domingo, 31 de janeiro de 2010

A bunda


Com suave ironia, minuciosa observação do mundo e visão crítica das coisas que nos circundam, é que a liberdade métrica e o conteúdo dos versos de Carlos Drummond de Andrade (um dos maiores modernistas, indubitavelmente) me fascinam. Drummond é poeta sem papas na língua; é escultor de palavras. É magnífico.

Num domingo como este, nada melhor que contemplar, no plano imaginário, porém, quase real, o poema "A bunda". Prefiro a bunda descrita por Andrade às bundas siliconadas do Domingo Legal, do Faustão e/ou do BBB.



A bunda, que engraçada
1930 - O AMOR NATURAL

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai pela frente do corpo.
A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio.
Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem.
Ondas batendo numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda, redunda.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Escrevivendo...

Há um mês, iniciamos o projeto Escola Aberta, na escola Serafim da Silva Salgado, situada na estrada da Sobral, com oficinas em várias áreas de conhecimento, como pintura em tela, desenho, artesanato, teatro, entre outras. Sou responsável pela Oficina de Leitura, interpretaçao e produção textual.

Com o título "Escrevivendo...", a oficina tem por propósito promover a educação e a cultura, "descobrir" escritores e fomentar a leitura e a escrita nas comunidades da periferia da região chamada "baixada". Os resultados já começam a aparecer nos textos de jovens como o Fabiano. Confira!

Astros

A estrela d’alva no céu desponta,

E a lua – anda tonta com tamanho resplendor;

E as pastorinhas, para consolo da lua,

Vão cantando, na rua,

Lindos versos de amor.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Record vende 'torpedo' com orações do bispo Macedo

Ricardo Feltrin
Colunista do UOL



O portal de entretenimento da Record coloca o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, como uma celebridade do mesmo nível de estrelas populares da emissora, tais como Dado Dolabella, Eduardo Guedes e Ana Hickmann, entre outros.

No endereço www.recordentretenimento.com.br, a imagem de Macedo reveza-se na homepage com as de artistas. O anúncio convida o internauta a baixar "conteúdo e mensagens de fé" do bispo. Ele também pode receber pelo celular as últimas fofocas sobre o ex-integrante e vencedor de "A Fazenda", as novas receitas do culinarista do "Hoje em Dia" ou dicas de moda de Ana Hickmann.

Macedo é o único religioso incluído na lista de "celebridades" da emissora. O serviço é pago. Em média, o internauta que se dispuser a receber os torpedos tem de pagar cerca de R$ 2,30 por semana.

Procurada pela coluna, a Central Record de Comunicação disse não ver "problema algum nos dois tipos de conteúdo anunciados no portal, uma vez que se trata publicidade de uma empresa que é parceira da Record Entretenimento".

E aí, meu amigo, vai uma oraçãozinha? Aproveite a promoção: é só R$ 2,30 por semana!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Poema de um sem-mãe

Saudades de minha mãe,

Choro ao relembrar sua despedida;

Ah! Se minha maezona ainda estivesse aqui,

Mãe deveria ser para sempre, pra toda a vida!

Dizem que mãe só existe uma,

E eu que não tenho, procuro alguma;

Se souberem de alguém, digam-me, por favor,

Nesse mundo sou pobre, cego e nu, carente desse amor

Eu só queria ter tido uma chance,

E feito todos, hoje ter minha mãe;

Não fosse doloroso ser pobre, preto e favelado,

Mais duro ainda é ser um sem-mãe.

Outro Chico


Francisco, ou Chico para os mais chegados. Assim o chamavam os moradores da Rua Mauá, bairro João Eduardo II, nas conversas de beira de rua ou quando eventualmente o topavam em alguma madrugada pouco frienta. Estava ele na casa dos 45 anos de idade; e de muito sofrimento, é verdade. Chico era um daqueles caras de famílias que representam cabalmente o descaso dos administradores inescrupulosos deste país. Para esclarecer melhor ao leitor as circunstâncias sociais que rodeavam o protagonista desta historieta, faço questão de detalhar um pouco o ambiente do qual ele fazia parte.
João Eduardo II, em verdade, não pode nomear a região em que Francisco morava. O local mais parecia uma vila, um pequeno vilarejo. Até o chamavam mesmo de Vila Vintém (lembrei-me disso agora, não sabendo informar ao leitor a origem de tal nomeação). Imagino que tenha vindo de uma expressão que compõe um ditado de muita utilidade por aqui – “Fulano não vale um vintém”. Daí, Vila Vintém, talvez.
O esgoto a céu aberto servia de lago para os barquinhos de folhas de bananeiras da molecada negra que dividia seu “parque” de diversões com ratos que, em tamanho, se equiparavam a cutias.
O quintal de um era de todos. Todos passavam por dentro do terreno de todos – quando e como queriam, de manhã ou à tarde, correndo ou andando, calado ou gritando. Não havia muitas cercas. Um dos inconvenientes desse tipo de prática era que, quando algum amigo ou desconhecido ia num fim de semana desses da vida a um churrasco, ou, não raro, a alguma bebedeira na Vila Vintém, os cachorros dos outros vizinhos ficavam loucos e queriam mordê-los. Como dizia a dona Maroca, antiga vizinha, fuxiqueira e falecida (Que Deus a tenha para sempre!) os cachorros “botavam era no toco”, mesmo.
Como de costume, botou Chico para ferver a água do café, ao passo que escovava os dentes. Tomou um gole de café puro e forte, vestiu uma velha blusa azul de meia, que usava para trabalhar, beijou a testa de suas duas crias, Jéssica e Gabriela, como um sinal de despedida (parece até que adivinhava), e partiu. Ainda estava escuro. Era aquele dia 1 de algum mês que não recordo; e o ano era, se não me engano, 1988. Eram 4h da madruga. E lá ia o nosso Chico, se utilizando bem de seus lábios grossos e negros para produzir aquele assobio carregado, para cantarolar alguma música enquanto caminhava. O trajeto era sempre o mesmo: saía do João Eduardo II, passava pelo I e cortava pelo Ivete Vargas. Sempre. Quem não era a mesma, no entanto, era a Rua Leblon, chegando ao Ivete Vargas, que, ao contrário dos outros dias – quando só passavam alguns pouquíssimos carros, um ou outro mendigo ou bêbado e nada mais – desta vez, servia de passagem para uma patota de três ou quatro moleques.
Vinham eles bem pelo meio, como se fossem donos da rua. Não pareciam em nadinha mal-intencionados. Mas as aparências cumpriram sua função: enganaram o seu Francisco. Ao avistá-los do início da rua, Chico subiu à calçada, baixou a cabeça e cruzou os braços, num gesto não-verbal de quem intentava dizer: “eu sou boa pessoa, trabalhador”.
Os garotos cada vez mais se aproximavam, vinham ao encontro de Chico. Quando eles já quase passavam por este, um deles andou em direção ao pobre trabalhador e perguntou: “Hei, cê tem um real aí? Pra mim lanchar. Tô com uma fome doida!” Chico, já trêmulo, respondeu: “Tenho não, amigo. Tô indo pro o trabalho e não levo dinheiro.” O que o nosso trabalhador não sabia era que se tratava de um assalto que viraria latrocínio. Os moleques então se achegaram e o seguraram. Chico tentou reagir, tentou correr. Quando ia conseguindo se soltar, sentiu uma punhalada vinda não sei de onde, em cima do peito esquerdo. Caiu aos berros no chão. O sangue escorreu por entre as brechas daquele asfalto rachado. Os pivetes correram e o deixaram. Naquele dia, uma família perdeu um homem de vergonha, de caráter, trabalhador. Duas lindas crianças ficaram órfãs de pai. Que tristeza! E agora, quem comprará o pão das meninas? Quem beijará suas testas na madrugada antes de sair? Por um real, mataram nosso Chico. Por menos de dois, deram fim à sofrida, porém alegre vida do nosso trabalhador. Adeus, Chico!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Bem feito, ladrão!!!


Justiça afasta Leonardo Prudente (deputado da 'meia') da presidência da Câmara Legislativa do DF
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Por Rafael Targino Do G1, em Brasília

O juiz Álvaro Luis Ciarlini, da 2ª Vara da Fazenda Pública do Distrito Federal, determinou nesta segunda-feira (18) o afastamento de Leonardo Prudente (sem partido, ex-DEM) da presidência da Câmara Legislativa. Ele ficou famoso por ser flagrado, em vídeo, colocando nas meias dinheiro de um suposto esquema de propina, conhecido como mensalão do DEM de Brasília. A decisão é liminar (provisória) e ainda cabe recurso.

Segundo o juiz Alvaro Luis Ciarlini, “é inegável […] a existência de indícios da prática de atos ímprobos por parte do demandado, valendo lembrar que tais fatos foram fartamente divulgados pela mídia escrita, falada e televisionada, sendo hoje notórios e de domínio público.”

Veja a vergonha abaixo, meu caro:

domingo, 10 de janeiro de 2010

Por que é impossível falar sem gramática

Quando o assunto é língua, circulam, com certa frequência, na mídia brasileira (rádio, TV, jornais impressos, colunas de jornais on-line etc.), comentários, crenças e afirmações (na maioria das vezes elaborados pelos propagadores do purismo linguístico e da hipercorreção) que, paulatinamente, vão se cristalizando no senso comum, a ponto de, se não analisados com cautela, nos parecem teses inquestionáveis.
No interior dos comentários que mais reincidem, aparece a mitológica e histórica dicotomia fala/escrita, que sustenta a (falsa) ideia de que a fala seria (supostamente) desorganizada, sem lógica, sem regras, sem gramática; ao passo que a escrita seria exatamente o inverso: organizada, lógica, regrada, com gramática.
Antes de qualquer coisa, faz-se necessário desfazer esse mito antiquíssimo: estudos de importantes pesquisadores modernos (como, por exemplo, Marcushi) não apresentam essas duas modalidades da língua (língua falada/língua escrita) de maneira dicotômica; contrariamente, postulam que as mesmas são duas caras da mesma moeda, isto é, duas modalidades da mesma língua; e que se influenciam mutuamente.
Se comparada a países europeus, a sociedade brasileira está, sabe-se, ainda muito distante de atingir graus significantes de letramento. Apresentamos (e me parece que ainda vamos apresentar por muitas décadas) altos índices de analfabetismo e agora que conseguimos garantir a educação primária à maior parte dos brasileiros. Somos uma nação que se informa mais por telejornais e pelo rádio que por leitura de jornais e/ou revistas.
Dessa forma, a concepção de língua que temos enquanto povo brasileiro é basicamente formada pelo que se diz nesses meios de comunicação e pelo que nos inculcaram nas aulas de gramática do ginásio – que, no fim das contas, é mais negativo do que positivo, diga-se. E mesmo a concepção de língua veiculada nos principais jornais impressos ou revistas de divulgação científica, como Veja, por exemplo, é reducionista: diminui a língua ao que é certo e ao que é errado, ao que se pode e ao que não se pode dizer ou escrever. É lamentável.
Portanto, se esses que compõem as camadas mais letradas da sociedade creem em teorias tão frágeis do tipo das que mencionamos aqui, a sociedade brasileira não poderia acreditar em algo diferente, já que, em sociedades estratificadas e hierarquizadas como a brasileira, os segmentos mais letrados é que, em geral, formam o ideário de língua do restante da população.
Mas, afinal, falamos mesmo sem gramática? A fala é sem lógica? Nossa resposta é negativa. A mínima análise de comentários e afirmações que tem por base esse tipo de crença é suficiente para pô-los por terra, para desmenti-los, visto que estes, embora aparentemente estejam mais do que firmados no ideário linguístico do senso comum, não têm o menor respaldo no plano científico dos estudos das línguas.
Não precisa ser muito inteligente para saber que um enunciado do tipo “Os menino comeu o bolo” contém dada organização estrutural, contém gramática, é construído sob dada norma; é, portanto, lógico. É um grosso equívoco dizer que um enunciado dessa natureza, constantemente proferido por milhares de milhares de falantes das variedades do português popular (e, às vezes, até por falantes de variedades de maior prestígio social – e entendido por outros tantos milhares, é bom que se diga) é desorganizado, sem estrutura, isento de regras, ilógico ou sem gramática. A questão é que suas regras são diferentes. Só isso.
A esse respeito, Carlos Alberto Faraco, notável linguista brasileiro, escreveu, em um de seus mais recentes livros (Norma Culta Brasileira: desatando alguns nós) o seguinte: Toda e qualquer norma (toda e qualquer variedade constitutiva de uma língua) é dotada de organização. Algumas linhas depois, Faraco assevera ainda que "O fato de que toda norma tem uma organização estrutural deixa sem fundamento empírico enunciados do senso comum em que se afirma, por exemplo, que os analfabetos ou os chamados falantes do português popular falam 'sem gramática'."
Uma última citação do mesmo autor derruba definitivamente a crença de que falamos destituídos de gramática: Se toda norma é estruturalmente organizada, é impossível falar sem gramática.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Desculpe-me, Arruda, eu te amo!



Não fiques triste, amigo, não chores, Arruda já nos perdoou. Vamos deixar isso pra lá e viver aquele versículo bíblico que diz:"amigos, amigos, roubos à parte."

Reveja o pecado. Só para lembrar, pois já o perdoamos, hein:


Que o diabo te carregue pra bem longe de Brasília, Arruda! T'esconjuro!!!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Só de sacanagem...

Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!
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De Elisa Lucinda

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Lição de mãe

Ainda estou estupefato, confesso. Tal foi o impacto que as lágrimas ainda não decidiram se caem ou se ficam. Que discurso! Já ouvi oradores profissionais, universitários, pastores, padres, políticos (não esses políticos de meia pataca, falo de bons políticos, de bons oradores); mas nunca um discurso que se compare ao que minha mãe fez hoje.
Ela começou bem de mansinho... conselhos de mãe, sabem como é. Dessa vez não eram para mim (mas acabaram servindo); eram para meu irmão mais novo. Me aproximei dos dois e sentei ao lado dela, no braço do sofá, olhando-a de rabo de olho e ouvindo... Esse gesto meu deu a ela petulância e confiança suficientes para fazê-la levantar o corpo e a voz. Falou de coisas da nossa vida atual em família, de sua vida pessoal, de sua infância. Isso. Falou de sua infância. Essa parte...
Minha mãe é filha de seringueiro – que orgulho! Isso lhe confere honroso privilégio de ser dona de uma história tão bela como a que ouvi hoje. Emocionei-me. Sobretudo quando falou dos serviços braçais e domésticos que realizou quando ainda tinha apenas 10 anos. Praticamente não estudou – lê pouco e quase nada escreve. A eloquência dos doutores não possui, nem a falácia ou retórica dos oradores; mas não lhe falta o suave e doce toque de mãe, que tempera cada palavra que sai de sua boca, palavras que naquele instante me atravessaram como balas, não minto.
Quero honrar a minha mãe enquanto está viva. Continuar ouvindo seus sábios conselhos (conselho de mãe é sempre bom!). Vou cuidar mais da minha maezona e valorizá-la à altura, porque, com ela mesma diz, depois que ela fechar os olhos é que vamos aprender a lhe dar valor. Mãe, na lição de hoje você me ensinou a observar o quanto te amo e preciso de você.

À dona Maria do Socorro