sábado, 27 de novembro de 2010

Pronto Socorro: um retrato da (falta de) saúde pública no Brasil


Sábado, 8h de uma noite quente. Minhas pálpebras estão pesadas. Apesar do cochilo que tirei durante o dia, meu corpo ainda denuncia fraqueza e cansaço resultantes de uma noite inteira sem dormir.

Ontem à noite, meu irmão sofreu um acidente e tive que acompanhá-lo ao “céu”. Não, não, ele não morreu (e nem sei se iria para o céu, se tivesse morrido), estou falando do Pronto Socorro de Rio Branco, que atualmente só atende casos emergenciais.  

Chegamos lá por volta de 1h da madrugada e alguns minutos. Como meu irmão bateu a cabeça, no acidente, logo entramos e fomos atendidos. Fizemos raios-x e uma tomografia, ambos solicitados por um cirurgião que estava de plantão.

Até a apresentação dos raios-x ao ortopedista correu tudo muito bem, dentro das normalidades (até fora delas, confesso; foi rápido demais). O problema foi para conseguir apresentar a tal tomografia. Ah, meu amigo, aí eu vi merda puxada a balde.

Uma enfermeira prometeu que o neurocirurgião viria “já, já” para fazer a leitura do exame e emitir parecer. Deram uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, dez e meia, só dez e meia fomos atendidos. Nesta altura eu já tinha perdido as estribeiras. Mas não havia muito o que fazer, os médicos só trabalham quando querem – não há fiscalização que lhes chame a atenção. Saúde pública é foda, meu amigo!! Fiquei mais de nove horas à espera da leitura de uma tomografia. Que vergonha, hein, senhor Arnóbio Marques! O senhor deveria experimentar a saúde que oferece aos pobres acrianos!

Pela manhã, chegou um rapaz (ver foto ao lado) com o braço direito muito inchado numa tipóia. Conversa vai e conversa vem (para não desmaiar de sono), perguntei a ele o que lhe tinha acontecido. A resposta me surpreendeu, em parte. Disse-me que havia dado um tiro de espingarda em seu próprio peito – tentou o suicídio. O motivo? Bebida e problemas familiares.

Esse homem foi transportado da Fundacre para o Pronto Socorro às 6h, para que fosse feita uma cirurgia de amputação de seu braço. Segundo o que me contou, foi acordado cedo, antes das 6, porque havia pressa para a realização da cirurgia. Para encurtar a história, saí do Pronto Socorro às 10h30min, como já disse, e aquele homem, Adalcimar, ainda estava naquela maca gelada, que sequer havia sido coberta com lençol.

Se repararem bem nas fotos, caros leitores, o atendimento acontecia ali mesmo nos corredores – não havia quartos disponíveis. O lugar exalava odor, que gerava ânsia de vômito.

Os médicos, em sua maioria, arrotam arrogância e soberba; não gostam de pessoas pobres e humildes como eu e você. Eles acham que devemos ficar calados quando nos destratam, porque são médicos e têm autoridade para nos tratar daquele jeito.

Senhores, não se deixem iludir pelo governo que mascara e maquia os diversos serviços públicos neste estado. O poder público é omisso em quase tudo em que diz está presente. A saúde que nos oferecem é pior do que a que se oferece em clínicas veterinárias. Sem exageros, cachorros são mais bem tratados por aqui.

Não obstante tudo isso, foi só a Dilma ganhar a eleição e já se fala na volta da CPMF. Tião Viana e os demais parlamentares que concordam com essa safadeza alegam que esse imposto é necessário porque financia a saúde no Brasil. Balela.

Em debate no programa Espaço Aberto, na Globo News, nosso querido e futuro governador foi incisivamente contestado por Everardo Maciel, ex-secretário da Receita Federal. Achei tão bom!! Tião Viana não conseguiu provar em nenhum momento que o imposto, no modelo atual, tenha algum fundamento legal. Além disso, Everardo denunciou, publicamente, os desvios desse dinheiro que supostamente seria destinado à saúde.

Enquanto não houver uma reforma política de verdade neste país, continuaremos pagando pelo sangue que escorre das mãos sujas daqueles que dizem que nos representam.

Até que isso ocorra, só nos resta esperar... a morte!!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

E depois, o que será?

O Estado está mostrando todo o seu “poder”. Colocou todas as forças armadas nas ruas, invadiu a Vila Cruzeiro e sitiou o Morro do Alemão. Em entrevista coletiva, o general do Exército disse que a operação pode se estender.

Eu e todos os brasileiros sabemos que vai morrer muita gente nessa brincadeira, tanto traficantes quanto cidadãos de bem. Já morreram 32, se levarmos a sério os números. Na verdade, não temos motivos para questionamentos (alguém já nos avisava que para todo problema complexo no Brasil sempre existe alguém com uma solução simples e errada). Mas a “solução” já começou, e o Estado não vai voltar atrás de maneira alguma.


Beleza. Mas, e depois, o que farão com aquelas comunidades? Quais os projetos educacionais, de moradia, de saneamento básico e de qualidade de vida (entre outros) para a Vila Cruzeiro, para o Alemão e para outras comunidades atualmente dominadas pelo tráfico no Rio?  Isso, nem o general do Exército, nem o ministro Tom Jobim nem o Secretário de Segurança Pública do Rio responderam.
Os governantes, quando se pronunciam sobre a guerra no Rio, passam a idéia de que estão salvando a população que mora naquelas comunidades; seriam mais honestos se em seus discursos dissessem que estão tentando corrigir um erro grave que eles mesmos cometeram durante muitos anos; seriam menos cínicos se dissessem que aquele monstro que agora tentam destruir foi criado por eles mesmos, pelo próprio Estado (ou pela ausência dele).  

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Falta de educação


A Cidade Maravilhosa está em guerra. Há desastres por todos os lados: ônibus queimados, cabines policiais destruídas, traficantes furados de bala; enfim, a Cidade Maravilhosa não vive um de seus momentos mais maravilhosos. Ao ligar a tevê, um deputado do PSOL defende que policiais sejam mais bem remunerados no Rio de Janeiro. Nas imagens, pessoas como eu e você (com a sutil diferença de serem ignorados pelo Estado, por isso se transformaram no que são), com metralhadoras e fuzis, correm da Tropa de Elite, que despedaça o que vê pela frente.

A educação passou longe desses lares. O Estado criou monstros e agora luta para destruí-los. O Estado crê que vai vencer a criminalidade. Outro dia, um deputado disse que o Estado é forte e vai vencer o crime organizado. O Estado brasileiro é forte? Cegueira.

Não percebem nossos governantes que não se vence a corrupção com bombas de efeito moral (se fosse assim, seria necessário explodir o Congresso Nacional); não se dão conta de que a criminalidade não terá fim com o exército nas ruas com seus tanques de guerra matando criminosos e inocentes. Aliás, sugiro que se faça a tal “Operação Fecha Quartel” no Palácio da Alvorada. Como diz Charles Brow, “os bandidos de verdade tão em Brasília tudo solto”.

No Acre, nosso dinheiro é desperdiçado com obras suntuosas que não beneficiam a toda a população. Não me iludo com a maquiagem que o PT fez na cidade de Rio Branco. Maquiar não resolve; é necessário ter qualidade nos serviços oferecidos. Nada resolve, por exemplo, criar 200 UPA e não contratar médicos e enfermeiros qualificados e com vontade de trabalhar e atender pessoas, pacientes, seres humanos pobres (e alguns ricos também, que pagam plano de saúde por falta de um sistema de saúde digno), que moram em comunidades periféricas. É preciso humanizar o sistema.

Foram gastos, segundo publicação no site do governo, 70 milhões de reais no anel viário da 4ª ponte. Estudiosos apontam que a obra não desafogará o trânsito em Rio Branco. Se nossos representantes (?) pensassem para o futuro e tivessem a coragem de investir uma grana dessas na UFAC, por exemplo, que está lá, esquecida e abandonada, eu os chamaria de inteligentes e ficaria de pé para aplaudi-los. Mas esse não é o caso.
Dizem que foram 200 mil para a vinda do Latino, que cantará (?) na inauguração da ponte. Se for verdade... melhor nem comentar.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Palocci é nº 1 de Dilma

Alguns dias atrás, escrevi aqui alguma coisa sobre Antônio Palocci. Recortei um trecho de reportagem que o denunciava como um dos principais personagens do escândalo do mensalão. Disse, ainda, que “discurso político é pura lábia”. Sendo “pura lábia”, vou mais longe: “discurso político é descarado”. Leia esta notícia.
Antonio Palocci deve marcar sua volta ao governo em grande estilo: com gabinete no Palácio do Planalto e apontado como assessor número 1 da presidente eleita Dilma Rousseff. Mesmo ausente no encontro de Dilma Rousseff com o partido, nesta sexta-feira, Palocci foi o assunto de conversas entre petistas pelo papel que desempenhou na campanha e nesta fase de organização de governo – o que lhe deve assegurar um cargo muito próximo à presidente eleita.
Na encontro com o PT para agradecer o apoio durante a campanha, Dilma Rousseff fez questão de mencionar os coordenadores de sua campanha – Antonio Palocci, José Eduardo Dutra e José Eduardo Cardoso -, aos quais deu o apelido (carinhoso, disse) de “três porquinhos”. Está faltando aqui um deles, o Palocci”, disse.

Como eu disse no texto anterior que escrevi neste espaço, Dilma havia dito, em seus debates (como todo mundo assistiu), que combateria diretamente a corrupção no Congresso Nacional. Como se pode ver, ela já começou...

Uma conclusão óbvia: não se pode esperar que o governo de Dilma seja menos corrupto que o de Lula. A comparação que a presidenta eleita faz de Palocci com um dos três porquinhos não me remete ao conto infantil, a não ser à ideia de lama, de sujeira, de algo que gera nojo, de bosta mesmo. 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Avatar


Todos já viram, imagino. Eu é que estava perdendo; mas ontem tive o prazer de ver Avatar. O filme é um pouco longo, mas extraordinário.

Fiquei encantado com o tal Planeta de Pandora. As cores do filme são excepcionais. De alguma forma, o filme me reporta à ideia de paraíso. O desenrolar da história é fascinante, emociona.


Se não pudesse dizer mais nada sobre esta película, usaria uma expressão de Carlos Diegues, cineasta brasileiro: o filme de James Cameron é "um show de audiovisual".

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Bela foto

Homens e cachorros

Homem-cachorro
Ontem, no programa Milênio, na Globo News, o escritor e jornalista britânico Malcolm Gladwell apresentou, dentre suas três obras (que, juntas, venderam 10 milhões de cópias), o livro "O que se passa na cabeça dos cachorros".

Quando abro os jornais de Rio Branco, hoje cedo, percebo que há uma ligação direta ou indireta do título do livro daquele autor com as imagens que vejo nos principais jornais da capital. Tais imagens me levam a pensar que, depois de algumas doses (nada contra quem bebe com moderação e sem perder o juízo), a maioria das pessoas pensa e age como cachorros. Grande parte delas passa a ter reações completamente instintivas e não pensa antes de agir, antes de fazer as besteiras que faz.

Assim, um simples estranhamento entre duas pessoas é motivo suficiente para um esfaqueamento. Isso me lembra outro título, desta vez de um filme de Carlos Diegues – Nenhum Motivo Explica a Guerra.

Pretendo comprar os livros de Malcolm Gladwell – tenho enorme interesse em saber o que se passa na cabeça desses dois bi-chos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Caixa e o Sacconi se merecem

O Sacconi reclamou, a Caixa o contratou (rsrsr)
Leia-se, a seguir, o que escreveu o professor e gramático Luiz Antonio Sacconi, em seu blogue, sobre a Caixa Econômica Federal:
A Caixa e a concordância
Postado por Prof. Sacconi, 28 Outubro, 2008  
A Caixa Econômica Federal, de tempos em tempos, “agracia-nos” com gafes elementares. Uma delas é o que estampa nos volantes da loteria: “Mega-Sena”. Ora, mega- é um elemento lingüístico que não exige hífen em nenhuma circunstância. Alguém da Caixa ou da agência de publicidade da Caixa deveria saber disso. Até agora, porém, parece que não sabe.
Nesta semana, a Caixa anuncia nas principais revistas do país. Assim:
A CAIXA não aumentou as taxas de juros de suas linhas de crédito para “pessoa física e jurídica”.
Eu gostaria de saber onde é que existe esse tipo de pessoa, isto é, que seja ao mesmo tempo física e jurídica. Se a Caixa tivesse em seu meio ou na sua agência de publicidade alguma pessoa que conhecesse regras elementares da nossa língua, certamente saberia que, quando um substantivo se refere a dois ou mais adjetivos, deve estar no plural. Se não se pode ter, ao mesmo tempo, uma bandeira argentina e brasileira; se não se pode ter, ao mesmo tempo, uma pessoa jovem e idosa, por que haveríamos de ter, ao mesmo tempo, uma pessoa física e jurídica? Se a Caixa ou a sua agência de publicidade conseguirem responder a essa pergunta, estejam certos de que as pessoas física e jurídica agradecem
Devido a um erro de assinatura, de assinatura de revista (faço questão de especificar, porque, de repente, se o Sacconi lê o me blogue, pode achar que estou falando de rubrica ou de assinatura do nome), por esses dias, recebi em minhas mãos, em forma de brinde, a Novíssima Gramática Ilustrada Sacconi. Quando li a capa, imaginem quem patrocinou essa publicação: 1...2...3... a Caixa Econômica Federal. Pensei comigo, na hora: “a Caixa deve ter lido o blogue do Sacconi.”
Leiam o que Sírio Possenti, professor da Unicamp, escreveu, um dia desses, sobre este gramático. Segue o link: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2658525-EI8425,00-Nao+erre+mais+Sacconi.html

domingo, 14 de novembro de 2010

Discurso político é pura lábia


Dilma Lula da Silva
É surpreendente o número de mentiras descaradas que são ditas em eleições, em campanhas políticas. Aliás, essa é uma das mais fortes estratégias para se ganhar eleição. Discursos mais ou menos sérios ou verdadeiros, geralmente, não são levados a sério pelo povo. Como exemplo das últimas eleições, podemos mencionar as falas de Cristovam Buarque, Heloísa Helena e Plínio de Arruda Sampaio.
Apesar de todas as contradições e escândalos em torno da campanha de Dilma, a candidata do PT conseguiu convencer os quase 200 milhões de brasileiros de que seria boa para o país. Uma tese: um bom discurso não é exatamente um discurso verdadeiro. A persuasão não tem, necessariamente, compromisso com a verdade. No passado, Aristóteles nos alertou sobre isso.
Dos debates televisivos que vi, lembro-me muito bem de uma das tantas afirmações de Dilma. Disse, em algum canal de tevê (não me lembro em qual), que uma de suas estratégias para diminuir a corrupção política no Brasil e evitar escândalos como os que ocorreram no governo Lula, seria eliminar de seu governo candidatos com ficha suja.
Na lista publicada esta semana com os nomes dos indicados a assumir ministérios no governo da candidata eleita, aparece, entre os primeiros, para que não houvesse sequer possibilidade de esquecimento, o nome de Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, um dos maiores influentes do Governo Federal, um dos envolvidos no escândalo do mensalão. Veja o que disseram os jornais sobre este homem:


Poucos dias antes do segundo turno das eleições que reelegeram Lula em 2006, o Ministério Público de São Paulo denunciou Palocci, recém-eleito deputado federal. Promotores pediram à Justiça a sua prisão preventiva por crimes de formação de quadrilha, peculato e adulteração de documentos públicos. Acusaram-no de chefiar o grupo que fraudou contratos de limpeza pública na Prefeitura de Ribeirão, provocando prejuízos de R$ 30,7 milhões. A ação criminal pediu a condenação do ex-ministro a 225 anos de prisão.
Em 2007, Palocci foi condenado em primeira instância pela Justiça, por duas irregularidades cometidas em Ribeirão: a doação de materiais de construção para a Associação dos Funcionários da USP (Universidade de São Paulo) e o polêmico projeto Vale dos Rios, que previa a construção de uma ponte suspensa no centro da cidade. As obras não andaram. Foram gastos R$ 4,7 milhões na iniciativa, mas só teria havido justificativa para R$ 323 mil. O TCE (Tribunal de Contas do Estado) considerou irregulares a dispensa de licitação, o contrato e as despesas autorizadas e efetuadas por Palocci.
Há quem ache que os jornais são muito maldosos e que acredite nas versões apresentadas por Palocci, que desmentiu os fatos. Eu não acredito nele. Sei do estrago que um jornal pode causar na vida de alguém, as seqüelas são irreparáveis. Mas, nesse caso, as denúncias e os fatos vieram a público. Prefiro confiar nos jornais a ter que acreditar em Palocci... ou em sua amiga Dilma.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Uma entrevista boa de se ver

Ontem, ao chegar da aula muito cansado, depois das 22h, fiz questão de assistir, na tevê cultura, a entrevista de Contardo Calligaris, um dos grandes psicanalistas da atualidade.

Contardo escreve sobre política, comportamentos sociais, enfim, sobre conflitos em sociedade.Gosto de suas análises, em geral são bastante coerentes. Teria assistido todo o programa, se não estivesse com tanto sono.

O psicanalista falou sobre a eleição de Dilma, sobre o governos de Lula e fez uma análise superficial sobre as eleições 2010 e seus candidatos, sempre fazendo referência a pontos importantes da história do Brasil e de outros países.

Quem se interessar, pode ver todos os blocos do programa no sítio da Tv Cultura. Segue o link: http://www.tvcultura.com.br/rodaviva/


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Quem é mais irônica, a lei ou a realidade?


EXISTE lei para regulamentar, proteger ou amparar quase tudo neste país. Leis que protegem a vida, que protegem animais, que regulam o uso da floresta, etc. A maioria é uma piada ou, no mínimo, hipocrisia ou ironia.
Por exemplo, a lei 9394, famosa LDBEN, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que regula a educação no Brasil, estabelece, no artigo 3º, inciso VII, a valorização do profissional de educação escolar; em seguida, no inciso IX, prevê a garantia de padrão de qualidade no ensino.
Ora, todos nós, sobretudo nós professores, sabemos que o professor (que está entre os trabalhadores que exercem as chamadas profissões de risco), é dos profissionais mais esquecidos e desvalorizados no Brasil. Falar em valorização do profissional escolar é uma piada. Este trabalha, normalmente, em péssimas condições e com inúmeras dificuldades (espero que não haja nenhum desses funcionários babões da SEE lendo meu texto, porque logo se manifestam os defensores da maquiagem educacional).
Depois, querer garantir padrão de qualidade em salas abarrotadas de alunos, com até 43 por sala, na maioria das escolas, tem mais a ver com sarcasmo do que com qualidade educacional. Duvido que quem escreveu esta lei seja professor ou tenha alguma experiência de sala de aula. Se for, é um hipócrita profissional.
Enquanto não houver uma revolução educacional neste país, não iremos além de falar em melhorias. Melhorias podem até ocorrer – elas maquiam a educação; mas, mudança mesmo, padrão de qualidade e referência educacional, só passarão a existir quando uma revolução nas bases educacionais for feita.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Só 'prá' (não) variar

Saiu o tão esperado edital do concurso para professores da educação. Depois de muito hesitar, por achar que não valeria a pena, que desperdiçaria dinheiro, matriculei-me num desses pré-concursos da vida. Isso porque já chego do trabalho cansado, sem muita disposição para estudar sozinho.

Antes de falar sobre nossa primeira aula, ontem, vou dizer o que penso sobre concursos públicos e vestibulares, pondo em questão, sobretudo, o ensino de língua portuguesa.

Sou meio avesso ao modelo de avaliação que temos em ambos os tipos de certame que mencionei, principalmente ao modelo de avaliação da competência lingüística dos candidatos, (se é que há avaliação).

A tradição gramatical aprendeu a tratar a língua como se fosse exata, perfeita, mais ou menos como a matemática, onde 1 + 1=2 -- lembrei-me agora das palavras do professor do pré-vestibular, que disse ser o inglês a língua mais perfeita do mundo, porque cada expressão designa uma só coisa (sic!). E os professores de língua portuguesa, que nessa tradição se baseiam, reproduzem isso na sala de aula. Na verdade, sabemos que há estudiosos que provam que mesmo a matemática não é exata. É exata porque queremos que seja. Um matemático explicaria melhor.

O fato é que, de maneira geral, o atual ensino de língua materna não atinge seu alvo primeiro, qual seja: desenvolver a competência lingüística falada e escrita dos alunos e levá-los a ler com proficiência. Dito de forma mais clara: fazer com que os alunos conheçam e tenham condições de utilizar os mais variados tipos de textos e discursos falados/escritos e saiam do ensino médio pelo menos sabendo ler direito, tendo passado os olhos ao menos nas poesias contemporâneas.

Essa dura realidade do nosso ensino de língua se deve, principalmente, ao modo como a língua é concebida e, conseqüentemente, ensinada pelos professores na escola. O que quero dizer é que nossos alunos leem pouco e quase nunca escrevem. E me refiro à escola, não fazem isso na escola, que seria, teoricamente, o lugar propício para tais atividades. Se não fazem isso na escola, como farão em casa? Se a maioria dos professores não cria condições para que se realizem essas atividades, quem as criará, o aluno? Muito pouco provável.

E o que os vestibulares e concursos têm a ver com isso? Tudo. Cobram o que a escola (com muita dificuldade) ensina. Digo isso porque até esse modelo de ensino quase matemático da língua portuguesa é precário. A prova é que os alunos terminam o nível médio e não sabem quase nada de objetos diretos, indiretos, advérbios, orações subordinadas, sobre aquela parafernália toda que presenciamos durante toda nossa vida escolar.

Portanto, concursos públicos e vestibulares não avaliam o desempenho lingüístico dos estudantes. É claro que tem havido alguma mudança (já exploram conhecimentos textuais em algumas provas) e que os vestibulares cobram uma redação. Mas como os alunos saberão escrever se não foram ensinados e não praticam escrita em sala de aula? Talvez isso explique o alto índice de reprovação na prova de redação dos vestibulares. A bem da verdade, os concursos só seguem a estrutura de ensino que temos. Eles vão exigir o que dizemos que ensinamos. Assim, é preciso mudar o ensino, as políticas de ensino de língua materna, e depois, com muito suor, mudar os concursos, os conteúdos dos concursos.

Ontem fui ao pré-vestibular, ouvir mais ou menos o que leio nas gramáticas, esperava eu. Entristeci-me. Não por que esperasse ouvir alguma novidade sobre ensino de língua materna em um pré-vestibular (seria esperar demais); mas por ver que as coisas permanecem praticamente inalteradas, depois de séculos e séculos de tantos e tantos estudos publicados, de centenas e centenas de teóricos terem escrito o que escreveram. 

Mas o que, de fato, ouvi lá? Nada muito diferente do que já esperava ouvir: ouvi sobre regras. Algumas descabidas, outras coerentes. Entendo que concursos cobram isso, infelizmente cobram. Mas, por que reduzem a isso a língua portuguesa? Penso que até a oitava série não se devesse falar de análise gramatical, ao menos de questões mais complexas. Nós professores, precisaríamos intervir, quando fosse preciso, com uma explicação que sanasse a dúvida do aluno. O resto do tempo deveria ser ocupado com leitura, muita leitura, e escrita, muita escrita.

Poderia comentar vários deslizes e contradições da aula de ontem do professor do pré-vestibular, do qual não me recordo o nome. Poderia mencionar várias aberrações lingüísticas ditas pelo mesmo na aula de ontem. Poderia contestar várias de suas defesas e alardes. Poderia ter me levantado ontem, naquela sala de aula, e dito aos alunos (que desconfio que sejam realmente formados em letras e não saibam de questões tão elementares que qualquer leitor de gramática sabe) que podem, quando o professor dizia que eles não podem, em hipótese alguma, dizer essa ou aquela expressão; poderia confrontar o mestre quando disse que “hoje os gramáticos já aceitam...”, tendo dito, minutos antes, que o povo é quem manda na língua. Poderia ter feito tudo isso, mas não o fiz. Prefiro deixar que aquele professor acorde do sono que dorme e comece a enxergar a língua como ela é, real, utilizada por quase duzentos milhões de brasileiros, de diversas maneiras e com suas inúmeras variedades, que são responsáveis por toda sua grandeza e riqueza.

Enfim, saí daquela sala com a leve impressão de que investi (ou gastei mesmo) dinheiro em (com) coisa errada. Mas vou pensar positivo, vou ser otimista e continuar indo às aulas, sentando sempre lá atrás e de biquinho fechado, para não ser inconveniente. Afinal, talvez seja cedo para fazer análises ou críticas. Talvez meus comentários estejam equivocados (questionamentos são bem-vindos, neste espaço). Talvez eu tenha me precipitado ao comentar a primeira imagem. Para mim, foi a que ficou.

sábado, 6 de novembro de 2010

Digestão intelectual

Olavo de Carvalho

Tudo o que escrevi, incluindo o mais abstrato, nasceu direto da experiência -- do esforço de traduzir em símbolos e conceitos aquilo que a vida mesma parecia me dizer.

Não me lembro de ter jamais reagido de maneira puramente intelectual a um estímulo intelectual, muito menos de maneira verbal a um estímulo verbal. Os produtos culturais, livros, idéias, fórmulas, não exercem sobre mim nenhum impacto antes de uma longa digestão vivencial. Minha primeira leitura ou audição é inteiramente passiva e até inocente. Entrego-me indefeso e sem reação ao que estou lendo, ouvindo, vendo. Deixo que tudo se acumule na memória e que as coisas sem interesse acabem escoando sozinhas pelo ralo do esquecimento. As que sobram bóiam um tempo à superfície da consciência, afundam, somem, voltam à tona, reaparecem em sonhos ou em clarões fugazes, dias ou semanas depois. Nesse ínterim sofreram alterações, adaptaram-se de algum modo ao meu metabolismo interior. Quando voltam, já não são criaturas estranhas: são habitantes do meu cenário pessoal. Mesmo então, não me ocupo delas deliberadamente. Deixo que repousem, como livros nas estantes, até o momento em que pareçam ter alguma utilidade. Isto acontece quando algum fato, espoucando no mundo exterior ou brotando espontaneamente da memória, se aproxima delas por semelhança, contraste ou alguma outra razão, exigindo ser expresso nos termos delas ou rejeitando-os violentamente. É só quando solicitam repetidamente minha atenção que começo realmente a “pensar” nelas. “Pensar” não é bem o termo. Tento, primeiro, exprimi-las, dizer o que dizem. Se tudo vai bem, anoto-as, mas só para fins de registro. Tornaram-se minhas, mas ainda não as assumo como crenças pessoais: são só impressões, que o desenrolar da vida pode desmentir, alterar, ampliar, fundir. Às vezes, porém, não chegam sequer a esse ponto. Na hora de exprimi-las, noto que não consigo dizê-las numa voz interior que eu reconheça como minha. Fazem soar uma nota falsa. Em algum ponto estão raspando, forçando passagem, estranguladas num conduto mental que as rejeita. Isto ainda não tem nada a ver com recusa intelectual, com negação consciente. É um simples sentimento de falta de naturalidade, um desconforto quase físico, como se eu tentasse engolir um bife de plástico. Elas apenas ainda não se harmonizaram o bastante com o meu modo de ser para que eu possa fazer delas objeto de discussão interior, exame refletido, concordância ou discordância. Então decreto sumariamente que não as compreendi, e deposito-as num arquivo de encrencas, à espera de que o curso das coisas, as leituras ou a sorte as completem, as corrijam ou, de algum modo, as digam melhor. Quanto às outras, as de expressão fácil, é só quando chego a perceber claramente suas implicações na minha vida real que começam a significar algo para mim. E é somente aí que começa o trabalho verdadeiramente intelectual de examiná-las, criticá-las, conferi-las com as palavras dos mestres e o estado da ciência, julgá-las e, por fim, explicá-las oralmente ou por escrito.

Quem vê a prontidão das minhas respostas não imagina a lerdeza e a complicação do meu processo mental. É que não me meto a discutir senão assuntos longamente metabolizados, tornados familiares não só à minha memória mas ao meu modo de ser. Então as respostas vêm fáceis, parecendo improvisos, lampejos gratuitos de um dom natural de compreender num relançe. Mas não são nada disso: são frutos de um trabalhoso “saber de experiência feito”, de uma complexa e lenta ruminação bovina. Não que esta me seja desagradável e dolorosa. Ao contrário: ela sim me é natural, é meu autêntico ritmo interior, o modo de ser arraigado e renitente de um típico “secundário” da caracterologia de Le Senne.
Justamente por isso não me reconheço no “Pensador” de Rodin. 

Aquela concentração dolorida, aquela crispação não têm nada a ver comigo. Meu processo é lento, profundo e confortável como o silencioso operar das funções orgânicas. Tem seus percalços, suas perturbações, como todos os processos naturais. Mas recusa-se obstinadamente a sair das linhas que o giro normal do cosmos lhe prescreveu. Nada me desagrada mais do que solicitarem minha atenção para o mundo exterior quando estou imerso no meu secreto mar de símbolos. Se o tempo é a substância da vida, a atenção é a seiva do espírito. Detesto que me suguem a seiva no instante em que a estou renovando por um mergulho no fundo da natureza das coisas tal como ela se manifesta na minha própria natureza.

O “pensar”, para mim, é só a última e mais superficial etapa de um trabalho complicado que passa pelas sensações, pela memória, pelos sentimentos, pela imaginação. Pensar é fácil, depois que você já escavou o material do fundo da experiência. O problema é que nossos intelectuais de hoje, mesmo quando pensam direito, pensam sem material. Sua experiência é de superfície, de segunda mão, é experiência “cultural” colhida da conversação comum e dos “topoi”. No que escrevem há idéias, opiniões: nenhuma “impressão autêntica”, como as chamava Saul Bellow.

Por isso também é raro que eu consiga escrever algo que já não tenha falado. Com muitos escritores acontece o contrário: se falam, perdem a substância do que iam escrever, como numa ejaculação precoce, num presente-suspresa prematuramente revelado. 

Precisam do segredo para criar. Mas minhas palavras são secretas por natureza. Brotam de uma obscura elaboração orgânica e não poderiam sair da toca antes do tempo, mesmo que quisessem. A expressão escrita não me vem sem aquela preparação indispensável que é a tentativa oral, seja em conversas informais, seja em aula. É impossível passar direto de uma vivência quase corporal à expressão escrita. A fala em voz alta, com os gestos e entonações que a sublinham, é um intermediário indispensável. Só consigo escrever quando sei que gestos e entonações a frase escrita deve imitar para que nelas transpareça a pessoa inteira do seu autor. Pois só a pessoa inteira pode dar testemunho da realidade que presenciou.

Registro estas coisas não porque elas sejam interessantes em si mesmas, mas porque podem ajudar alguns leitores, por semelhança ou contraste, a observar e compreender melhor o seu próprio processo interior. Cada um de nós é, na orquestra das comunicações humanas, um só instrumento: um violoncelo, uma tuba, uma flauta, um tambor. Cada um tem suas exigências próprias, que é preciso compreender para poder afiná-lo.

Da minha parte, estou persuadido de ser uma trompa de caça, que não clama do alto das amuradas, como os trompetes, nem geme ao pé dos ouvidos apaixonados, como os violinos, mas ressoa do fundo da floresta, indicando o caminho aos caçadores ou alertando para a proximidade dos animais de presa.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O poder da palavra


Ontem assisti a uma entrevista de alto nível – teria sido melhor, não fossem os entrevistadores. O programa era o clássico Roda Viva, exibido pela tevê cultura. O entrevistado era José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, que respondeu a perguntas de Marília Gabriela, apresentadora do programa, e de outros quatro jornalistas, estes: Augusto Nunes, Paulo Moreira Leite, Guilherme Fiuza e Sérgio Lírio.

José Dirceu é um homem público, que se tornou mais público ainda (no outro sentido deste termo) depois do escândalo do mensalão em 2005, que envolveu diversas figuras como Marcos Valério, Delúbio Soares e Antônio Palocci.

O motivo deste texto, como se nota, é José Dirceu, um homem falante. Sua oratória impressiona. Advogado e hoje consultor internacional, como ele diz, é homem eloqüente, bom orador. Como disse anteriormente, a entrevista teria sido melhor se os jornalistas não fossem tão fracos, se fossem outros, como Arnaldo Jabor, por exemplo, ou se tivéssemos a sorte de ver Olavo de Carvalho, filósofo brasileiro, confrontar Zé Dirceu.

Aqueles quatro jornalistas foram engolidos pelo discurso e pelas respostas de Zé, homem sobre o qual pesam acusações de chefia de quadrilha, entre inúmeras outras. Os fatos mencionados pelos entrevistadores não foram suficientes para desmascarar aquele político petista, que, a meu ver, foi o cabeça de todos os desvios públicos de 2005 (será que os desvios já se encerraram?), que ocorreram no governo do presidente Lula. Mas isso é outro assunto.

O que não posso deixar de dizer é que José Dirceu deixou claro o poder da palavra. Mostrou-nos o quanto pode ser poderoso quem tem um bom discurso (ou uma boa lábia, que não deixa de ser um discurso) na ponta da língua. Seria um bom exemplo para ser comparado a Jorge Viana, senador eleito no Acre. Mas isso também é outro assunto.

Para os que se interessarem, abaixo o link da entrevisa de Zé. E semana que vem, o entrevistado será Contardo Calligaris, um dos maiores pensadores deste país, na minha opinião. Colarei, na próxima postagem, um texto deste autor. Um texto que nos ensina a pensar. Alguns acharão longo, mas leiam, vale a pena!


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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Uma ou outra vogal

Ultimamente, tenho usado este espaço muito poucas vezes. Quase já não escrevo mais. É que assumi um cargo concursado e isso me toma quase todo o tempo semanal. Outras vezes não é tempo, é preguiça ou cansaço mesmo. Mais aquele do que este, revelo.

Mas esses dias andei repensando minha vida e minha carreira profissional. É necessário que se enxergue novos rumos, novos horizontes, diz-me uma música da banda Engenheiros do Hawaii, e é verdade. Novos horizontes, se não for isso o que será?

Estou voltando à minha rotina, aos poucos. À minha vida de leitura, de escrita, filmes, bons filmes, músicas. Estou voltando a fazer o que me dá motivos para continuar vivendo. O que alimenta a minha alma. Isso tem me trazido grande satisfação pessoal.