sexta-feira, 25 de junho de 2010

O que dizer contra fatos?

De um tempo para cá, venho observando as ocorrências da preposição “para”. Percebi que, na fala, a primeira vogal “a” cai em praticamente cem por cento das ocorrências dessa preposição, virando “pra”, fato que deixa muita gente de cabelo em pé. Sobretudo, porque isso sai da boca de pessoas das mais diversas camadas e esferas sociais, desde meros torcedores da seleção brasileira até advogados, escritores, jornalistas e doutores (se alguém duvida, teste ouvi-los por alguns instantes).

“Para” ainda se mantém na escrita, sofrendo já as primeiras influências da fala, fato natural no campo das línguas – fala e escrita se influenciam mutuamente.

Atualmente, um comercial da Oi reproduz, escrito, o seguinte slogan: “hino grátis pra todos os brasileiros”, sem quaisquer aspas em “pra”. Minha opinião: acredito que “pra” vai entrar de vez na escrita, assim como entrou na fala. Quando? Não sei. Mas vai. Também não sei se vai substituir “para”. Pode ser que as duas formas caminhem juntas, com a predominância de uma ou de outra. Quanto a isso, não me preocupo, o tempo dará suas respostas.

Isso sinaliza alguma corrupção ou degradação da língua? Claro que não. Sinaliza uma característica óbvia das línguas: toda língua muda com o tempo. A prova maior é de que o português, tal qual conhecemos hoje, um dia já foi latim.

Queiram ou não os puristas, gostando ou desgostando, com beicinho ou sem beicinho, as línguas mudam e pronto. A nós, resta apenas reconhecer os fatos. Ou será que preferiremos tentar mudar os fatos para justificar nossos gostos e preferências?

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Uma homenagem atrasada

Prometi, na postagem passada, que faria uma homenagem a José Saramago, escritor dos bons, de origem portuguesa; mas minha internet não me permitiu. Portanto, faço-a atrasado, mas a faço. Pensei que não há nada mais justo do que homenagear um grande escritor com um texto dele mesmo. As palavras de Saramago falam tudo por si só, por isso não direi mais nada.

A Saramago,

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Entre um comercial e uma triste notícia

Ao abrir o G1, hoje cedo, li, dentre outras coisas, sobre a morte de José Saramago, escritor português premiado com o Nobel da Literatura, em 1998. Depois, um pouco mais tarde, ao ligar a tevê, vi um comercial. Senti vontade de escrever sobre os dois assuntos, mas escolhi falar sobre este último, o comercial.

Entre os temas que mais me atraem nos estudos linguísticos, está a persuasão, a arte do convencer, digamos assim. Sobre esse assunto, Adilson Citelli escreveu Linguagem e Persuasão, livrinho interessantíssmo (o qual li, pela primeira vez, no primeiro período da faculdade). Em poucas páginas, o autor desvenda processos persuasivos em diversos tipos de textos, como o jornalístico, o religioso, o didático, o propagandístico, etc.

À luz das teorias aristotélicas, apresentadas por este filósofo no livro Arte Retórica, Citelli analisa as técnicas persuasivas e estratégias de convencimento empregadas em comerciais famosíssimos como o clássico Cepacol. Dito de forma mais simples, o livro revela, para quem o lê, o que fizeram os grandes produtores dos comerciais mais criativos e interessantes e mais bem produzidos nas últimas décadas, como, por exemplo, o do primeiro sutiã da Valisère, rodado nos anos 80. Meus alunos de Comunicação Oral e Escrita devem saber muito bem do que estou falando.

Vamos, então, ao motivo deste textinho: o comercial. A empresa representada é a Redecard (Ah, já sabem, né?). Imagino que saibam, porque se trata de uma paródia ridícula de uma música duas vezes ridícula que fez e faz sucesso no Brasil inteiro: Rebolation. Os autores do comercial (quem serão os infelizes, hein?) trocam a expressão “rebolation” por “faturation” (por favor, não leiam o que vou dizer depois dos dois pontos: é mais ou menos como trocar bosta por merda). Ninguém leu, não? Certo.

Resolvi falar sobre o comercial em questão (e não sobre Saramago)por, pelo menos, três motivos: primeiro (e, principalemente), porque todo mundo vai escrever sobre a morte de José Saramago; depois, para desancar os idealizadores e produtores publicitários da Redecard, embora eles nunca saberão quem sou eu e o que escrevo; e, por último, porque a propaganda comentada é exatamente (sem nenhum centímetro a mais ou a menos) o inverso, o oposto, o contrário de tudo o que aprendi lendo Citelli. Uma conclusão: os produtores publicitários da Redecard não conhecem Citelli, muito menos seu livreco Linguagem e Persuasão. Outra conclusão: os produtores da Redecard conhecem muito bem a letra e a melodia de Rebolation (e, quem sabe, até dançam Rebolation). Para finalizar, uma última conclusão:... Corta!


p.s1: segue, de presente, vídeo do entediante comercial da Redecard e do primeiro sutiã da Valisère.
p.s2: prometo que amanhã farei alguma homenagem a José Saramago.



quarta-feira, 16 de junho de 2010

Estupidez na Copa do Mundo


É claro (para quem quiser) que somos uma sociedade composta por cidadãos de pouca ou nenhuma compreensão do que seja uma sociedade, do que seja um cidadão e de como este deve se comportar visando boa convivência com os demais integrantes do meio em que vive. Isso já é, por si só, um grave problema.

Não bastasse isso, como uma luva, festividades como o Carnaval (sobretudo no modelo que temos em Rio Branco) e a Copa do Mundo são “lugares” propícios para cidadãos quase sem nenhum juízo perderem o pouco da bagaça que lhes resta.

Depois de umas doses de cachaça (e em alguns casos sem nenhum gole), motoqueiros e motoristas desafiam a gravidade, duvidam da concretude de um poste e da dureza de um pára-lama ou pára-brisa de outro veículo. Testam seus velocímetros em estradas como a da Sobral, na via Via Verde e Via Chico Mendes (para ficarmos em três), pondo em risco e, não raro em cemitérios, a vida e o corpo de seus concidadãos.

Outros esquecem que têm família, crianças para sustentar e demonstram nas ruas e nos bares toda sua (duvidosa) virilidade e esclerosa hombridade combinada a boa dose de machismo.

Numa curta volta pela cidade, ontem, vi o preço da imprudência no trânsito: de um lado, pernas de inocentes (ou não) esfoladas por motoqueiros; de outro, carros completamente destruídos por babacas extremamente alcoolizados. Basta assistir aos jornalismos policiais de hoje, e verão também.

Tolos. Estúpidos. Babacas. Otários. Malucos. Será que não percebem que a grandeza da vida não pode, sequer, ser comparada à futilidade de uma Copa do Mundo? Curtam suas esquizofrenias sozinhos; mas, façam-me o favor: deixem de fora aqueles que nada têm a ver com suas loucuras.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ronaldo é poliglota

Maria Gabriela voltou. O programa é o mesmo: De frente com Gabi; a entrevistadora, também. A surpresa, para mim, foi o entrevistado: Ronaldo. Não o jogador Ronaldo, mas a pessoa Ronaldo, sua vida pessoal, a qual eu, particularmente, pouco conhecia.

Achava eu, em minha doce ignorância, que Ronaldo só vivesse dinheiro, mulheres e festinhas, que só sustentasse aparência e que fosse um cara estúpido, grosso e egoísta. Enganei-me docemente.

Ronaldo demonstrou ser um cara bastante simples e, na hora de falar, demasiadamente reflexivo. Seu pai é seu mentor intelectual, coisa que eu não sabia. Sabiam ou imaginavam vocês que Ronaldo já houvesse lido “Crime e castigo”, clássico de Dostoievski? Nem eu. Já passou pela cabeça de vocês que o jogador falasse pelo menos três línguas diferentes do português? Pois é. Revelou ele, na entrevista, que fala razoavelmente bem o inglês, o espanhol, o italiano e entende o holandês, ao assistir um filme nesta língua, por exemplo. Ronaldo é poliglota, e eu não sabia. Ignorância minha.

Acreditava eu que o adjetivo ignorante, em todas as acepções do vocábulo, se aplicasse facilmente a Ronaldo. Na verdade, o ignorante da história sou eu. Ronaldo é poliglota e conheceu, in loco, outras culturas.

“Arrependimento”, instigou Gabi. “A história dos travestis”, respondeu Ronaldo. Mas disse falar sobre isso com naturalidade, agora. Antes tinha vergonha (ficou implícito).

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Só observações, nada mais

Acabei de ver, na faculdade, a disciplina “Novas tecnologias na escola”. Discutimos sobre o papel das chamadas novas tecnologias no desempenho e no aprendizado dos alunos. Alguns pontos são pacíficos: as tecnologias são contribuintes fundamentais para uma nova pedagogia; elas por si só não são solução para problemas da educação; é necessário “alfabetizar” tecnologicamente os professores em geral.

Com todas essas opiniões rondando meu cérebro, não podia deixar de observar, assim que tive oportunidade, um garotinho viciado em jogos online, na sede do SINTEAC. Lá tem alguns computadores, e, enquanto a mãe do garoto era consultada, ele “se acabava” na frente do PC – Personal Computer, Computador Pessoal, em português.

Esqueci-me de todas as teorias que vimos na faculdade e fiquei durante alguns minutos observando aquele garoto, que representa muitos outros de sua idade. Imaginei o que ocorreria se se colocasse um livro, muito interessante para ele, do outro lado da sala. E depois pedisse para que escolhesse entre o jogo e o livro. Não há dúvidas de que escolheria o jogo, o computador. Lanço uma afirmativa óbvia: não há nada mais atrativo para a garotada de hoje do que o computador, ou melhor, a internet. Adeus àquelas cenas de leitores à luz da lareira.

Hoje existem os livros eletrônicos. As bibliotecas estão a um clique. O problema é que raramente são acessadas, porque a maioria usa burramente a máquina; ao invés de usá-la como ferramenta de trabalho e para estudos e pesquisas, subordina-se e é dominada por ela, tornando-se mais um alienadinho do século XXI.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Saudações

O bilhete abaixo, que recebi na festa de despedida que fizemos no SENAC, é de um aluno excepcional, atencioso, dedicado. Mal sabia ele que eu iria publicá-lo aqui. Leia!

Rio Branco, AC, 29 de maio de 2010

Oi, professor, tudo bem? Espero que sim...
O que quero lhe falar nesta folha de caderno é o que eu não tive coragem de falar pessoalmente. Quero dizer que estes dois meses foram os dois melhores meses que eu tive na vida. Me desculpe se eu fiz alguma coisa errada.
Quero verdadeiramente lhe desejar que continue sendo essa pessoa maravilhosa e cativante que você é.
Me desculpe pelos erros e pela letra feia, mas é isto que lhe desejo, do fundo do meu coração.
Continue correndo atrás dos seus objetivos e que Deus continue lhe abençoando.

Um abraço e uma doce lembrança
Edenir Costa (vugo Thiago)