segunda-feira, 31 de maio de 2010

Eu e as coisas

Muito me tem ensinado esta doce-amarga-vida. Tenho aprendido a viver com o que tenho, como posso. Tenho aprendido que não preciso ser igual a todos, embora com eles me pareça, inevitavelmente.

Aprendi nestes anos a dar valor ao que realmente merece valor, ao essencial. É que se perde tanto tempo e esforço  valorizando coisas sem valor, ou que, pelo menos, não merecem o valor que recebem. Sei que há mais para aprender do que já aprendi.

Procuro não seguir estritamente o que todo mundo segue ou dizer sem qualquer reflexão o que todo mundo diz. Aprendi a duvidar das coisas e das pessoas. Descobri que aparência é elemento importantíssimo para a maioria de nós. Que pessoas dão tudo para mantê-la firme.

De uns anos para cá, aprendi, por exemplo, que nem todas as músicas são realmente boas. Descobri que alguns programas televisivos são verdadeiras alienações mentais. Aprendi outras e mais coisas, as quais não consigo dizer agora. Segue a vida, e eu vou, como diz o povo, vivendo e aprendendo...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Foi um prazer...

[...] ficar com vocês durante dois meses. Minha vida de professor depende de vocês, amigos alunos. É um prazer saber que fiz amigos, os quais levarei em minha doce lembrança por toda a minha vida. Naturalmente, queridos, sentirei saudades, muitas saudades!
Saudade, queridos, essa palavrinha tão dolorosa, a partir de hoje, será elemento fundamental para mantê-los vivos dentro de mim. Eu explico: é que vocês, talvez sem perceber, marcaram minha vida.

Se algum dia, por alguma razão, vocês não acreditarem mais em si mesmos, lembrem-se que eu estou crendo em vocês. Não me decepcionem, por favor!!

Saiam mundo afora em busca de suas realizações, de seus sonhos; explorem todo o potencial que há dentro do peito de cada um de vocês. Porque o fim da disciplina, na verdade não é o fim de nada, e sim o começo de uma nova etapa em suas vidas.

Lembrem-se, amados: melhor é o caminho que o próprio lugar aonde vocês chegarão. Seus rostos ficarão gravados em meu coração, numa tábua de metal, de preferência, assim nunca os esquecerei.

Levem consigo um beijo e um abraço deste velho amigo e pequenino professor, que tem o coração maior que o mundo!


Até a próxima! Bjs, crianças!...
Prof. Tiago Tavares


Aos alunos do SENAC, ano 2010

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Orgulho de quê?

Não consigo entender do que devemos nos orgulhar, nós brasileiros. Fico observando a política, a economia e a educação de outros países, e percebo o quanto estamos longe dos melhores, enxergo o quanto precisamos mudar para melhorar. Qual a razão para nos orgulhar? Das músicas que tocam por aqui? Da democracia? Da saúde pública que vemos nos hospitais? Dos índices de violência? Da injusta punição a culpados de cometer crimes hediondos? Do futebol?

Sentir orgulho de quê? Faço minhas as palavras de Humberto Gessinger, vocalista e compositor da banda Engenheiros do Hawaii: “Não aguento mais, eu não sei a resposta!!”

No quesito pesquisa científica, nunca vi notícias de trabalhos brasileiros servindo de referência para ingleses, alemães, chineses ou japoneses. Não entendo slogans do Governo Federal que reproduzem mensagens do tipo “orgulho de ser brasileiro”.

Mas não nos entristeçamos tanto, talvez ainda existam motivos para se sentir orgulhoso de ser brasileiro, como nos mostra a seguinte manchete que vi hoje cedo, quando abri o Messenger para ver meus e-mails: Ingleses descobrem as meninas da laje no Rio. 

sábado, 15 de maio de 2010

Steve vai, vai Steve!



Steve vai, considerado um dos melhores guitarristas do mundo, mostra, neste vídeo, técnica, precisão, sensibilidade...
Pressione o play e, literalmente, babe!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Relaxa, é só a modernidade!!

Quando o assunto é língua e linguagem, há um fato pacífico entre seus estudiosos (eu disse entre estudiosos, leiam direito as coisas!!): toda língua muda com o tempo. Não precisa nem ser lingüista profissional para saber disso.

Outra questão incontestável, esta em qualquer área, inclusive na lingüística, é que, conforme o novo chega, o velho vai desaparecendo; este é um processo natural das coisas. Pode ainda ocorrer de o novo caminhar ao lado do velho sem que haja, necessariamente, o total desaparecimento deste ou a absoluta substituição por aquele.

Por exemplo. Com o tempo, certas regências verbais e nominais são substituídas por outras ou caminham lado a lado com as mesmas. O verbo assistir é um exemplo disso. As gramáticas tradicionais normatizaram que seu emprego deve ocorrer sempre com a função de transitivo indireto, regendo, por sua vez, um objeto indireto. Assim: “Assisti ao filme”. Na prática, no entanto, sabemos que isso não ocorre, e que todo mundo diz (e até escreve) “Assisti o filme”, e não “ao filme”. Muito bem.

Outro exemplo congênere é o da preposição “em”. No passado, quem pensava, pensava “em alguma coisa”. Dizia-se e escrevia-se “estou pensando em ti”, por exemplo. Hoje, quem pensa, pensa “ni” alguma coisa. Como? “ni”? Isso mesmo. Diz-se estou pensando em você e “ni” mim. Ouvi isso numa “música moderna”.

Isso nos leva a crer que, possivelmente, dentro de não muito tempo se dirá com toda a naturalidade do mundo, em qualquer lugar que seja, coisas como “Passei o dia pensando ni tu”. Mas, neste caso, não se assombre, relaxa, é só a tal da modernidade substituindo o antiquado...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A poesia de Thiago de Mello

Os Estatutos do Homem - Ato Institucional Permanente

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.


Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.


Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964

sábado, 8 de maio de 2010

Cultura brasileira

Isso é que é modernidade!!

Com o advento do período chamado pós-moderno, muitas novidades chegaram até nós, inúmeras produções artísticas surgiram. Hoje comento um refrão de um texto de altíssima qualidade e indiscutível circulação de norte a sul deste maravilhoso país.

Os modernistas diziam que era necessário inovar, buscar novas linguagens. Poetas como Drummond romperam com formas tradicionais de se escrever poesia no Brasil; autores como Oswald e Mário de Andrade defenderam traços de originalidade da cultura brasileira em seus versos.

Estes exemplos foram seguidos muito fielmente, por exemplo, pela banda Kaçamba, na produção da música “Saia e bicicletinha” (acho que é isso).
Analisando os versos da canção, somos realmente surpreendidos com tamanha criatividade.

1 Ela tá de saia, de bicicletinha
2 Uma mão vai no guidon, e a outra tapando a calcinha

Repare os incríveis traços de modernidade nesta música, as rimas livres, o conteúdo (principalmente o conteúdo, gente), a inovação lingüística, que coisa maravilhosa, meu Deus: é divino (Estou embasbacado!!).
Não, pessoal, é sério, leiam atentamente esses versos, é coisa de louco, mano!! Os estudiosos do assunto chamam a isso de rimas emparelhadas, quando temos que o final do primeiro verso rima com o segundo (bicicletinha rimando com calcinha, etc.,). Toda esta riqueza só no refrão; e o resto da música? Desnecessário comentar, cara...

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P.S.: Análise carinhosamente dedicada aos meus alunos do SENAC, sobretudo aos que curtem a domingueira do Chalé Bar, palco de muita arte neste Estado. Arte mesmo, sem aspas, para despistar qualquer hipótese de ironia. Amo vocês, queridos alunos!!


quarta-feira, 5 de maio de 2010

O ECA e o SEXO

A atriz Malu Rodrigues, de 16 anos, causou certa polêmica ao mostrar o seio e simular um ato sexual na peça musical “O despertar da primavera”, do autor Frank Wedekind, exibida entre Rio e São Paulo durante quase dez meses.

O Ministério Público de São Paulo e do Rio de Janeiro apuram a suspeita de que os responsáveis pela peça infringiram o artigo 240 do ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente, que diz configurar crime "produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente", gerando pena de oito anos de reclusão e multa para quem for condenado.

Malu disse em entrevista ter ficado chateada com a investigação do MP. Disse que a cena em que exibe um dos seios "tem todo um contexto". "Não é igual a uma foto de mulher pelada na Playboy." A atriz declarou ainda que entende o trabalho da Promotoria, mas afirma que teve autorização de um juiz da Vara da Infância e da Juventude para atuar nos palcos durante os quase dez anos em que a peça ficou em cartaz.

domingo, 2 de maio de 2010

Ô, capitão!, meu capitão!!

Ontem revi Sociedade dos Poetas Mortos, um filme fantástico. De novo, fui impactado pelas atitudes de um professor inovador, destemido, que vai além das “leis” do ato de aprender e de ensinar, o Sr. John Keating, um ex-aluno do colégio Welton Academy, que, passados anos, torna-se professor no mesmo.

Interpretado por Robin Willians, o professor de literatura ensina seus alunos a pensarem por si mesmos, a construirem a própria personalidade, ao invés de se apoiarem somente em teorias prontas. Ensina-lhes ainda a viverem o significado da expressão latina carpe diem (aproveite o dia).

Mas seus métodos criam um choque na ortodoxa direção de Welton Academy, sobretudo a partir do instante em que o docente John fala a seus alunos sobre a Sociedade dos Poetas Mortos.

Como filme-referência, Sociedade dos Poetas Mortos faz professores e alunos questionarem sua atitudes, leva-nos a duvidar de nossas próprias certezas.

sábado, 1 de maio de 2010

Drummond, um poetão

Nascido em Itabira do Mato Dentro, MG, Carlos Drummond de Andrade é um dos principais nomes da chamada poesia de 30, primeira fase do Modernismo Brasileiro.

Com um estilo despojado e livre, o poeta é um dos primeiros a romper com as formas tradicionais de se fazer poesia, seguindo muito bem as ideias do ilustre Mário de Andrade, de que um escritor deveria sempre inovar, buscar novas linguagens. E esta perspectiva será base de toda a produção literária de Drummond.

Um exemplo desse tipo de inovação é o poema “No meio do caminho”, um de seus mais famosos textos, que tem por objetivo romper com todo e qualquer modo tradicional de fazer poesia. Com um jeito irônico e moleque, o poeta itabirano brinca com as repetições e explora a simplicidade na construção do polêmico verso “No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho.”

Publicado na revista de Antropofagia, este poema marcou época, seja como modelo de antipoesia, seja como proposta modernista, caindo até no gosto popular. A primeira crítica ao poema deveu-se à questão da escolha do verbo ter (tinha uma pedra...), em lugar de haver (havia uma pedra...), conforme aconselhava o “bom senso” gramatical da época. É claro que há muito mais elementos a serem analisados dentro do poema; no entanto, para os puristas de plantão, o ter foi o que mais de imediato lhes chamou a atenção.

Puristas à parte, o fato é que o poema se tornou paradigma da poesia moderna, que queria contrariar todas as regras, gramaticais ou poéticas, do modo arcaizante de fazer poesia. Carlos Drummond de Andrade publicou, dentre outras obras, Alguma poesia (1930); Sentimento do mundo (1940); A rosa do povo (1945); Claro enigma (1951); Fazendeiro do ar (1954).

É temática corrente na obra do poeta a ascensão do nazismo, dos totalitarismos (contrários, em essência, às liberdades individuais), o cotidiano, a vida sem perspectivas, o mundo midiático e, sobretudo, as desilusões e o amor. Outro tema igualmente corrente na poesia drummondiana é Itabira, sua cidade natal, da qual o poeta ora fala com saudades, ora como início de sua vida intelecto-afetiva.
Drummond: mais que um poeta; um poetão.


***
AMOR - 1985
Do livro Amar se aprender amando

O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.

"Amor" - eu disse - e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.