terça-feira, 22 de setembro de 2009

DEIXEM O MEU ÓCULOS EM PAZ!

Marcos Bagno - Julho de 2009
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É mesmo uma pena que nossos melhores dicionários de referência, o Aurélio e o Houaiss, oscilem entre a tentativa de preservação das prescrições tradicionais e a vontade de incorporar e abonar as formas inovadoras já consagradas no uso do português brasileiro. Digo isso porque, ao tratar do substantivo óculo(s), ambos os dicionários assumem o tom mais prescritivista e autoritário possível, em franca contradição com as análises mais bem feitas que encontramos em outros verbetes:
AURÉLIO SÉCULO XXI: "No Brasil, pelo menos, diz-se, erroneamente, o óculos, este óculos, meu óculos" (verbete ÓCULOS)
HOUAISS: "A palavra óculos é pluralia tantum* ... sendo, portanto, erro a discordância de número (um óculos) que se tem vulgarizado no português coloquial do Brasil (formas corretas: uns óculos, meus óculos, um par de óculos)" (verbete ÓCULO)
*Pluralia tantum são as palavras que só são usadas no plural como bodas, anais, costas, férias.
Como diria nosso herói Macunaíma: "Ai, que preguiça!" Por que essa insistência em achar que esse importante dispositivo para melhorar a visão (que eu uso há quarenta anos!) tem que ser considerado como um par? Por que não chamá-lo então de binóculo, já que também existe o monóculo?
O que aconteceu com óculos foi o mesmo que aconteceu com tesouras, cuecas, calças, ceroulas, tenazes, listados pelo dicionário Houaiss no verbete PLURALIA TANTUM. Nesse verbete, a análise, felizmente, não recorre à imposição do que é "correto" e à condenação do "erro", sendo, ao contrário, isenta desses preconceitos:
PLURALIA TANTUM
Rubrica: gramática.
expressão latina com que são referidos os substantivos de uma língua cuja forma é um plural morfológico, mas que semanticamente podem denotar uma única unidade; trata-se sempre de referentes formados de partes simetricamente duplicadas (p.ex.: tesouras, cuecas, calças, óculos, ceroulas, tenazes)
Uso
embora o emprego do pl[ural] para indicar uma só parelha seja normal no português, registra-se uma dicotomia de tendência: de um lado, para obviar possíveis ambiguidades e explicitar a unidade, o locutor refere-se a um par de tesouras, de alicates, de pinças etc.; de outro, esp[ecialmente] no port[uguês] do Brasil, consuma-se o quase geral emprego do sing[ular] nos mesmos casos: uma tesoura, uma tenaz, a minha calça, a cueca.
É uma pena que não se tenha mencionado também o "quase geral emprego do singular" no caso de óculos. A razão do nosso uso de óculos no singular está nessas palavras do verbete: "substantivos cuja forma é um plural morfológico, mas que semanticamente podem denotar uma única unidade".
Pronto, gente, é só isso: é semântica! A semântica estuda a relação entre as palavras e as coisas do mundo que elas designam. Se nós concebemos o óculos como uma coisa só, nossa lógica linguística vai querer corresponder à nossa lógica de percepção da realidade: se o objeto é considerado como uma unidade, a palavra que o designa só pode estar no singular!
Vamos parar com essa insistência boboca, deixar todo mundo usar seu óculos em paz e cuidar de coisas mais importantes? Por exemplo: somente 8% das escolas com as melhores médias do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) em 2009 eram públicas. Não é perdendo tempo tentando convencer os alunos de que a palavra óculos só pode ser usada no plural que nosso ensino público vai sair do fundo do poço!

Uma bela sacada


Dentre as muitas artes ontem produzidas por Chico Caruso (grande chargista do clássico Roda Viva), enquanto Marina Silva era entrevistada, gostei, especialmente, do jogo de sentido desta frase: "Saí do PT porque estava me sentindo MEIO sem AMBIENTE." Foi uma bela sacada!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Vamos promover a língua!

De Carlos Alberto Faraco - 03/08/2009
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Meu texto anterior (Deixemos a língua em paz!), publicado na Gazeta do Povo de 17/07/2009 e, depois, transcrito nesta coluna, provocou alguns questionamentos de leitores. Um deles me pergunta se não é dever de todos promover a língua portuguesa; outro, se não acho abusivo o uso atual de estrangeirismos; e, por fim, um terceiro me pergunta como devemos proceder com os estrangeirismos se uma lei estapafúrdia não é a solução.
Vou comentar o primeiro ponto neste texto. Voltarei aos outros oportunamente.
Vamos começar nos colocando de acordo quanto à primeira questão. É óbvio que, como sociedade, devemos promover a língua portuguesa, que é a língua da maioria da população brasileira. E aqui não há segredo: a promoção da língua depende basicamente de uma boa educação linguística no nível fundamental e médio.
Uma boa educação deve garantir que todas as crianças sejam efetiva e rapidamente alfabetizadas; que todas as crianças e jovens alcancem bons níveis de letramento (ou seja, de familiarização com a cultura escrita), dominando as práticas sociais de leitura e produção de textos e tendo amplo acesso, por meio de uma boa rede de bibliotecas públicas, a bens culturais como livros, revistas e jornais.
É preciso também oferecer às nossas crianças e aos nossos jovens as condições para que eles conheçam a história e a realidade linguística do Brasil – saber, por exemplo, que a sociedade brasileira é multilíngue, embora o Estado brasileiro tenha uma só língua oficial, e entender todas as implicações dessa complexa realidade.
Nesta mesma direção, é preciso que nossas crianças e jovens compreendam o funcionamento social da língua e desenvolvam atitudes radicalmente contrárias ao preconceito linguístico ainda tão arraigado entre nós e que tem tantas consequências deletérias nas nossas relações sociais.
Estamos cumprindo satisfatoriamente estas tarefas? Claramente não. O processo de alfabetização não tem sido universalmente eficaz (muitas crianças estão chegando a séries mais avançadas da escola fundamental sem o domínio do alfabeto). Por outro lado, a escola não tem conseguido ampliar o nível de letramento dos alunos, como mostram os exames de avaliações do domínio de leitura (Prova Brasil e ENEM) e de escrita (ENEM). Falta ao país uma rede de boas bibliotecas públicas. Pouco ou nada temos feito para esclarecer as crianças e os jovens sobre a realidade linguística do país e para combater o preconceito linguístico.
Com isso, não temos sido capazes de romper os elevados índices de analfabetismo funcional que continuam dilacerando nossa cultura e afetando, por consequência, nosso desenvolvimento econômico e social (cf. os dados do INAF – Índice Nacional de Alfabetismo Funcional e da pesquisa Retrato da Leitura no Brasil).
Temos ainda índices elevados de analfabetismo absoluto. A mais generosa das estatísticas diz que 12% da população adulta brasileira são analfabetos. Recentemente, o IBGE divulgou índices ainda mais alarmantes (cf. Folha de S. Paulo, 14/7/09): 11,5% das crianças brasileiras de 8 e 9 anos são analfabetas. No Nordeste, o índice vai a 23%. No Maranhão, atinge o pico nacional: 38%!! Ainda um dado: quase a metade dos nossos jovens entre 15 e 17 anos está fora da escola.
Se queremos garantir a promoção da língua portuguesa é este quadro dramático que precisamos mudar: todas as crianças e jovens na escola, recebendo uma boa educação linguística e com acesso amplo aos bens da cultura da escrita. O resto, como diz a sabedoria popular, não passa de conversa pra boi dormir.
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*Professor Titular (aposentado) de Linguística e Língua portuguesa da Universidade Federal do Paraná.Organizador do livro Estrangeirismos: guerras em torno da língua (Editora Parábola)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sem tempo

Tenho andado meio sem tempo para novas publicações. Em breve, novos textos. Aos pouquíssimos leitores que gastam algum tempo lendo este blogue (isso mesmo, blogue, com "ue"!), abraços! Até logo, espero!