sábado, 20 de março de 2010

Por que "menas" existe

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A regra intuitiva da gramática internalizada de cada um de nós parece mesmo ser esta: concordar “menos” com a palavra feminina que o segue (menas gente, menas vagas, menas crianças, etc., etc.).
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Quando queremos, sempre aprendemos alguma coisa nova. Aprende-se com as crianças, com os adultos, com os velhos, com os doutores, com os amadores; aprende-se com todo mundo. Há pessoas que não aceitam aprender, talvez porque acham que sabem de tudo. Tolice.

Com o mestre Sírio Possenti, aprendi que há pelo menos dois motivos para escrever sobre língua. O primeiro deles: não repetir a lista do que todo mundo acha, diz e escreve sobre língua. O segundo motivo para escrever sobre língua é para correr riscos, fazer interpretações, analisar fatos de língua, e até errar, em certos casos.

Estou exausto de ouvir pessoas dizerem que menas não existe. A questão da existência é óbvia (para quem aceita perceber, é claro), uma pergunta resolve – se não existe menas, por que quase todo o povo brasileiro diz menas? Se todos que perguntam sobre a existência desta palavra já têm na ponta da língua a ideia de que a mesma é errada, por que, ainda assim, teimam em dizer menas? Por que não conhecem o “certo”, no caso, menos? Claro que não, se assim fosse não diriam que menas é errada. Só dizem que menas é errada porque sabem que o “certo” é menos. Então, por que, mesmo conhecendo o “certo”, na hora de falar, usam o “errado”? Chega de tanta repetição. Deve haver uma explicação científica para este fato.

Outro dia uma amiga me perguntou: a palavra menas não existe não, né? Existe, respondi. Tanto que todos falamos isso. Esperei-a retrucar: sim, mas é errada, né? Minha amiga foi contaminada pelo purismo dos normativistas, pensei com meus botões. Eu explico.

Tudo que aparece na fala e na escrita das pessoas "normais" e não tem abono na gramática dos normativistas empedernidos, eles, os puristas ranhetas, ignorantemente, dizem que não existe. No caso de "menas", alguns chegam a afirmar, com letras minúsculas, no rodapé de suas gramáticas, a existência de tal fato lingüístico, mas logo reiteram que sua ocorrência se restringe à linguagem informal. Nisso eles têm razão, menas é forma socialmente marcada, isto é, de ocorrência exclusivamente popular; mas, bem que poderiam dizer isso com letras grandes, sem medo, convenhamos.

O motivo deste textinho é dizer que já está mais do que na hora de encontrarmos uma explicação para a abundante ocorrência de menas na linguagem brasileira, ao invés de simplesmente dizermos que “menos” é advérbio e, portanto, invariável; e, nos piores casos, que menas não existe. Existir é uma coisa; ter prestígio e validade social é outra.

Vamos a algumas considerações sobre o caso em questão. Ocorre que, como bons intuitivos falantes que somos da língua, interpretamos menos, advérbio (invariável, por isso não teria feminino, segundo a tradição gramatical), quando o mesmo antecede palavras femininas, como se fosse adjetivo (variável, por isso fazemos o seu feminino “menas”). Observe-se que ninguém diz “menas rapazes”, “menas homens”; mas todos dizem “menas coisas”, “menas mulheres”, “menas pessoas”. A regra intuitiva, da gramática internalizada de cada um de nós, parece mesmo ser esta: concordar “menos” com a palavra feminina que o segue (menas gente, menas vagas, menas crianças, etc., etc.).

Caso análogo é o do advérbio “meio”, igualmente tratado pelo falante como adjetivo, no caso, “meia”. Com a diferença que este é forma socialmente menos marcada, ou seja, ocorre com maior freqüência e menor estigmatização na fala de pessoas consideradas cultas. Sobre este caso, embora pouca gente se dê conta, é válido dizer que, no velho Memorial de Aires, há um século, o grande Machado de Assis escreveu “meia doente” (olha aí, meu editor do Word já corrigiu, sugeriu “meio”). O que vou dizer? Que Machado errou? Que assim escreveu por que desconhecia a forma abonada, “meio”? Ou que notou simplesmente para registrar a forma? Nem um nem outro; nem isto ou aquilo. Machado escreveu porque “meia” é variação bastante comum, já ocorria em seus dias.

A errônea concepção de que certas formas são simplesmente erradas ao passo que outras são indiscutivelmente certas está tão arraigada em nossa cultura lingüística que, mesmo depois do que escrevi, temo que alguém me leia como tendo criticado o fato de Machado de Assis ter escrito “meia doente”, afinal, sempre nos saímos mal nos testes de leitura. Antes de qualquer coisa, não critiquei.

8 comentários:

Anônimo disse...

Errado desde o começo: "menos", quando antecede adjetivo, que é o que você analisa aqui, é pronome, pronome indefinido, e não advérbio. Abraço.

Tiago Tavares disse...

Éh, anônimo, embora não seja a questão mais relevante do meu texto, talvez você tenha razão, ao dizer que "menos",na acepção que o empreguei,seja "pronome".
O que fica pouco clara e não serve para analisar os casos que citei é a definição dada por você, quando diz que "menos, quando antecede adjetivo...é pronome". Pelo tom de suas palavras "Errado desde o começo", imagino que pode explicar onde viu adjetivos nos exemplos que dei.

O Houaiss registra:
menos
pronome
1 expressa número ou quantidade menor de alguma coisa
Ex.: pedimos mais carne e m. pão

Mas também:
menos
advérbio
4 em menor quantidade, em grau inferior ou com menor intensidade
Exs.: as laranjeiras floresceram m. este ano
quanto mais pensa, m. age

No que concluo, de novo, que você deve ter razão ao dizer que "menos" é pronome, apesar da definição pouco clara que usa concluir o que diz.

É uma pena que só tenha enxergado isso no meu texto. De qualquer forma, o debate é sempre enriquecedor. Seria interessante que se identificasse, para discutirmos outras leituras possíveis desse mesmo texto.

Abraço,

Tiago Tavares

Anônimo disse...

''Menos'' é uma palavra que não tem gênero. Não importa sobre o que esteja se falando, feminino ou masculino, us-se sempre ''menos''. ''Menos'' é o antônimo de ''mais'' e nenhuma hora fala-se ''maisa'' ou ''maiso''. Enão é sempre menos vagas, menos pessoas, menos crianças !

ANA KAROLINE MALAQUIAS disse...

Muito Bom Tiago,
Parabéns!

Eu uso essa palavra (MENAS) mas pessoas que não são cultas, discutem comigo, e eu sei que não esta errado.

ANA KAROLINE MALAQUIAS.

Iggor Vital Brazil disse...

Bom dia, Tiago. Espero estar enganado, mas seguindo sua linha de raciocínio, tornando a palavra "menas" correta, apenas por ter seu uso frequente de forma informal, podemos então usar, também, a expressão "pra mim fazer", pois quem não tem acesso à forma culta, faz uso deste. Estou certo ou errado?

Tiago Tavares disse...

A Iggor Vital

Olá, meu caro Iggor!, eu não discuti se "menas" é forma "certa" ou "errada" (meu título: Por que menas existe); só disse que ela existe e busquei dar uma explicação para o fato. Infelizmente, o brasileiro ainda não consegue pensar questões de língua sem estar preso às noções de "certo" e de "errado" (o que é até compreensível, se lembrarmos de nossas aulas de Língua Portuguesa). Seria interessante se todos percebessem que, assim como as sociedades, as línguas não são tão rígidas como imagina nossa vã filosofia (Machado escreveu "onde" e "aonde" na mesma linha, indistintamente: errou ele?). Sonho com um dia em que a escola seja capaz de ensinar o que é uma língua, antes de ensinar o que é uma gramática. "Pra mim fazer" existe e é largamente usado. É óbvio que seu emprego deve se restringir a situações informais (pelo menos até que os jornais e a mídia comece a reproduzi-la). Duvida? A mídia transformou "risco de vida" em "risco de morte"... Qualquer construção linguística só é "errada" até que um famoso gramático diga que não é e seja seguido por um bando de jornalistas (ou o contrário). É tudo uma questão de convenção. Isso, para a maioria, deveria ser óbvio; mas, infelizmente, ainda não é, Iggor. Um abraço!

Anônimo disse...

Menas existe. Tu menas. Verbo menar. Sim! Menar existe também. É verbo. Procurem em http://aulete.uol.com.br/menar ou http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=23 e descobrirão que existe. Ass.: Marco Fantaccini.

Jorlando Natalino disse...

Se "menas" não existe, então porque existe "muitas"?
O maldito conceito cultural, que valoriza mais os ouvidos que o cérebro, está desfragmentando o Brasil, em todos os aspectos.
Isso acontece com nossa maldita ortografia também: olhem só a palavra cachaça. Começa com C, mas pronunciamos K. Depois o CH mas pronunciamos X. E por fim, vém o Ç que nem consta em nosso alfabeto. Socorro?