem um time de credenciais nada recomendáveis (Hitler, por exemplo, queria, em nome da defesa da língua pátria, “purificar” o alemão de palavras do iídiche). Sempre me pergunto se este padrão histórico é mero acaso.
Mas, além de reagir como cidadão, reajo também como técnico no assunto. Há uns 40 anos me dedico ao estudo científico das línguas e, por isso, não posso evitar dizer que, subjacente a estes projetos, há um preocupante desconhecimento de como as línguas funcionam.
As línguas ampliam continuamente seu vocabulário. Pelos cálculos de Antônio Houaiss, o português tinha 40 mil palavras no século 16 e tem hoje aproximadamente 400 mil. A história dos últimos 500 anos explica por que nosso léxico teve de aumentar dez vezes. E isso se deu por dois processos: a criação de novas palavras (os chamados neologismos) e a incorporação de palavras de outros idiomas (os chamados empréstimos).
É preciso que se diga que o segundo processo foi, nesse meio milênio, muito mais produtivo que o primeiro. Calcula-se que aproximadamente 35% do nosso vocabulário são de palavras de outros idiomas. Nesse total, estão desde palavras das línguas dos povos que habitavam a península Ibérica antes da ocupação romana até as do inglês incorporadas nos últimos cem anos, passando por aquelas que foram (e continuam sendo) importadas de inúmeras outras línguas americanas, africanas, europeias e asiáticas.
Assim, o uso e eventual absorção de palavras de outros idiomas constituem uma solução e jamais um problema. São um fator de enriquecimento e não de empobrecimento das línguas. Temos, portanto, bons motivos para deixar a língua e seus falantes em paz.
E acrescente-se a isso um outro fato a que poucos atentam: os falantes, na própria dinâmica da vida social, usam palavras de outros idiomas, absorvem algumas e, o mais importante, descartam a maioria, sem que haja a necessidade de intervenções legiferantes. Exemplo próximo nosso é o vocabulário do futebol. Quando o “esporte bretão” chegou aqui, praticamente a totalidade das palavras era do inglês. Hoje, sobraram não mais que duas (gol e pênalti). O mesmo processo estamos assistindo agora com o vocabulário da informática: mais de dois terços das palavras do inglês já foram descartados. Felizmente, para horror dos que querem tudo regular, a própria sociedade re­gula o funcionamento da língua. E o faz com mais inteligência e propriedade do que os que se metem a rabequista.
Apesar de tudo isso, a Assembleia aprovou um estapafúrdio projeto de iniciativa do Executivo que obriga que sejam traduzidas palavras de outros idiomas que ocorram em propagandas expostas no estado, estipulando multa de R$ 5 mil para o seu descumprimento.
Como será ele aplicado? O primeiro problema será definir o que são “palavras de outros idiomas”. Pode parecer simples. Mas, considerando que 35% do nosso vocabulário é composto de “palavras de outros idiomas”, como saberemos quais de­­vem ser “traduzidas”? Pizza, show e internet, por exemplo, vão precisar de tradução? E o que é exatamente traduzir? Tec­­nologia bluetooth deverá ser tecnologia dente azul? O que precisamente se estará resolvendo com isso? E, por fim, quem serão os fiscais aplicadores das multas, se nem os especialistas (os lexicólogos) sabem como estabelecer com precisão quando um estrangeirismo passa a ser um empréstimo? E um empréstimo deixa de ser uma “palavra de outro idioma”?