terça-feira, 30 de março de 2010

Ele continuará entre nós

De segunda a quarta-feira, medio a Oficina de Letramento na escola Serafim da Silva Salgado, como já disse aqui algumas vezes. Neste momento, estou facilitando o aprendizado da estrutura do texto biográfico por meus alunos.

Como produção inicial, cada um está escrevendo a autobiografia. Depois, com meu auxílio, eles refarão todo o texto, modificando onde houver necessidade.

Hoje, aproveitando a notícia da morte de Armando Nogueira, acriano merecidamente honrado por todos (indubitavelmente um dos maiores jornalistas esportivos deste país), li sua biografia para meus alunos, que já o conheciam, alguns.

Nas próximas aulas, separarei alguns minutos para que eles conheçam algumas crônicas do autor. Essa é também minha forma de homenagear o jornalista. Armando morreu, mas, como todos aqueles que ficam famosos por méritos, sua obra o tornará imortal.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Escrever é cortar palavras

Por Armando Nogueira (1927-2010)

Escrever é cortar palavras. Passei alguns anos certo de que o autor dessa preciosa máxima era Carlos Drummond de Andrade. Até que um dia perguntei ao poeta. Ele conhecia, mas negou que fosse dele. Confesso que fiquei desapontado. A sentença tinha a cara do mestre Drummond, cuja prosa é um exemplo de concisão.

Otto Lara Resende desconfiava que pudesse ser de um escritor mexicano a ideia da dica preciosa. Eu, por mim, seria capaz de atribuí-la a John Ruskin, notável escritor e crítico inglês do século passado. Se não o disse, com todas as letras, certamente foi Ruskin quem melhor ilustrou o adágio, num conto antológico. É o caso de um feirante de peixes num porto britânico.

O homem chega à feira e lá encontra seu compadre, arrumando os peixes num imenso tabuleiro de madeira. Cumprimentam- se. O feirante está contente com o sucesso do seu modesto comércio. Entrou no negócio há poucos meses e já pôde até comprar um quadro-negro pra badalar seu produto.

Atrás do balcão, num quadro-negro, está a mensagem, escrita a giz, em letras caprichadas: HOJE VENDO PEIXE FRESCO. Pergunta, então, ao amigo e compadre:
- Você acrescentaria mais alguma coisa?

O compadre releu o anúncio. Discreto, elogiou a caligrafia. Como o outro insistisse, resolveu questionar. Perguntou ao feirante :

- Você já notou que todo o dia é sempre hoje? - E acrescentou: - Acho dispensável. Esta palavra está sobrando...

O feirante aceitou a ponderação: apagou o advérbio. O anúncio ficou mais enxuto. VENDO PEIXE FRESCO.

- Se o amigo me permite - tornou o visitante -, gostaria de saber se aqui nessa feira existe alguém dando peixe de graça. Que eu saiba, estamos numa feira. E feira é sinônimo de venda. Acho desnecessário o verbo. Se a banca fosse minha, sinceramente, eu apagaria o verbo.
O anúncio encurtou mais ainda: PEIXE FRESCO.

- Me diga uma coisa: Por que apregoar que o peixe é fresco? O que traz o freguês a uma feira, no cais do porto, é a certeza de que todo peixe, aqui, é fresco. Não há no mundo uma feira livre que venda peixe congelado...

E lá se foi também o adjetivo. Ficou o anúncio, reduzido a uma singela palavra: PEIXE.

Mas, por pouco tempo. O compadre pondera que não deixa de ser menosprezo à inteligência da clientela anunciar, em letras garrafais, que o produto aí exposto é peixe. Afinal, está na cara. Até mesmo um cego percebe, pelo cheiro, que o assunto, aqui, é pescado...

O substantivo foi apagado. O anúncio sumiu. O quadro-negro também. O feirante vendeu tudo. Não sobrou nem a sardinha do gato. E ainda aprendeu uma preciosa lição: escrever é cortar palavras.

sábado, 27 de março de 2010

Arremedo de poesia

VaZiO

Dizer o quê, se nem sei o que digo?
Fugiram-me as palavras e secou-me o poço de idéias.
Sondei-me o mais profundo que pude
        [meu coração cansado e meu entendimento];
Mas não encontrei sequer uma idéia digna de ser escrita.
Minto.
Ainda há pouquinho esbarrei-me numa, mas não achei papel nem lápis e ela fugiu rapidíssimamente.
Eis do que estou vazio: idéias.
Para onde foram? Onde podem estar?
Este poema (poema?) é prova cabal da falta do que escrever.
Idéias, idéias – exaurem-se num sopro.
Neste instante, encontro-me num doloroso processo de digestão intelectual.
Mastigo, mastigo e mastigo
        [e nada de idéias.]

sexta-feira, 26 de março de 2010

DeLíRiO pOéTiCo

Homem de ferro


Sou de ferro.
Isto, infinitas vezes tentei dizer; não consegui.
Agora o digo:
Sou homem de ferro – minhas pernas pesam mais que este mundo.
Suportei e suporto todos os dias difamações, conspirações, ameaças e tapas de palavras.
Por trás de mim, dizem o que eu não sou, e este meu peito resiste a tudo.
Nesta vida, se eu não fosse de ferro, certamente já teria sucumbido.
Sou ferro puro, mas por isso insensível? Não.
Tenho mais sentimentos que muito homem de carne – segredo que não revelo aos meus inimigos.
Homem de ferro. Como isto se deu? Dormi carne e acordei ferro. Nada mais.
Daí em diante, nunca mais temi o fracasso,
porque sou de ferro e só me resta a vitória.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Por que o ensino de língua precisa mudar

'O sero mano tem uma missão...'
(A minha, por exemplo, é ter que ler isso!)

'O Euninho já provocou secas e enchentes calamitosas. .'
(Levei uns minutos para identificar o El Niño...)

'O problema ainda é maior se tratando da camada Diozanio!'
(Eu não sabia que a camada tinha esse nome bonito)

'A situação tende a piorar: o madereiros da Amazônia destroem a
Mata Atlântica da região.'
(E além de tudo, viajam pra caramba, hein?)

Não preserve apenas o meio ambiente e sim todo ele.'
(Faz sentido)

'O grande problema do Rio Amazonas é a pesca dos peixes'
(Achei que fosse a pesca dos pássaros.)

'É um problema de muita gravidez.'
(Com certeza...se seu pai usasse camisinha, não leríamos isso!)

'A AIDS é transmitida pelo mosquito AIDES EGIPSIO.'
(Sem comentário)


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Uma notinha

O material acima, que chegou até minha caixa de e-mail como “As pérolas do ENEM 2009”, serve, quase sempre, para gozar da cara dos estudantes (ou não) que fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio. Todos os anos uma lista dessas é divulgada por algum humorista.


Pergunto: seriam eles, os estudantes, os verdadeiros culpados por não saberem produzir textos? Em alguma medida, talvez. Mas prefiro acreditar que os maiores culpados são os responsáveis pelas “aulas de português”, que, sem problema algum, podem ser chamadas (seria muito mais honesto), na maioria dos casos, de “aulas de gramática isolada”

A escola, que deveria ensinar seus alunos a escrever, se omite. Não há aulas de produção textual e ler fica para preguiçosos ou para quem não tem o que fazer. Se os alunos são postos para ler, alguém sempre pergunta por que eles não estão fazendo nada. Irônico.

Esse tipo de material deveria servir para gozar da cara dos que continuam ensinando regras isoladas e ilógicas nas aulas de língua materna, como se ensinassem matemática, como se somassem termos. Tudo isso em pleno século XXI, quando essa prática metodológica já deveria ter sido modificada.

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p.s.: sinceramente, desconfio que algumas dessas frases foram copiadas de algum livro de humor, e não escritas no ENEM. Mas é só uma desconfiança...

quarta-feira, 24 de março de 2010

A deseducação em língua materna

Alunos de 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries, para não mencionar os de Ensino Médio, escrevem muito mal. O modelo de ensino de língua materna que temos hoje ainda privilegia o ensino de nomenclaturas isoladas, perpetuando a deseducação em língua materna no Brasil – até o que os alunos sabem lhes é retirado.

Numa rápida pesquisa, descobrimos que quase todos os nossos alunos, de Fundamental a Médio, nunca tiveram aulas de textos, não sabem o que são gêneros e jamais participaram de aulas de leitura. Isso explica o porquê escrevem mal.

Revisitando Por que (não) ensinar gramática na escola, de Sírio Possenti, leio: “O modo de conseguir na escola a eficácia obtida nas casas e nas ruas, é imitar, da forma mais próxima possível, as atividades lingüísticas da vida. Na vida, na rua, nas casas, o que se faz é falar e ouvir. Na escola, as práticas mais relevantes serão, portanto, escrever e ler”.

Até quando exigiremos de nossos alunos bons textos, orais e escritos, sem perceber que não os ensinamos a fazer bons textos, nem orais nem escritos? O máximo que a escola atual faz é ensinar a decorar um monte de nomes e termos sem sentido para qualquer pessoa.

Relendo velhos escritos, Rodolfo Ilari (1985) diz a meus olhos: “Haverá muito o que mudar, antes que o ensino de Português possa ser o que deve - um processo no qual o professor e os alunos entre si, se enriquecem reciprocamente compartilhando sua experiência vivida de língua(...); mas a mudança virá daqueles que vivem o ensino, não daqueles que especulam sobre ele.”

terça-feira, 23 de março de 2010

O destino dos livros

Outro dia, em conversa sobre leitura e escola, lá pelas tantas, um professor amigo me disse: “hoje minha biblioteca está no valor de 70 mil reais, pena que não valha nada”. 

A desvaloração de livros e o desprezo pelo conhecimento neles contido, indignação explícita de meu colega de profissão (e minha também), são confirmados por uma reportagem exibida pelo Jornal da Record.

Em Iporá, Goiânia, livros não valem nada: 12 mil livros didáticos foram simplesmente jogados no lixo. O motorista que transportou o material denunciou o caso a dois vereadores.

Moradores adjacentes ao lixão, onde foi despejada a carga, levaram para casa livros sujos de lama. Em entrevista, um catador de lixo, que nunca teve a oportunidade de ir à escola, muito menos o prazer de ler livros, disse ao entrevistador: “Fiquei surpreso com a quantidade de livros. Podia ter sido usado.” Realmente...

Ana Paula Padrão, apresentadora do programa jornalístico, fez a pergunta: “ninguém lê mais neste país?”. Eu respondo: poucos leem, Ana Paula. Pouquíssimos.

BiblioSESC

Você não vai até ela? Ela vai até você. É a biblioteca itinerante do SESC, que visita uma escola diferente a cada ano. Este ano, a bola da vez é o colégio Serafim da Silva Salgado, na Estrada da Sobral, onde atualmente trabalho.


A iniciativa é bastante válida, tendo em vista a carência de bibliotecas públicas neste e em outros Estados. Por muitos anos, o dilema tem sido este: quando há bibliotecas, faltam bons livros; quando há bons livros, os interessados não têm acesso.

O bom é saber que esta realidade está mudando, parece-me: os acessos se tornam cada vez mais democráticos e as bibliotecas têm recebido, tanto dos órgãos públicos quanto dos privados, alguma atenção a mais, embora seja um processo ainda incipiente.

Estacionada no pátio da escola Serafim (escola cuja gestão recebeu já vários prêmios, como uma viagem aos Estados Unidos, por exemplo) a BiblioSESC, que, até o mês de dezembro, a cada quinze dias, estará na escola, é de fácil acesso tanto a alunos quanto a professores. 

Para não perder a oportunidade, tratei logo de fazer o meu cadastro e trouxe para casa duas boas companhias: o ilustre Luís Fernando Veríssimo e seu “Sexo na cabeça”; e a magnífica Clarice Lispector, com seu “A hora da estrela”.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Biografando...

Durante esta semana e a próxima, meus alunos de letramento do programa “Mais Educação!” vão escrever biografias.

Hoje, introduzimos o assunto. Limos a biografia de Carlos Drummond de Andrade, poeta mineiro, momento em que ressaltei as características textuais do gênero em questão.

Amanhã, veremos uma biografia filmada, um documentário sobre a vida de Drummond. A partir de quarta-feira, meus pupilos começarão a produzir uma autobiografia, o que será só o pontapé de uma série de produções e refacções textuais.

sábado, 20 de março de 2010

Por que "menas" existe

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A regra intuitiva da gramática internalizada de cada um de nós parece mesmo ser esta: concordar “menos” com a palavra feminina que o segue (menas gente, menas vagas, menas crianças, etc., etc.).
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Quando queremos, sempre aprendemos alguma coisa nova. Aprende-se com as crianças, com os adultos, com os velhos, com os doutores, com os amadores; aprende-se com todo mundo. Há pessoas que não aceitam aprender, talvez porque acham que sabem de tudo. Tolice.

Com o mestre Sírio Possenti, aprendi que há pelo menos dois motivos para escrever sobre língua. O primeiro deles: não repetir a lista do que todo mundo acha, diz e escreve sobre língua. O segundo motivo para escrever sobre língua é para correr riscos, fazer interpretações, analisar fatos de língua, e até errar, em certos casos.

Estou exausto de ouvir pessoas dizerem que menas não existe. A questão da existência é óbvia (para quem aceita perceber, é claro), uma pergunta resolve – se não existe menas, por que quase todo o povo brasileiro diz menas? Se todos que perguntam sobre a existência desta palavra já têm na ponta da língua a ideia de que a mesma é errada, por que, ainda assim, teimam em dizer menas? Por que não conhecem o “certo”, no caso, menos? Claro que não, se assim fosse não diriam que menas é errada. Só dizem que menas é errada porque sabem que o “certo” é menos. Então, por que, mesmo conhecendo o “certo”, na hora de falar, usam o “errado”? Chega de tanta repetição. Deve haver uma explicação científica para este fato.

Outro dia uma amiga me perguntou: a palavra menas não existe não, né? Existe, respondi. Tanto que todos falamos isso. Esperei-a retrucar: sim, mas é errada, né? Minha amiga foi contaminada pelo purismo dos normativistas, pensei com meus botões. Eu explico.

Tudo que aparece na fala e na escrita das pessoas "normais" e não tem abono na gramática dos normativistas empedernidos, eles, os puristas ranhetas, ignorantemente, dizem que não existe. No caso de "menas", alguns chegam a afirmar, com letras minúsculas, no rodapé de suas gramáticas, a existência de tal fato lingüístico, mas logo reiteram que sua ocorrência se restringe à linguagem informal. Nisso eles têm razão, menas é forma socialmente marcada, isto é, de ocorrência exclusivamente popular; mas, bem que poderiam dizer isso com letras grandes, sem medo, convenhamos.

O motivo deste textinho é dizer que já está mais do que na hora de encontrarmos uma explicação para a abundante ocorrência de menas na linguagem brasileira, ao invés de simplesmente dizermos que “menos” é advérbio e, portanto, invariável; e, nos piores casos, que menas não existe. Existir é uma coisa; ter prestígio e validade social é outra.

Vamos a algumas considerações sobre o caso em questão. Ocorre que, como bons intuitivos falantes que somos da língua, interpretamos menos, advérbio (invariável, por isso não teria feminino, segundo a tradição gramatical), quando o mesmo antecede palavras femininas, como se fosse adjetivo (variável, por isso fazemos o seu feminino “menas”). Observe-se que ninguém diz “menas rapazes”, “menas homens”; mas todos dizem “menas coisas”, “menas mulheres”, “menas pessoas”. A regra intuitiva, da gramática internalizada de cada um de nós, parece mesmo ser esta: concordar “menos” com a palavra feminina que o segue (menas gente, menas vagas, menas crianças, etc., etc.).

Caso análogo é o do advérbio “meio”, igualmente tratado pelo falante como adjetivo, no caso, “meia”. Com a diferença que este é forma socialmente menos marcada, ou seja, ocorre com maior freqüência e menor estigmatização na fala de pessoas consideradas cultas. Sobre este caso, embora pouca gente se dê conta, é válido dizer que, no velho Memorial de Aires, há um século, o grande Machado de Assis escreveu “meia doente” (olha aí, meu editor do Word já corrigiu, sugeriu “meio”). O que vou dizer? Que Machado errou? Que assim escreveu por que desconhecia a forma abonada, “meio”? Ou que notou simplesmente para registrar a forma? Nem um nem outro; nem isto ou aquilo. Machado escreveu porque “meia” é variação bastante comum, já ocorria em seus dias.

A errônea concepção de que certas formas são simplesmente erradas ao passo que outras são indiscutivelmente certas está tão arraigada em nossa cultura lingüística que, mesmo depois do que escrevi, temo que alguém me leia como tendo criticado o fato de Machado de Assis ter escrito “meia doente”, afinal, sempre nos saímos mal nos testes de leitura. Antes de qualquer coisa, não critiquei.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O que realmente vale a pena


A sabedoria de Salomão me ensina que “tudo é vaidade”. E, no fundo, é.

De ontem para hoje, passei a noite numa fila em frente ao Centro de Saúde Hidalgo de Lima, no bairro Palheiral, para, enfim, às sete horas da manhã, conseguir uma ficha para consulta. Eram 14 fichas, peguei a 11ª. Detalhe: cheguei ao Hidalgo às 2h30 da madrugada. Às 23h do dia anterior, já havia pessoas à espera de uma consulta.

O Governo maquiou a saúde pública deste Estado; ela ficou bem bonitinha: construiu novos centros de saúde e reformou outros; no entanto, isto não é suficiente. É necessário atendimento digno à população. Depender de saúde pública neste Acre é bastante arriscado. 

Nesse sentido, pagar por um plano de saúde não é vaidade.; é, sim, uma necessidade. Salomão disse, ainda, que o maior prazer que o homem pode ter é ver o resultado do trabalho de suas mãos. E é.

Quando “tudo é vaidade”, trabalhar para ter um plano de saúde é a única coisa que vale a pena.

terça-feira, 16 de março de 2010

Que língua é essa, Pasquale?

Desde tempos antigos, ainda à época da Grécia e Roma antigas, quando foi escrita a primeira gramática, pelo grego Dionísio Trácio, cultua-se uma confusão entre língua e gramática. Era para ser uma tentativa de descrever e registrar o mais fiel possível uma das variedades (dentre tantas) pelas quais a língua se realiza; no entanto, com os séculos, a gramática passou a ser tomada como sendo a própria língua. E esse mal-entendido se arrasta até hoje.
Em grande medida, a escola é responsável pelo cultivo dessa confusão – a maioria dos professores de língua materna, ou por má-formação ou propositalmente, por questões ideológicas, talvez, não esclarecem aos seus alunos essa diferença necessária. A escola preserva uma tradicional cultura do erro e reduz o ensino de língua materna ao que é “certo” e ao que é “errado” dizer e escrever.
Quando o assunto é variação lingüística, o máximo que ocorre na escola, em geral, é a apresentação de variações regionais.
A mídia é outra forte propagadora dessa  confusão milenar que, em pleno século XXI, já deveria está ultrapassada, tendo em vista as novas pesquisas e os inúmeros trabalhos científicos que desatam ou, pelo menos, afrouxam os nós da questão. Mas a realidade, lamentavelmente, é outra.
Ontem, sem querer, peguei o Mr. Pasquale Cipro Neto, em seu programa “Nossa Língua Portuguesa”, na TV Cultura, explicando aos seus telespectadores a clara diferença, segundo ele, entre onde e aonde. Depois de dizer que onde se usa com verbos estáticos e aonde com verbos em movimento, explicou que “em termos de língua culta, há claramente uma diferença entre onde e aonde”.
O que Pasqualle não deixou claro aos seus espectadores foi de que língua culta ele falava, a que língua se referia, porque, os estudos da língua que levam em conta o uso, que pesquisam o efetivo emprego da assim chamada língua culta (não é o caso dos estudos de Pasqualle, obviamente) mostram que nenhum falante de português tem essa distinção como um fato em seu saber lingüístico concreto. Para uma tradição mais observadora dos reais usos e empregos da língua, essa rigorosa distinção entre onde e aonde, apresentada por alguns candidatos a gramáticos, efetivamente, não existe.
Se voltarmos um pouco no tempo, perceberemos que mesmo nos clássicos encontramos essa indistinção, vejamos:

Vela ao entrares no porto
Aonde o gigante está!
(Fagundes Varela)
Não perceberam ainda onde quero chegar.
(Alves Redol)

Encontramos ainda o emprego das duas formas num mesmo enunciado:

Mas aonde te vais agora,
Onde vais, esposo meu?
(Machado de Assis)

Ela quem é, meu coração?
Responde!
Nada me dizes. Onde mora?
Aonde?
(Teixeira de Pascoais)”

Atento, em seu dicionário, versão eletrônica, o bom Aurélio registrou:

O uso dos melhores autores, desde um Azurara, da fase arcaica da língua, até um José Régio ou um Miguel Torga, dos nossos dias, não distingue onde de aonde. Clássico dos mais reputados, Rebelo da Silva usa aonde por onde cerca de 40 vezes nos seus Contos e Lendas; uma delas (só para exemplificar), na pág. 20: "o cemitério aonde dormem os que nos amaram." Por vezes ocorre o emprego simultâneo de um e outro advérbio com a mesma significação: "Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?" (Cláudio Manuel da Costa, Obras Poéticas, I, p. 109); "Mas aonde te vais agora, / Onde vais, esposo meu?" (Machado de Assis, Poesias Completas, p. 207). Note-se, na abonação machadiana, que a métrica não se oporia à repetição do aonde. Cf. onde.]

Portanto, conforme vimos, se optarmos pela indistinção entre esses dois elementos e empregarmos um pelo outro, estaremos acompanhados por ninguém mais ninguém menos que Alves Redol, Machado de Assis e Cláudio Manuel da Costa. Ilustre companhia, não?

domingo, 14 de março de 2010

Concursos FUNDAPE - duas palavras


Estou pasmo. Na verdade, nem tanto. Estaria mais se não conhecesse, quando se trata de concurso público, o desserviço prestado pela Fundape – Fundação de Apoio e Desenvolvimento ao Ensino, Pesquisa e Extensão no Acre. 

A começar pelos prazos estabelecidos, essa Fundação causa enorme transtorno aos candidatos dos concursos que realiza. Não há cumprimento das atividades nas datas programadas e, de repente, tudo muda de última hora. Foi assim com o concurso Pró-saúde (os candidatos que o digam), com da EMURB (para ficarmos em dois exemplos mais recentes), e parece que os que vierem não serão diferentes. 


Quanto às provas, são de péssima elaboração: questões mal-escritas, conteúdo demasiadamente elementar (se tivessem caído questões de matemática eu imagino que teriam perguntado se dois mais dois são quatro), uma burrice total. E tudo isso se repete em todas as seleções. 


Hoje cedo, jogaram uma bomba em minhas mãos: a prova da EMURB. As questões de Língua Portuguesa (ou de gramática, já que passam longe de explorar textos) eram do primário; e na interpretação de textos havia questões para pessoas com déficit mental. Perguntas idiotas análogas à que segue: “O menino caiu no buraco. Pergunta: quem caiu no buraco? Idiotice. Deve ter sido o buraco que caiu no menino. 


Agora, reparem na questão
de Língua Portuguesa de número 10. “Em uma das alternativas abaixo a divisão silábica está incorreta. Marque-a. (estava escrito assim mesmo, sem vírgula antes da palavra “abaixo”. Diante do que se verá à frente, nem dá para cobrar isso; portanto, corta.)

a) a-de-vo-ga-do (escrito com “e”);

b) Ba-u-ru-em-se (com m, acreditem!);

c) Ga-u-chi-nha (a única alternativa com alguma lógica);

d) Fluí-do (que seria a alternativa incorreta, talvez, sei lá).

E aí, que alternativa você marcaria? Não sabe? Nem eu. Ah, entendi, agora valem desvios  de grafia
(adevogado) para confundir o candidato, é isso? Na alternativa “b”, o ditongo “au” separado. Agora encavalou foi tudo mesmo. Ao invés da “incorreta”, não teria sido mais fácil perguntar qual a única alternativa “correta”? 

O fato é que, nesta burra questão (ou os burros seriam seus autores?) haveria pelo menos duas alternativas a serem marcadas, “fluí-do” e “ba-u-ru-em-se”. Não sei mais é de nada. Encavalou de novo. 

As demais questões, nem merecem comentários. Quando as provas forem publicadas no site (se forem) vejam vocês mesmos! 


Não tenho certeza, mas me parece que as provas são elaboradas por professores da UFAC – sinceramente não acredito nisso, não é possível! No entanto, se isso for verdade, ou são professores muito ruins ou muito preguiçosos; deveriam rasgar seus diplomas, porque, minha nossa!...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Viver a vida

A Antônia Diniz, um exemplo exemplar

Há certos biótipos de pessoas diante dos quais me sinto profundamente constrangido, perplexo. São pessoas que, como dizem por aí, “tinham tudo para dar errado na vida”, “tinham tudo para não ser ninguém”, mas escolheram ser diferentes e mudaram seus rumos. Antônia Diniz é uma dessas pessoas.

“O que mais marcou foi eu ter tido a coragem de encarar a vida, coisa que muitos não têm”.

Natural de Sena Madureira/AC, ela carrega há longos anos o peso do preconceito e da discriminação social, que servem de trampolim para suas conquistas. É que Antônia nasceu com pequeno problema de saúde: catarata congênita, que pode ter sido responsável pela baixa acuidade visual que ela tem. A Antônia só resta(m) 15% da visão direita e vultos da visão esquerda para contemplar as maravilhas e grandezas desta vida nada fácil, sobretudo para ela.

Por conta disso, só recomeçou a estudar a partir dos 20 anos de idade, quando saiu do interior de um seringal de Sena Madureira  (com três mudas de roupas e uma sandália havaiana), para vir a Rio Branco cursar, “com um monte de criancinhas”, segundo ela, a 4ª série do primário, período em que morou em um Instituto para cegos. Depois disso, Antônia passou por programas de aceleração da aprendizagem como o Poronga e o Telecurso 2000, que a ajudaram a concluir seu Ensino Médio.

"Antônia Diniz tem a força e a coragem desses gladiadores que vemos em filmes sobre a Roma antiga."
Em 2004, foi aprovada em concurso da Prefeitura de Rio Branco/AC, podendo escolher entre os cargos de Merendeira e de Agente de Endemias. Passou por uma junta médica, mas devido à sua baixa acuidade visual, não foi aceita pela equipe.

Anos depois, em 2007, fez novo concurso da Prefeitura: foi aprovada para o cargo de Técnico em Gestão Pública, o qual exerce até hoje.

Com 30 anos de idade, Antônia é casada, tem casa própria, além de ter conseguido, com a ajuda de Deus e do marido, como ela diz, comprar uma motocicleta. Antônia está cursando o 7º período de Letras juntamente comigo, na Unopar; ambos somos bolsistas do PROUNI -- Programa Universidade para todos.

Isso tudo explica minha escolha pelo título deste texto (que, querendo ou não, faz alguma alusão a uma novela global atualmente em foco) e a proposital tautologia “um exemplo exemplar” empregada no subtítulo do mesmo. É que não encontrei melhor forma de qualificar minha amiga.

Há pessoas tão perto de nós com cem por cento de acuidade visual, mas que nunca conseguiram enxergar nem dez por cento do que Antônia enxerga. Indivíduos que não têm percepção nenhuma da vida, que não sonham, que não voam, chegarão a lugar qualquer ou nenhum (para quem não sabe onde ir, qualquer lugar serve, diz a sabedoria popular). Muitos vão morrer e não sairão do estado de morbidez em que se encontram, por pura falta de vontade, na maioria dos casos.

Vontade e coragem é que nunca faltaram à nossa Antônia. Quando perguntei o que mais marcou em todo esse decurso de sua vida, com toda sua simplicidade, ela me calou com uma frase: “o que mais marcou foi eu ter tido a coragem de encarar a vida, coisa que muitos não têm”.

Antônia Diniz tem a força e a coragem desses gladiadores que vemos em filmes sobre a Roma antiga.

Uma indagação perturbadora


O texto que segue, além de claro e bem escrito, corajosamente contrasta a maioria das opiniões religiosas sobre catástrofes e desastres naturais. Vale a pena passar os olhos nele. Boa leitura!

De César Novaes
Pr. da Igreja Batista Barão da Taquara - RJ 

Desde as terríveis notícias do terremoto ocorrido no Haiti há uma semana, uma indagação perturbadora bate e rebate com insistência em nossa mente: como Deus permite uma tragédia dessas? 

O pastor Pat Robertson, tele-evangelista pentecostal que apresenta o programa Clube 700, um dos mais acirrados porta-vozes do fundamentalismo norte-americano, afirmou que os haitianos estão sofrendo as consequências de um pacto com o demônio feito por seus antepassados para obterem a independência da colonização francesa. 

É assim mesmo. Diante de catástrofes naturais — como o tsunami que atingiu diversos países do Oceano Índico em 2004 e o furacão Katrina que, no ano seguinte, destruiu completamente a cidade de New Orleans — ficamos perplexos e confusos. A existência de um Deus amoroso e misericordioso parece perder o sentido e, descartando a possibilidade de duvidar da sua bondade, alguns partem para uma interpretação oposta, e acenam com a ira divina como resposta. 

Afirmar que a tragédia do Haiti foi um castigo de Deus por causa das crenças do povo na feitiçaria é, além de completo desconhecimento da revelação bíblica, uma colossal ignorância científica.  

Para quem não sabe, os terremotos acontecem devido à acomodação das placas tectônicas e às falhas existentes entre blocos rochosos subterrâneos. Quando essas placas colidem, as ondas sísmicas se propagam na superfície e provocam vibração do solo, abertura de extensas falhas geológicas, deslizamento de terra e conseqüentes desabamentos de construções e edificações diversas. 

Trata-se, portanto, de uma ocorrência natural que resulta em mortes, desabamentos e destruição apenas porque há cidades inteiras erguidas justamente sobre as fronteiras dessas placas rochosas. 

Por outro lado, a miséria do Haiti é uma herança de imposições imperialistas do século 19. O Haiti foi o primeiro país das Américas a abolir a escravatura, em 1794, e — em consequência disso — sofreu um bloqueio comercial, patrocinado pelos Estados Unidos e outros países escravistas da Europa, que durou décadas. 

É uma herança também de governos ditatoriais e tirânicos, como o de Papa Doc e seu filho Baby Doc, apoiados pelo governo norte-americano durante os anos da Guerra Fria e o período da disputa com o comunismo de Cuba, a ilha vizinha. 

Baseados em textos do Antigo Testamento, que já não podem mais ser lidos sem a filtragem da mensagem do Evangelho, pregadores esvaziados de qualquer compaixão e misericórdia apontam seus dedos hipócritas para o povo haitiano, sentenciando-os à condenação por idolatrias e feitiçarias — como se grande parte desses evangélicos neopentecostais modernos não pudessem também ser acusados de abominável feitiçaria e idolatria repugnante em cultos manipuladores e programas de televisão que mais se assemelham a sessões de curandeirismo em tribos africanas ou de rituais de pajelança em aldeias indígenas. 

Afinal, perguntam descrentes empedernidos e crentes imaturos, como o Deus de amor e graça permite uma tragédia dessas? 

Tragédia e sofrimento, meus caros, fazem parte da vida. A acomodação das placas tectônicas são movimentos espontâneos da natureza. Furacões e tsunamis também. No meio deles, encontram-se as sociedades humanas. Nem mais, nem menos do que isso. 

Desgraça mesmo é saber que, como se não bastasse ter de conviver com as imprevisibilidades da natureza, os seres humanos produzem o efeito estufa, o aquecimento global, os desmatamentos, a contaminação das águas e a destruição da camada de ozônio por causa de esfaimada cobiça e desenfreado amor ao dinheiro.  

Como os seres humanos continuam a promover tal destruição, apesar de saberem que eles mesmos serão as vítimas, é a verdadeira indagação perturbadora.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Jornalismo acriano


Pouco assisto (à) TV. Quando a ligo, é para ver jornais nacionais ou alguns poucos programas da TV Cultura, ou, raramente, para ver jornais locais.
Por ser um profissional que lida direta e constantemente com a linguagem – este é o meu sustento, em todos os sentidos da expressão – meus olhos e meus ouvidos buscam um jornalismo simples e objetivo, que nem por isso deixe de ser fino e elegante (essa é a característica do bom jornalismo contemporâneo, estudos mostram). Não o encontro.
As investigações mais recentes sobre a linguagem jornalística apontam para um fato óbvio: há uma preferência no jornalismo atual por uma linguagem simples, direta, sem muitos rebuscamentos. A leitura desses dados é: seria difícil ler e entender jornais escritos em linguagem literária, num estilo requintado demais, etc.
Jornais acrianos (sobretudo, televisivos) passam longe do simples e objetivo; e em nada se aproximam do fino e do elegante. Quanto às vestimentas de seus repórteres, quase sempre são inadequadas às matérias e reportagens exibidas, observo.
Com relação à linguagem, a maioria deles (há uns poucos salvadores da pátria, é verdade) fala o que não deve e não fala o que deveria. Eles emitem uma linguagem cansativa, pesada e recheada de chavões (por exemplo, “o homem se evadiu do local e tomou rumo ignorado”, quem nunca ouviu isso?), que me expulsa da frente do televisor. É impossível comparar os jornais locais aos grandes jornais (que também têm seus defeitos, embora em menor grau).
Por fim, o principal objeto de trabalho do jornalista é a linguagem. Uma pergunta: por que jornalistas, em geral, sabem tão pouco sobre ela? Se a estudassem...

terça-feira, 9 de março de 2010

Duas palavras e um elogio

Cedo, quando vou lecionar, encontro com policiais da PM andando pela Rua Campo Grande – uma das vias mais movimentadas da região chamada Baixada do Sol – visitando comércios e investigando pontos estratégicos de criminalidade. Quando não, fazem o trabalho em viaturas. Tem sido assim em vários bairros da capital, percebe-se.

Alguém disse que se for feito um pontinho negro numa folha de papel e nos perguntarem o que vemos, sempre veremos o pontinho negro, nunca nos chamará a atenção todo o restante da folha em branco, embora esta seja maior que o pontinho. Isso produz mais ou menos o seguinte efeito: só vemos o lado negativo das coisas.

Recentemente, uma ação policial matou uma jovem de 21 anos aqui na região. A notícia foi bastante divulgada. Para a maior parte da população, só a polícia teve culpa. Para a outra parte, que conhece o garoto condutor da moto e suas formas de transitar nela, há outra leitura dos fatos.

Sempre que ocorre um fato desastroso como esse, ficamos contra o Estado, que, opiniões à parte, matou a garota. Minha rápida leitura é: não posso admitir que o Estado dispare um tiro de fuzil numa situação como a que está em pauta; também não posso admitir que seja posta em risco a vida de pedestres por meio de uma motocicleta. O fuzil mata; a motocicleta também. O pior da história ficou mesmo para a garota, que perdeu a vida, e para sua querida mamãe, cuja entrevista assisti e me emocionei.

Afora os desastres e incidentes, que, quando menos esperamos ocorrem (é por isso que são incidentes), comigo ou com você, é plausível e merece elogio o trabalho feito pelos policiais do 3º Batalhão da Polícia Militar, que agora, com a saída do Coronel Paladino, está sob o comando do Major Juvenal Araújo. O índice de criminalidade diminuiu consideravelmente por aqui. É só ver os jornais.

Alguém também disse que o trabalho de visita à população deveria ser feito pelos políticos; e eu disse: é, mas não agora, quando se aproximam as eleições.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Gramáticos Puristas

Eles nunca recomendam, sempre ditam. São mais ou menos como os médicos, nunca sugerem e sempre prescrevem.

Preocupados com um purismo lingüístico exacerbado, deixam de perceber formas novas (e outras nem tanto assim) de se dizer e escrever a língua. Defendem a pureza desta contra todas as supostas “contaminações” e “decadências” provocadas por seus falantes. Conseqüentemente, não registram em seus compêndios gramaticais essas formas inovadoras pelas quais a língua (também) se realiza.

O verbo namorar, por exemplo, na maioria das gramáticas (puristas) aparece (exclusivamente) como transitivo direto, não aceitando (é assim que aparece, como se os verbos tivessem vontade própria e não dependessem em nada de seus falantes), portanto, a preposição com, conforme é fácil constatar na fala (e, não raro, na escrita) dos quase duzentos milhões de brasileiros.

Dito isso, normalmente seguem as toscas prescrições normativas do tipo: “não se deve [reparem o tom autoritarista das prescrições] usar a preposição com entre o verbo namorar e seu objeto, no caso, Pedro. Assim, “Ana namora Pedro”; nunca “Ana namora com Pedro”, dizem eles. O próprio Word (editor purista?) acabou de passar um traço verde embaixo deste exemplo, indicando, no mínimo, incorreção gramatical.

Meu Deus do céu, será que os puristas não percebem que o Brasil inteiro fala "namorar com" e que grande parte  já até escreve  assim? Há registro desse fenômeno mesmo na grande literatura.

Sem interesse pela resposta, pois já a conheço, questiono: quando gramáticos puristas seguirão bons exemplos, como os de Celso Pedro Luft? Este autor registra em letras grandes em sua gramática o uso de namorar como transitivo indireto, acompanhado da preposição: “Ana namora com Pedro” sim, e daí?! É assim que falamos e cada vez mais escrevemos.

De nada adianta a repressão ferrenha. As línguas sempre foram e continuarão sendo mal-comportadas e mutantes (para não ter que explicar aos puristas que seus falantes é que as mudam). Também, se tiver que explicar...

sexta-feira, 5 de março de 2010

Saúde pública: os médicos e os feriados

O feriado será na próxima segunda-feira 8, Dia Internacional da Mulher. No entanto, no Centro de Saúde Hidalgo de Lima, no Palheiral, há médicos que o anteciparam, não consultando mais a população já a partir de hoje(5) à tarde.

Segundo informações de profissionais do próprio Hidalgo de Lima, quando há previsão de feriado para a segunda-feira, costumeiramente, alguns médicos  deixam de comparecer ao ambiente de trabalho já na sexta-feira, prolongando o feriado que ainda nem começou. No fim do mês, no entanto, seus salários continuam intatos. E, ao contrário da classe dos professores, médicos não ganham mal.

O reformado Centro de Saúde está lá, lindo e maravilhoso, mas onde está o devido atendimento à população? Onde está a responsabilidade dos médicos para com seus pacientes? Não existe. Enquanto isso, pagamos pelo desserviço de pessoas que desconhecem o valor da palavra compromisso.

Médicos são contratados para atender pacientes, para responder às necessidades de saúde do povo, não para feriar quando bem entenderem. Se não cumprem com suas obrigações ou não desempenham bem suas funções, precisam ser demitidos e substituídos por profissionais sérios.

O que andam fazendo os órgãos municipais fiscalizadores da saúde pública deste Estado? Talvez, como certos médicos, anteciparam o feriado. Vergonhoso, para quem tem vergonha, é claro!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Língua, sociedade e política

É sabido que somos uma sociedade marcadamente preconceituosa. São inúmeras as formas de preconceitos enfrentados pelos que sofrem na pele as diversas e amargas vertentes da discriminação social explícita ou subentendida.

As reflexões científicas mais recentes da Sociolingüística – ciência que investiga as relações entre língua, sociedade e poder, numa definição simplificada – têm demonstrado que a língua foi e, com freqüência, tem sido um dos mais explícitos mecanismos de exclusão social existentes.

A mesma ciência, na absoluta contramão do que a mídia em geral propaga, postula a impossibilidade de se estudar a língua desvinculada de seus falantes. Dito de outro modo, não há como estudar a língua sem levar em conta os falantes que a falam, fato que, para qualquer estudioso que se preze, deveria ser o óbvio ululante, aproveitando formoso título de  um dos livro de Nelson Rodrigues.

Sob este enfoque, tratar de língua significa tentar compreender as diversas relações estabelecidas por meio da linguagem, supõe um esforço no sentido de melhor assimilar os jogos ideológicos sociais que se movem ao redor das questões de natureza linguística. Tratar de língua supõe tratar de política.

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"Numa época em que a discriminação em termos de raça, cor, religião ou sexo não é publicamente aceitável, o último baluarte da discriminação social explícita continuará a ser o uso que uma pessoa faz da língua."

James Milroy, 1998

quarta-feira, 3 de março de 2010

Simples e sábio

Entre as qualidades do ser humano que mais me impressionam está a simplicidade, que não sei se a adquirimos ou se nascemos com ela.
Não admito a arrogância. Não admito a humilhação de outro ser.
Hoje encontrei com uma pessoa simples: Aldo Nascimento. Demasiado inteligente; porém, simples.
Homem de atitudes honestas e plausíveis, Aldo transmite paz e inquietude ao mesmo tempo. Aquela com seu comportamento; esta, por meio de suas palavras e reflexões sociais, que podem ser lidas em seu blogue. Este, sim, é um homem público.
Já ouvi comentários difamadores a seu respeito, sim; mas partiram de alunos desinteressados e não-sérios. Não lhes dei importância.
Na biblioteca da Faculdade Euclides da Cunha, anexada à Unopar, Aldo e eu conversamos durante mais de uma hora sobre língua, ensino, escola, leitura, escrita, filmes etc.
Aldo é o tipo de ser humano que jamais pode ser taxado de persona non grata. É gente da gente, que faz bem ao povo acriano.
Extremamente receptivo e acessível, Aldo tem extraordinária personalidade, além de vasta sabedoria; é, contudo, humilde.

terça-feira, 2 de março de 2010

Carlos Drummond na Globo News (2007)

O maior poeta modernista foi merecidamente homenageado pela Globo News em 2007.
A matéria é uma mistura de trechos de entrevistas de Drummond com citações de seus poemas feitas por ele mesmo e análises  literárias e comentários de Alcides Vilaça, professor de literatura da USP.
Pressione o play e assista às três partes do programa!

Parte 1
 

Parte 2


Parte 3

Um e-mail: Carta de ex para ex

Hoje pela manhã, recebi o e-mail que segue. Gostei da tirada. Espero que também curtam!

Do Ex para a Ex:
Querida,
Escrevo para dizer que vou te deixar.
Fui bom marido por 7 anos.
As duas últimas semanas foram um inferno...
O seu chefe me chamou para dizer que você tinha pedido demissão e isto
foi a gota...
Na semana passada, nem notou que não assisti ao futebol...
Te levei na churrascaria que mais gosta...
Outro dia chegou em casa, nem comeu e foi dormir depois da novela...
Não diz que me ama...
Nunca mais fizemos sexo...
Portanto, ou está me enganando ou não me ama mais.

PS. Se quiser me encontrar, desista...
Eu e a Júlia, aquela sua 'melhor amiga' da Academia, vamos viajar para o nordeste e vamos nos casar!

Ass: Seu Ex-marido.

Resposta da Ex:
Querido Ex-marido,
Nada me fez mais feliz do que ler sua carta.
É verdade, ficamos casados por 7 anos, mas dizer que você foi um bom marido é exagero.
Vejo a novela para não lhe ouvir resmungar a toda hora.
Reparei que não assistiu futebol, mas com certeza, foi porque seu time tinha
perdido e você estava de mau humor.
A churrascaria deve ser a preferida da amiga Júlia, pois não como carne há dois anos.
Fui dormir porque vi que a sua cueca estava manchada de batom. (Rezei para que a empregada não visse).
Mas, com tudo isto, ainda o amava e senti que poderíamos resolver os nossos problemas.
Assim, quando descobri que eu tinha ganhado na Loteria deixei o meu emprego, e de surpresa comprei dois bilhetes de avião para o Taiti, mas quando cheguei em casa você já tinha ido embora...
Fazer o quê? Tudo acontece por alguma razão.
Espero que você tenha a vida que sempre sonhou.
O meu advogado me disse que devido a carta que você escreveu, não terá direito a nada.
Portanto, se cuida!

PS. Não sei se lhe disse, mas a Júlia, minha 'melhor amiga', está grávida do Jorginho, nosso 'personal' lá da Academia.
Espero que isto não seja um problema...

Ass: Sua Ex-esposa, Milionária, Gostosa e Solteira.