segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Abaixo do mínimo


Sempre critiquei os serviços de saúde pública brasileira. Mais especificamente os serviços oferecidos no Acre, onde moro. Quando alguém que acredita em Papai Noel diz que a Saúde no Acre melhorou, penso comigo: se melhorou, quem a melhorou não está fazendo mais do que sua obrigação. E se piorasse, estaríamos lascados. O fato é que, quando alguém comenta coisas assim, não me animo muito, e logo constato que melhoraram a aparência, não os serviços. Chamo de ‘melhora de faixada’.

Matéria do Jornal A Tribuna mostrou hoje, 12 de setembro, que 8 prefeituras deixaram de investir o mínimo na Saúde.  Diz que levantamento feito pelo Tribunal de Contas do Estado revelou falta de compromisso. Meus botões revelaram isso há muitos anos.

De acordo com os dados levantados pelo TCE, dados de prestações de contas dos municípios em 2010, Porto Walter levou o 1º lugar no ranking dos municípios que menos investiram em Saúde: investiu em atendimento médico apenas 11,50% de todo o orçamento do município, quando o mínimo seria 15%. Epitaciolândia conseguiu o 2º lugar: investiu 12,55%. Cruzeiro do Sul, Feijó e Plácido sequer conseguiram comprovar todos os investimentos para que fossem contabilizados - os dados fornecidos por estes municípios foram considerados inconsistentes.

Dos municípios que investiram acima de 15%, cumpriram apenas as formalidades da lei para não serem punidos. É dose, meus amigos!!
O que fazer quando não se cumpre nem o mínimo?

Confira o ranking dos municípios acrianos que menos investiram em Saúde Pública, divulgado pelo A Tribuna:

Porto Walter: 11,50%;
Epitaciolândia: 12,55%;
Rodrigues Alves: 13,22%;
Jordão: 13,80%;
Xapuri: 13,90%;
Rio Branco: 15,20%; (quase que não chega aos 15%);
Tarauacá: 15,40%;
Assis Brasil: 15,56%;
Bujari: 15,63%;
Mâncio Lima: 15,64;
Manoel Urbano: 15,93%;
Sena Madureira: 16,52%;
Senador Guiomard: 17,55%;
Santa Rosa do Purus: 19,37;
Capixaba: 24,46%;
Cruzeiro do Sul: dados inconsistentes;
Feijó: dados inconsistentes;
Plácido de Castro: dados inconsistentes;
Acrelândia: dados ainda não analisados;
Brasiléia: dados ainda não analisados;
Marechal Thaumaturgo: dados ainda não analisados;
Porto Acre: dados ainda não analisados;

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Dor e Revolta

O mundo passa por dias terríveis. Há dias e lugares mais terríveis que outros, é verdade. Mas, no geral, o mundo caminha para um colapso. A cada dia, morar no Brasil, por exemplo, se torna mais e mais um verdadeiro desafio. É preciso ter muita coragem para viver aqui.

Nos jornais, leio a notícia do covarde assassinato da juíza Patrícia Acioli. Motoqueiros a cercaram e a fuzilaram na porta da casa dela, em Niterói, RJ. Foram 21 disparos, informou a polícia. O motivo? Ela mandava prender policiais corruptos e milicianos. Recentemente mandou para trás das grades 10 acusados de participarem do crime organizado no Rio de Janeiro. Ser ou tentar ser honesto pode custar muito, mas muito caro.

Um fato como este gera tanta dor e revolta que temos vontade de fazer justiça. Temos vontade de pegar os responsáveis pelo crime e fuzilá-los, assim como foi feito com a juíza.

Patrícia Acioli era ‘linha dura’, informam os jornais. Acioli fazia justiça, por isso morreu brutalmente. Parece mesmo que a bandidagem está dominando o Rio de Janeiro e outras cidades do Brasil. Se não cuidarmos, eles serão(?) eleitos prefeitos, governadores, vereadores, etc.

À família daquela juíza sobraram duas coisas: dor e revolta. Nada mais.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Arremedo de Poesia


Felicidade

O que é ser feliz? Quando seremos felizes? Com o quê?
O que significa felicidade? O que é ser feliz?
É ter o que queremos? É ter o que não temos?
Ser feliz é ter muitas pessoas ao nosso redor? É ter muito dinheiro?

É ter uma casa para morar? É ter um carro? É ter a melhor casa? É ter o melhor carro?
Mas o que é mesmo ter felicidade, estar feliz?
É ser um importante personagem no cenário mundial, como um jogador de futebol, por exemplo? É ser um personagem importante da televisão? É ser um grande cantor? É ser um empresário de sucesso? Aliás, o que tem o sucesso com a verdadeira felicidade?

Onde mora a tal felicidade de que tanto falam e que tantos almejam? Ela mora em quê?
Ser feliz é ser evangélico, é ser budista, é servir a algum deus, é se prostrar diante de alguém? É pertencer a algum grupo de religiosos? É andar pelo mundo em nome de Deus?
Ser feliz é ser sozinho, é ser honesto, é ser pilantra? É fazer sexo por dinheiro para ter o que não teria ou conseguir comprar o que não compraria com os ganhos de outro emprego?

E a felicidade, é para sempre, é eterna? Não? Sim? É momentânea, passageira? Por quê?
Felicidade depende de coisas, depende de alguém, de algum ser? Que coisas são essas, quem é esse alguém, que ser é esse? O que nos faz plenamente felizes? O que é capaz de nos contentar inteiramente? Um casamento? Um amor? O quê?

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Ideologia Dominante

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Uma das teses mais clássicas do marxismo sobre ideologia tem forma de slogan: a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Os estudiosos do funcionamento da sociedade que adotam teses marxistas (não surgiu nada melhor para explicar nosso dia a dia, seja o da TV, seja o dos mercados) conferem um lugar especial às ideologias, embora seu postulado fundamental seja o de que são as relações econômicas que comandam a história, em última instância. Para que as engrenagens econômicas funcionem, é preciso que os cidadãos acreditem que elas são as que devem ser (nada como ler Delfim Neto para convencer-se de que os economistas são ideólogos, não cientistas).

Bourdieu e Passeron produziram obra notável, na década de 70 (A reprodução), cuja tese é que a escola contribui fortemente para reproduzir a sociedade a que serve. Faz isso reproduzindo sua ideologia. Invariavelmente a escola "prova" que os mais pobres são também os mais incapazes. Como ela faz isso? Analisando o desempenho escolar a partir de critérios (de saberes) de classe, desigualmente distribuídos.

Dou um exemplo banalíssimo, e antigo: no livro didático do meu segundo ano de escola, no interior de Santa Catarina, em uma comunidade totalmente rural, líamos uma narrativa chamada "Férias na roça". Meninos da cidade iam a uma fazenda para apreciar a natureza e sentir o cheiro acre dos estábulos. Ora, cheiro acre dos estábulos!! Nem vou mencionar os textos que falam (falavam) da família: o pai provia o sustento, a mãe cuidava do lar e os dois filhos, um menino e uma menina (nesta ordem), brincavam e estudavam. A empregada, sempre negra, fazia o serviço pesado e umas comidinhas especiais. Tudo parecia natural.


A mesma coisa acontece com o ensino de português: a língua dos menos favorecidos (!!) é considerada errada. E nem se deve falar dela na escola, segundo os "sábios". Imagine "defendê-la"! Só na universidade é que se pode saber a "fala popular" segue regras. O povo não pode saber disso! Nem outros intelectuais! Só os linguistas! Para o povo, ditados bobos, que provam que não sabe nada. Soletrando neles! Um dos argumentos que frequentaram algumas páginas que discutiram o livro do MEC era que o próprio povo quer aprender língua padrão, o português correto. Qualquer pesquisa mostraria isso, dizia-se. Supostamente, só os linguistas quereriam "ensinar errado".

Não adiantou dizer-lhes que nenhum linguista defende esta tese (e eles acham que sabem ler!). Parece ser mesmo verdade que "o povo" quer aprender a falar e escrever corretamente. Por quê? Pelas mesmas razões que o levam a querer comer melhor, vestir-se melhor, morar melhor, viajar mais, comprar computador e TV de tela plana. E, eventualmente, a votar contra a reforma agrária e pelo endurecimento da política de segurança. É a ideologia da classe dominante incutida na classe dominada. Parece tão antigo! Mas é tão verdadeiro! Só saiu de moda. Até porque muitos mudaram de lado.

Quando os ricos são defendidos pelos pobres, conseguiram sua maior façanha: convencê-los de que eles não são apenas ricos; também são os únicos que estão certos! Em relação a tudo: da ortografia à quantidade de mata que pode eliminar.

O ensino de língua é ideológico, sim senhor.
Escrevo isso para esclarecer de novo aos que inalaram o marxismo em bares que a discordância dos ataques ao tal livro do MEC não configura esquerdismo.

Uma analogia

No Caderno Ilustríssima (que nome!), da Folha de S.Paulo de domingo, dia 26/06, Joel Rufino dos Santos conta uma história que hoje parece engraçada. Estava preso, em 1965, suspeito de subversão. Um dia, foi tirado da cela para ter seu cabelo cortado (cabeludos não eram bem vistos!). O barbeiro quis saber do tenente que tomava conta de Rufino o que ele tinha feito. O militar lhe disse que Rufino tinha sido convencido por um general comunista a reescrever a história do Brasil. "Como assim?", perguntou o barbeiro. "Eles escreveram, por exemplo, que Pedro Álvares Cabral era viado!" respondeu o tenente.

Assim que li o parágrafo, pensei: "Imaginem se um Fulano como esse tenente decide explicar a um barbeiro cético o que professores de português estão escrevendo nos livros do MEC". Talvez o castigo não ficasse no corte de cabelos, como não ficou para muitos, naqueles tempos. Houve censores que quiseram prender Sófocles, outros que queriam saber do paradeiro de Immanuel Kant. Qualquer livro de capa vermelha era suspeito, mesmo que tratasse de culinária.

O obscurantismo é de doer. 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Seleção de Neymar

Seleção do 'Bola nas Costas'. Belas montagens. Os mais engraçados que achei foram o Luceymar Huck e o Galeymar Bueno. Curta!













quinta-feira, 30 de junho de 2011

Bela Imagem

China inaugurou hoje ponte mais longa do mundo. A estrutura, com 42 km em Qingdao, levou quatro anos para ser construída e custou US$ 2,3 bilhões. 

Ponte mais longa do mundo tem 42 km 

Quem fica sentado por muito tempo morre mais cedo, afirma revista científica

Sim. Pelo menos é o que dizem alguns estudos recentes. Problemas de postura e dores nas costas ficam pequenos perto dos riscos apontados pelos pesquisadores. De acordo com uma pesquisa  publicada na revista científica Medicine & Science in Sports & Exercise (Medicina e Ciência nos Esportes e Exercícios), repercutida pela revista Galileu, passar a maior parte do dia na cadeira aumenta em 54% as chances de um ataque cardíaco.

Segundo a organização Medical Billing & Coding, quem fica sentado por 6 ou mais horas por dia tem chance 40% maior de morrer nos próximos 15 anos do que quem fica menos de três horas por dia nessa posição. No infográfico cujo título é “Sentar está matando você”, há muito mais dados assustadores. Diz que sentar também nos faz mais gordos: gastamos apenas 1 caloria por minuto, enquanto a porcentagem de enzimas que ajudam a quebrar a gordura caem 90%. Depois de duas horas na cadeira, a taxa de “colesterol bom” fica 20% menor. E mais. Fazer exercícios físicos no tempo livre não nos livra do problema. Aqueles 30 minutos de esteira pela manhã? Esqueça, não é o bastante.

Texto na íntegra: Época

sábado, 25 de junho de 2011

Bela música, extraordinária interpretação

Música de Roberto Carlos. Extraordinária interpretação de Paula Fernandes, com todo seu lirismo. Aperte o play e curta!!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Os mais caros do mundo

Sexta-feira, 24. Já é noite. Estou em casa. E lá no teatro da FAAO, neste instante, neste exato momento, estão se apresentando nada mais nada menos que ‘Os melhores do mundo’. O espetáculo é ‘Sexo – a comédia’, certamente mais uma excelente produção daquele singular grupo de comediantes.
Eu, Tiago, se pudesse, ou melhor, se tivesse dinheiro, estaria lá, agora. Mas teatro, como quase tudo, ainda é muito caro no Acre; ainda é muito caro no Brasil. Não é todo fim de semana que temos R$ 80,00 por pessoa para pagar e poder ver um número teatral. 
Repare isso: tão exorbitante é o preço que nem é divulgado no cartaz de propaganda, para não assustar os 'clientes'.
A saída que encontro, nesse caso: baixar a peça da internet e assisti-la bem longe do palco ou cenário montado na FAAO: no sofá de minha casa.    

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Virou moda, agora


Comentário: Não bastasse a impunição e a roubalheira que descaradamente há neste país (propinas são pagas ao vivo, e os envolvidos sequer têm o 'trabalho' de depositar o dinheiro), agora virou moda a pancadaria nas Câmaras e Assembléias. Como diz um conhecido meu, este país é uma avacalhação mesmo!

terça-feira, 31 de maio de 2011

Livro de alfabetização não prega erro gramatical, diz Haddad

De Brasília
31/05/2011

O ministro Fernando Haddad (Educação) defendeu nesta terça-feira o livro "Por uma Vida Melhor", distribuído pelo governo federal a 4.236 escolas de educação de jovens e adultos.

A obra causou polêmica ao afirmar em um trecho sobre a diferença da linguagem oral e escrita: "Você pode estar se perguntando: 'Mas eu posso falar os livro?'. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico".

Alguns parlamentares, que chamaram Haddad a se explicar na comissão de Educação do Senado, afirmam que a obra, ao defender essa posição, é leniente com o erro. Para Marisa Serrano (PSDB-ES), o texto deveria deixar claro que é a norma culta que vai permitir ao aluno melhorar de vida.

Já Haddad disse que a obra não preconiza o erro, mas sim defende que há formas de falar adequadas a determinados contextos e que essa abordagem é tomada desde os parâmetros curriculares nacionais de 1997.

Ele disse ter ficado "assustado" com o fato de diversos críticos da obra terem depois reconhecido que não a tinham lido e citou estudiosos que defendem a abordagem do livro, como o diretor-executivo do Instituto FHC, Sérgio Fausto.

Fonte: Folha.com

Breve comentário: Eu não sei se a opinião de achar "normal" o livro 'Por uma vida melhor' é do próprio Haddad (ou se de algum assessor seu, o que não é totalmente improvável); independentemente disso, Fernando Haddad demonstrou, toda vez que se pronunciou sobre essa questão, ter mais sensatez linguística que a maioria dos que criticaram (sem ler) o livro.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Cancelada entrevista com Marina Silva


A entrevista com a ex-senadora Marina Silva no programa "Roda Viva" que seria exibida nesta segunda-feira foi cancelada por motivos de saúde. Segundo a assessoria da TV Cultura, uma nova data será agendada para a gravação do programa.

Em seu lugar, será entrevistado no programa o economista Eduardo Giannetti da Fonseca, vencedor de dois prêmios Jabuti e professor do Insper, em São Paulo. 

Fonte: Folha.com

Mosquito Antidengue na Bahia

Veja Online 
30/05/2011

Pelas ruas de terra do bairro de Itaberaba, em Juazeiro (BA), um carro com dois pesquisadores para a cada cem metros. Um deles desce e destampa um pote de onde saem cerca de 500 mosquitos Aedes aegypti, o transmissor da dengue. A cena se repete há três semanas e, até julho, a expectativa é de que sejam liberados 33.000 machos por semana. Depois, a ação subirá para 50.000 a 100.000 mosquitos por semana.

A "pulverização" de mosquitos foi repetida 22 vezes há duas semanas. O ritual faz parte de um projeto científico que causa expectativa na administração pública da saúde. "Se der o resultado esperado, podemos reduzir de maneira expressiva os números da dengue", avaliou o coordenador do projeto, Danilo Carvalho. "Não há dúvida de que o projeto é promissor", afirmou o diretor do Complexo Industrial e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, Zichy Moyses.

Mosquito transgênico - A chave dessa esperança está no mosquito solto no ambiente: é uma espécie transgênica que produz filhotes que morrem antes de chegar à vida adulta, quando podem transmitir a dengue. Na prática, a ciência patrocina o sexo entre mosquitos que geram filhotes incapazes de espalhar a doença. O ideal é que haja dez machos transgênicos para cada macho selvagem.

Íntegra do texto: Veja

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Virou notícia

Ao se divertirem com uma versão funk do Hino Nacional, recrutas exibem todo o 'respeito' e toda a 'honra' que têm pela pátria brasileira. O 'baile' ocorreu em Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul. Confiram!!


Comentário rápido: já notaram como ultimamente as notícias estão cada vez mais engraçadinhas?

Norma culta e ensino da língua: cizânia desnecessária

Por Thaís Nicoleti de Camargo
Da Folha de São Paulo
20/05/2011

É conhecida a dica de etiqueta segundo a qual se deve evitar discutir política e religião em jantares sociais. O motivo é que as convicções pessoais de cada um dividem o grupo em vez de uni-lo, nada mais inadequado quando o objetivo é confraternizar.

Pelo rumo que está tomando na mídia o debate sobre o ensino da língua materna, esse será o próximo tema tabu a ser barrado nas reuniões entre amigos.

A inacreditável partidarização do debate vem provocando cizânia desnecessariamente, já que, ao fim e ao cabo, todos têm o mesmo objetivo: ensinar a língua portuguesa. O que parece difícil de entender, porém, é o próprio conceito de língua.

Aferrados à ideia de que a língua é a norma culta, os detratores da linguística parecem prestes a queimar em praça pública o livro de Heloísa Ramos, cujos trechos divulgados na imprensa ensejaram a acalorada discussão. Nada mais disparatado, até porque o livro não elegeu como modelo a ser ensinado em aula as realizações próprias de uma variante oral popular. O "pecado mortal" do livro é mostrar que determinadas construções linguísticas existem e são empregadas com notável regularidade por muitas pessoas. Não seria esse um bom modo de entrar numa discussão mais madura e realista (para não dizer científica) sobre a língua?

É muito provável que os leitores deste texto jamais tenham dito algo como "os livro" ou "nós pega o peixe", mas é igualmente provável que ignorem a pronúncia da letra "r" final dos infinitivos, lendo "eu vou comprá", "não vou saí hoje" ou "ele não qué perdê tempo", embora escrevam corretamente as formas "comprar", "sair", "quer" e "perder".Também não é improvável que essas mesmas pessoas, escolarizadas e detentoras da variante culta da língua, iniciem frases com o pronome átono ("Me disseram que você estaria aqui"), usem o pronome "te" quando o tratamento é "você" ("Você não me viu, mas eu te vi"), empreguem os pronomes pessoais do caso reto de terceira pessoa (ele, ela, eles, elas) em função de objeto direto ("Encontrei ela na festa", "O pai trouxe eles aqui ontem") ou que usem o verbo "ter" com o sentido de "haver" ("Tinha muita gente na festa"). São "desobediências" ao padrão culto praticadas pelos próprios detentores da norma culta, mas nenhuma dessas realizações provoca a mesma indignação que o "nós pega os livro". Por que será?

Usar essas construções em situação de informalidade não significa não saber usar a norma culta nas situações em que ela é necessária. Queiramos ou não, não há como banir a oralidade ou as transformações da língua em seu curso natural. Quem hoje conjugar o verbo "impedir" de forma regular ("eu impido") será tachado de "ignorante", mas essa já foi a forma "correta" desse verbo. Sim, a norma culta muda - e o carro-chefe da mudança é a língua oral.

A literatura contemporânea tem dado guarida a várias manifestações da oralidade, que só estão na literatura porque estão na vida real. Na década de 20 do século passado, os modernistas já incluíam em seu projeto estético a redução da distância entre a língua oral e a escrita. Vale lembrar o poema de Oswald de Andrade intitulado "Pronominais": "Dê-me um cigarro / Diz a gramática/ Do professor e do aluno/ E do mulato sabido/ Mas o bom negro e o bom branco/ Da Nação Brasileira/ Dizem todos os dias/ Deixa disso, camarada/ Me dá um cigarro".

Nada disso quer dizer, porém, que a norma culta vá deixar de ser o modelo a perseguir. O discurso científico e o respeito à diversidade em nada ameaçam a integridade da língua na sua variante culta. O professor continuará ensinando a norma culta - até pelo simples fato de que a língua oral não precisa de professor!

Cabe ao professor expor o estudante aos mais variados tipos de texto necessários à comunicação e ao conhecimento de nossas raízes. Se a escola for bem-sucedida em sua empreitada, o aluno passará a conhecer a norma culta e a usá-la adequadamente nas situações em que isso for necessário. 

Breve comentário:  quando o assunto é língua, quase todo jornalista, por ser jornalista e lidar diariamente com apenas uma (pelo menos durante o expediente, digamos) das múltiplas variedades pelas quais a língua se realiza, a norma padrão, se sente no direito de emitir palpites sobre o assunto. Esse engano faz com que maioria deles, ao ter certeza de que suas opiniões são as melhores, digam e escrevam verdadeiros desastres. Na contramão disso, e intelectualmente à frente da maioria dos periodistas, está Thaís Nicoleti, da Folha. O texto acima serve de exemplo. 

Aceitam tudo

Trecho do livro "Por uma vida melhor"

Por Sírio Possenti
De Campinas (SP)

19/05/2011

De vez em quando, alguém diz que lingüistas "aceitam" tudo (isto é, que acham certa qualquer construção). Um comentário semelhante foi postado na semana passada. Achei que seria uma boa oportunidade para tentar esclarecer de novo o que fazem os linguistas.

Mas a razão para tentar ser claro não tem mais a ver apenas com aquele comentário. Surgiu uma celeuma causada por notas, comentários, entrevistas etc. a propósito de um livro de português que o MEC aprovou e que ensinaria que é certo dizer Os livro. Perguntado no espaço dos comentários, quando fiquei sabendo da questão, disse que não acreditava na matéria do IG, primeira fonte do debate. Depois tive acesso à indigitada página, no mesmo IG, e constatei que todos os que a leram a leram errado. Mas aposto que muitos a comentaram sem ler.
Vou tratar do tal "aceitam tudo", que vale também para o caso do livro.

Primeiro: duvido que alguém encontre esta afirmação em qualquer texto de linguística. É uma avaliação simplificada, na verdade, um simulacro, da posição dos linguistas em relação a um dos tópicos de seus estudos - a questão da variação ou da diversidade interna de qualquer língua. Vale a pena insistir: de qualquer língua.

Segundo: "aceitar" é um termo completamente sem sentido quando se trata de pesquisa. Imaginem o ridículo que seria perguntar a um químico se ele aceita que o oxigênio queime, a um físico se aceita a gravitação ou a fissão, a um ornitólogo se ele aceita que um tucano tenha bico tão desproporcional, a um botânico se ele aceita o cheiro da jaca, ou mesmo a um linguista se ele aceita que o inglês não tenha gênero nem subjuntivo e que o latim não tivesse artigo definido.

Não só não se pergunta se eles "aceitam", como também não se pergunta se isso tudo está certo. Como se sabe, houve época em que dizer que a Terra gira ao redor do sol dava fogueira. Semmelveis foi escorraçado pelos médicos que mandavam em Viena porque disse que todos deveriam lavar as mãos antes de certos procedimentos (por exemplo, quem viesse de uma autópsia e fosse verificar o grau de dilatação de uma parturiente). Não faltou quem dissesse "quem é ele para mandar a gente lavar as mãos?"

Ou seja: não se trata de aceitar ou de não aceitar nem de achar ou de não achar correto que as pessoas digam os livro. Acabo de sair de uma fila de supermercado e ouvi duas lata, dez real, três quilo a dar com pau. Eu deveria mandar esses consumidores calar a boca? Ora! Estávamos num caixa de supermercado, todos de bermuda e chinelo! Não era um congresso científico, nem um julgamento do Supremo!

Um linguista simplesmente "anota" os dados e tenta encontrar uma regra, isto é, uma regularidade, uma lei (não uma ordem, um mandato).
O caso é manjado: nesta variedade do português, só há marca de plural no elemento que precede o nome - artigo ou numeral (os livro, duas lata, dez real, três quilo). Se houver mais de dois elementos, a complexidade pode ser maior (meus dez livro, os meus livro verde etc.). O nome permanece invariável. O linguista isso, constata isso. Não só na fila do supermercado, mas também em documentos da Torre do Tombo anteriores a Camões. 
Portanto, mesmo na língua escrita dos sábios de antanho.

O linguista também constata the books no inglês, isto é, que não há marca de plural no artigo, só no nome, como se o inglês fosse uma espécie de avesso do português informal ou popular. O linguista aceita isso? Ora, ele não tem alternativa! É um dado, é um fato, como a combustão, a gravitação, o bico do tucano ou as marés. O linguista diz que a escola deve ensinar formas como os livro? Esse é outro departamento, ao qual volto logo.

Faço uma digressão para dar um exemplo de regra, porque sei que é um conceito problemático. Se dizemos "as cargas", a primeira sílaba desta sequência é "as". O "s" final é surdo (as cordas vocais não vibram para produzir o "s"). Se dizemos "as gatas", a primeira sílaba é a "mesma", mas nós pronunciamos "az" - com as cordas vocais vibrando para produzir o "z". Por que dizemos um "z" neste caso? Porque a primeira consoante de "gatas" é sonora, e, por isso, a consoante que a antecede também se sonoriza. Não acredita? Vá a um laboratório e faça um teste. Ou, o que é mais barato, ponha os dedos na sua garganta, diga "as gatas" e perceberá a vibração. Tem mais: se dizemos "as asas", não só dizemos um "z" no final de "as", como também reordenamos as sílabas: dizemos as.ga.tas e as.ca.sas, mas dizemos a.sa.sas ("as" se dividiu, porque o "a" da palavra seguinte puxou o "s/z" para si). Dividimos "asas" em "a.sas", mas dividimos "as asas" em a.sa.sas.

Volto ao tema do linguista que aceitaria tudo! Para quem só teve aula de certo / errado e acha que isso é tudo, especialmente se não tiver nenhuma formação histórica que lhe permitiria saber que o certo de agora pode ter sido o errado de antes, pode ser difícil entender que o trabalho do linguista é completamente diferente do trabalho do professor de português.
Não "aceitar" construções como as acima mencionadas ou mesmo algumas mais "chocantes" é, para um linguista, o que seria para um botânico não "aceitar" uma gramínea. O que não significa que o botânico paste.

Proponho o seguinte experimento mental: suponha que um descendente seu nasça no ano 2500. Suponha que o português culto de então inclua formas como "A casa que eu moro nela mais os dois armário vale 300 cabral" (acho que não será o caso, mas é só um experimento). Seu descendente nunca saberá que fala uma língua errada. Saberá, talvez (se estudar mais do que você), que um ancestral dele falava formas arcaicas do português, como 300 cabrais.

Outro tema: o linguista diz que a escola deve ensinar a dizer Os livro? Não. Nenhum linguista propõe isso em lugar nenhum (desafio os que têm opinião contrária a fornecer uma referência). Aliás, isso não foi dito no tal livro, embora todos os comentaristas digam que leram isso.

O linguista não propõe isso por duas razões: a) as pessoas já sabem falar os livro, não precisam ser ensinadas (observe-se que ninguém falao livros, o que não é banal); b) ele acha - e nisso tem razão - que é mais fácil que alguém aprenda os livros se lhe dizem que há duas formas de falar do que se lhe dizem que ele é burro e não sabe nem falar, que fala tudo errado. Há muitos relatos de experiências bem sucedidas porque adotaram uma postura diferente em relação à fala dos alunos.
Enfim, cada campo tem seus Bolsonaros. Merecidos ou não.

PS 1 - todos os comentaristas (colunistas de jornais, de blogs e de TVs) que eu ouvi leram errado uma página (sim, era só UMA página!) do livro que deu origem à celeuma na semana passada. Minha pergunta é: se eles defendem a língua culta como meio de comunicação, como explicam que leram tão mal um texto escrito em língua culta? É no teste PISA que o Brasil, sempre tem fracassado, não é? Pois é, este foi um teste de leitura. Nosso jornalismo seria reprovado. 

PS 2 - Alexandre Garcia começou um comentário irado sobre o livro em questão assim, no Bom Dia, Brasil de terça-feira: "quando eu TAVA na escola...". Uma carta de leitor que criticava a forma "os livro" dizia "ensinam os alunos DE que se pode falar errado". Uma professora entrevistada que criticou a doutrina do livro disse "a língua é ONDE nos une" e Monforte perguntou "Onde FICA as leis de concordância?". Ou seja: eles abonaram a tese do livro que estavam criticando. Só que, provavelmente, acham que falam certinho! Não se dão conta do que acontece com a língua DELES mesmos!!

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia. Ele escreve na revista eletrônica Terra Magazine

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Quando se lê o que não está escrito

Nos últimos dias, criou-se uma polêmica em torno do livro “Por uma vida melhor”, produzido por autores ligados à ONG Ação Educativa e largamente distribuído pelo MEC.
Toda a controvérsia teve início a partir de um único exemplo pinçado do livro por algum sádico ou masoquista de plantão. Algumas emissoras de tevê se empenharam em fazer até programas “especiais” para “debater” o assunto.

Digo “especiais” e “debater”, ambos os vocábulos entre aspas, porque, primeiro os entrevistados não disseram nada de diferente do que sempre dizem; e, segundo, porque nunca vi chamarem uma pessoa que produza remédios caseiros para falar o que ela sabe sobre as últimas descobertas para a cura do câncer; bem como nunca vi um mero admirador de plantas ser chamado para dar explicações científicas sobre as orquídeas. Isso só acontece no campo das línguas.

Admito que li quase tudo que foi escrito e assisti à maioria dos programas exibidos sobre a questão do livro. A cada leitura, a cada entrevista, a cada “debate”, vinha-me a ideia de escrever um texto. Depois, mudei de ideia. Por uma razão muito simples, não escrevi e não escreverei nada sobre isso: muitos lingüistas e estudiosos (não falo de jornalistas nem do Sacconi, por favor!) já escreveram artigos e mais artigos que dão conta de explicar (para quem quiser entender) suficientemente a polêmica criada.
Tendo isso em vista, a partir de hoje, apenas reproduzirei aqui alguns textos que, se tivessem sido lidos pelos críticos do livro de Heloísa Ramos, estes não teriam tido a coragem de dizer e escrever tanta bobagem como fizeram.
Post Scriptum 1: a maioria dos que criticaram o livro não o leram – se fossem intelectualmente humildes, cada um teria se feito a pergunta básica: como vou criticar um livro antes de lê-lo? Mais: se alguém o leu, leu o que não está escrito. O fato de eles não terem lido nem mesmo a página da polêmica explica, por um lado, mas não justifica, por outro, as muitas batatadas e os tiros no escuro.
Post Scriptum 2: aos que se interessarem pela leitura do livro, o capítulo inteiro que foi alvo da falsa polêmica, além de uma nota da ONG sobre a confusão criada e de vários artigos de verdadeiros especialistas, estão disponíveis no site da Ação Educativa. Não custa nada acessar, é só um clique.
Segue texto de Carlos Alberto Faraco:

Polêmica Vazia

Corre pela imprensa e pela internet uma polêmica sobre o livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático (do MEC) para escolas voltadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA). Segundo seus críticos, o livro, ao abordar a variação linguística, estaria fazendo a apologia do “erro” de português e desvalorizando, assim, o domínio da chamada norma culta.

O tom geral é de escândalo. A polêmica, no entanto, não tem qualquer fundamento. Quem a iniciou e quem a está sustentando pelo lado do escândalo, leu o que não está escrito, está atirando a esmo,   atingindo alvos errados e revelando sua espantosa ignorância sobre a história e a realidade social e linguística do Brasil.

Pior ainda: jornalistas respeitáveis e até mesmo um conhecido gramático manifestam indignação claramente apenas por ouvir dizer e não com base numa análise criteriosa do material. Não podemos senão lamentar essa irresponsável atitude de pessoas que têm a obrigação, ao ocupar o espaço público, de seguir comezinhos princípios éticos.

Se o fizessem, veriam facilmente que os autores do livro apenas seguem o que recomenda o bom senso e a boa pedagogia da língua. O assunto é a concordância verbal e nominal – que, como sabemos – se realiza, no português do Brasil, de modo diferente de variedade para variedade da língua. Há significativas diferenças entre as variedades ditas populares e as variedades ditas cultas. Essas diferenças decorrem do modo clivado como se constituiu a sociedade brasileira. Ou seja, a divisão linguística reflete a divisão econômica e social em que se assentou nossa sociedade, divisão que não fomos ainda capazes de superar ou, ao menos, de diminuir substancialmente.

Muitos de nós acreditamos que a educação é um dos meios de que dispomos para enfrentar essa nossa profunda clivagem econômica e social. Nós linguistas, por exemplo, defendemos que o ensino de português crie condições para que todos os alunos alcancem o domínio das variedades cultas, variedades com que se expressa o mundo da cultura letrada, do saber escolarizado.

Para alcançar esse objetivo, é indispensável informar os alunos sobre o quadro da variação linguística existente no nosso país e, a partir da comparação das variedades, mostrar-lhes os pontos críticos que as diferenciam e chamar sua atenção para os efeitos sociais corrosivos de algumas dessas diferenças (o preconceito linguístico – tão arraigado ainda na nossa sociedade e que redunda em atitudes de intolerância, humilhação, exclusão e violência simbólica com base na variedade linguística que se fala). Por fim, é preciso destacar a importância de conhecer essa realidade tanto para dominar as variedades cultas, quanto para participar da luta contra o preconceito linguístico.

É isso – e apenas isso – que fazem os autores do livro. E não somente os autores desse livro, mas dos livros de português que têm sido escritos já há algum tempo. Subjacente a essa direção pedagógica estão os estudos descritivos da realidade histórica e social da língua portuguesa do Brasil, estudos que têm desvelado, com cada vez mais detalhes, a nossa complexa cara linguística.

Desses estudos nasceu naturalmente a discussão sobre que caminhos precisamos tomar para adequar o ensino da língua a essa realidade de modo a não reforçar (como fazia a pedagogia tradicional) o nosso apartheid social e linguístico, mas sim favorecer a democratização do domínio das variedades cultas e da cultura letrada, domínio que foi sistematicamente negado a expressivos segmentos de nossa sociedade ao longo da nossa história.

O desvelamento da nossa cara linguística, porém, tem incomodado profundamente certa intelectualidade. A complexidade da realidade parece que lhes tira o ar e o chão. Preferem, então, apegar-se dogmática e raivosamente à simplicidade dos juízos absolutos do certo e do errado. Mostram-se assim pouco preparados para o debate franco, aberto e desapaixonado que essas questões exigem.

Linguista. Foi professor de português e reitor da Universidade Federal do Paraná.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sempre, sempre que posso, vou

Sábado passado, à noite, meu programa foi ver a Companhia São Jorge de Variedades, grupo de São Paulo, na Usina de Artes. O grupo teatral trouxe o espetáculo “Quem não sabe mais quem é, o que é, e onde está, precisa se mexer”.

Em texto anterior, eu disse, neste blogue, que não estamos acostumados a receber grandes espetáculos teatrais por aqui. (Na verdade, para ser mais preciso, a maioria de nós, acrianos, sequer viu, em toda a vida, uma peça teatral: pelas razões que apresentei naquele texto, além de outras que eu não disse, claro: por exemplo, muitos, por nunca terem ido ao teatro, não sabem o que perdem).

A companhia São Jorge, com a encenação “Quem não sabe mais quem é, o que é, e onde está, precisa se mexer”, faz parte do que classifico de “grandes espetáculos”. Além da ótima recepção (local e pessoal), o melhor: vi tudo de graça.

O principal trunfo da peça é fazer refletir sobre quem somos, como somos, onde somos, por que somos assim ou assado, etc. Bom seria se mais gente tivesse (e, quando tivesse, quisesse) a oportunidade de assistir a/esse tipo de produção.

Site: http://www.ciasaojorge.com.br/

Uma linda reportagem sobre o Haiti

O SporTV Repórter, um programa do SporTV, canal fechado da Rede Globo, exibiu belíssima reportagem sobre a importância do esporte na superação das dificuldades enfrentadas por atletas e haitianos em geral. É o tipo de material que torna a gente mais gente, eu diria. A apresentação é de Marcelo Barreto; a reportagem, de Regis Rosing. Se você não viu, vale a pena conferir.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Pronunciamento da professora Amanda Gurgel

O vídeo abaixo mostra o pronunciamento da professora Amanda Gurgel durante uma Assembléia Pública sobre o cenário atual da educação no Rio Grande do Norte (um reflexo do restante do Brasil). A professora expõe, inclusive, seu salário: R$930,00. Assista!

terça-feira, 17 de maio de 2011

Temo$ tão pouco inR$centivo

"Teatro e cinema ainda não são acessíveis à população de baixa renda."
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A maioria dos poucos que me leem hão de concordar comigo que não dispomos, aqui em Rio Branco, de muitos incentivos e eventos ligados à produção cultural. É claro para todos, imagino, que hoje temos muito mais opções de eventos culturais do que no passado, evidente; mas o que se produz por aqui ainda é muito pouco.
Não estamos acostumados, ainda, a receber grandes espetáculos teatrais, por exemplo. Quando alguém se propõe a trazer algo diferente nesse segmento, aproveita para arrancar-nos os dois olhos, na hora de cobrar o ingresso.
Eu gosto muito de filmes; tenho muitos, em meu computador. De vez em quando, especulo sobre qual filme está em cartaz no único cinema que temos por aqui; quando vejo que é bom, animo-me para assisti-lo, mas ao ver o preço do ingresso, desisto na hora.

Acho que não temos muito inR$centivo para gostar de coisas boas – elas são muito caras. Penso que não deveria se pagar mais que R$5,00 para ver um bom filme. Sendo como é, temos que escolher entre assistir ao filme e comer uma porção de pipoca e tomar um refrigerante na sala de espera. Teatro e cinema ainda não são acessíveis à população de baixa renda.
Além disso, o único cinema de que dispomos tem áudio péssimo e ambiente sujo (topamos latas de refrigerante pelo chão). Por essas razões, tenho ido mais à Filmoteca Acriana, que não perde em absolutamente nada para o Cine João Paulo, a meu ver.
Post scriptum: o único ponto negativo é o fato de não poder comer dentro da sala de cinema da Biblioteca Pública; mas essa é uma questão que precisa ser bastante discutida antes da liberação: primeiro o povo precisa ser educado, se for possível. De outro modo, sou contra a liberação.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

'Desisto, vou domir'

Cansado do corre-corre de ontem, antes de dormir, zapeava em busca de algo interessante na tevê (que fé a minha, hein!!). De repente, vejo à frente de Gabi, no SBT, Alexandre Frota, aquele mesmo, da Casa dos Artistas.
Entusiasmada e com ar ofegante de curiosidade, Marília Gabriela indagava Frota sobre seus Reality Shows. O que mais me deixou besta foi quando ela começou a tecer elogios sobre o “diretor Alexandre Frota”. Diretor?, perguntei-me. É, Gabi elogiava e Alexandre Frota confirmava ter dirigido, por exemplo, vários quadros do programa Hoje em Dia, da Record, além de ter implantado ‘Ídolos’ e ‘A Fazenda’. Veja só quanta ‘criatividade’!! Para quem achava que Frota só sabia transar e nada mais...
O tatuado disse está muito feliz fazendo ‘A praça é Nossa’. Você ainda não sabia, leitor meu? Pois é, Frota faz o Robin, da dupla Batman e Robin. Segundo ele mesmo, Frota, encenou esta peça nos anos 80, e propôs a Carlos Alberto de Nóbrega, em 2005, levar à ‘Praça é Nossa’ uma versão bem ao estilo cômico da ‘Praça’.
O fortão ainda se elogiou quando respondeu sobre um Reality Show chamado ‘A Fazenda’, do qual participou em Portugal, logo depois de sair da Casa dos Artistas. Ele disse ter mudado o jeito europeu de ver o brasileiro. Em meu sofá, fiquei esperando que Frota contasse como conseguiu isso, e ele disparou: transei com uma modelo nos primeiros dias da casa, entrei com um cavalo na sala de jantar... portanto, sei muito sobre Reality Shows, concluiu.
Na hora, pensei: desisto, vou dormir.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Eu estive lá

Sábado passado, 7, matei a saudade de ver teatro. Fui à Usina de Arte assistir à peça O Santo e a Porca. Quase morri de rir. É uma comédia muito boa, como a maior parte da obra de Ariano Suassuna.
O Santo e a Porca conta a história de Euricão (um cara que fica muito puto quando é chamado de engole-cobra), muito bem representado na peça que vi, diga-se. Euricão é um homem que deposita toda sua confiança no Santo Antônio, e numa porca cheia de dinheiro.
Euricão recebe uma carta das mãos de Pinhão, empregado de um tal Coronel Eudoro, que ameaça tomar daquele o seu bem mais precioso: a porca.
A peça envolve ainda, entre outros personagens, Caroba, a gordinha que mais me fez rir naquela noite. O grupo de teatro 'Nóis da Casa' é formado por estudantes do curso de Artes Cênicas da UFAC. O pessoal tem talento.
O Santo e a Porca estará em cartaz mais este fim de semana. A entrada custa R$10,00, a inteira, e R$5,00 a meia. Quem puder assistir, vá, porque o pessoal é bom.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Quanto custa um doutor?

Por Marcos Bagno
Publicado na Caros Amigos, março 2011

Pelo que já li e me disseram, uma tese de doutorado ou, mais modestamente, uma dissertação de mestrado, pode ser comprada (e por preço nem tão alto assim) de alguma das muitas empresas especializadas nesse comércio. Que haja quem compre e quem venda trabalhos intelectuais não é algo tão espantoso na nossa era “pós-moderna” em que nada tem valor e em que a relação com o conhecimento se dessacralizou completamente, passando de um extremo negativo — a erudição pedante, o elitismo da educação clássica, a mitificação do grande sábio — para o outro extremo, tão negativo quanto: o utilitarismo rasteiro, a fachada ou o verniz de conhecimento, o título já não como um símbolo mas como a coisa-em-si. O espantoso (o escandaloso) é haver quem aprove esses trabalhos com mérito e louvor e ainda recomende para a publicação. Aliás, recomendar uma tese para publicação virou uma expressão vazia, tanto quanto aplaudir de pé todo e qualquer espetáculo cênico, por menos original e por pior que ele seja. Assim como se levantar para aplaudir é só uma antecipação do gesto de ir embora, recomendar uma tese para publicação é só uma fórmula oca para encerrar o processo da defesa.

No entanto, o escândalo não fica por aí. Pior do que aprovar uma tese feita por terceiros é aprovar uma tese feita por alguém que supostamente teve a orientação de um pesquisador experiente. As teses compradas costumam ser produzidas por pessoas que obtêm ganhos materiais com seus talentos de boa redação e capacidade de juntar ideias. As teses feitas pelos próprios doutorandos — guardadas, é claro, as exceções de praxe — se revelam cada vez mais “sambas do branquelo doido” (já que 99% dos nossos doutores são de “raça” caucasiana). Na área das Letras, que é onde eu atuo, o absurdo se torna ainda mais imperdoável quando, a cada página da tese, aparecem pelo menos quinze erros de ortografia, pontuação, concordância, vocabulário, para não mencionar os disparates teóricos e as metodologias de análise quase infantis.

A grande maioria dos meus colegas lê (quando lê) a tese na véspera ou mesmo no avião que os leva para o evento da defesa. Com isso, é claro, os arguidores só topam com os problemas do trabalho pouco antes de se sentar à banca, problemas que são para eles pura surpresa. E toca a aprovar e a elogiar o besteirol que aparece ali.

Nessa produção acadêmica “pós-moderna”, o que importa é a quantidade. Um programa de pós-graduação tem que preencher infinitos relatórios para as agências financiadoras (Capes e Cnpq) e quanto mais números, melhor. Duzentas dissertações de mestrado defendidas e aprovadas em dois anos? Maravilha! Não interessa se elas não poderiam ser aceitas nem como um trabalho de pesquisa da 8a série, só interessa que estão lá, de capinha dura e letra prateada enfeitando (para ninguém ler) as estantes do programa. As pessoas riem quando conto que Wittgenstein, um dos filósofos mais importantes do século XX, levou mais de uma década para terminar sua tese, como se tivessem pena dele… Com os prazos absurdos exigidos pelas agências, com o número absurdo de doutorandos que alguns orientadores (?) acolhem, a produção intelectual brasileira virou, nas palavras de Marilena Chaui, uma “fábrica de pãezinhos”. Todos feitos com bromato de potássio, ocos, com cheiro azedo e incapazes de prover uma boa alimentação ao nosso espírito.

Marcos Bagno é doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Leia mais sobre Marcos Bagno 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

É mais uma lei

Por Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Mais uma lei contra estrangeirismo foi votada no Brasil (no RS). Na verdade, como fez questão de dizer seu autor, não se trata exatamente de proibição. Permite que se empreguem palavras estrangeiras, desde que sejam traduzidas. Talvez venhamos a ver "coffee-break (intervalo para o café)", "netbanking (serviços bancários pela internet)", "drinks (bebidas)". Quero ver nos edifícios chamados TOWER acrescentarem TORRE ao lado ou embaixo... E as traduções propostas serão aceitas por todos? Talvez isso gere outro problema. Ou uma profissão - sejamos otimistas... Deixemos esse tema para outra ocasião. Não se exigirá uniformidade, espero. Mas corre-se o risco de uma lei da tradução, ou de um dicionário de autoria do legislativo.

O argumento é que os cidadãos têm direito à informação. E o que fazer com as bulas de remédio, os contratos de aluguel e os votos no Supremo? O deputado Carrion foi um pouco primário em sua entrevista, além do mais. Ele acha, pelo que se leu no Terra, que "blecaute" pode, o problema é "blackout" ("Muitas vezes, a língua absorveu aquela palavra, ela está dicionarizada, mas com uma determinada grafia, como em blecaute. Para que vai usar blackout?"). Assim, parece que tudo é uma questão de tempo. Se é, por que uma lei? E quem sabe o que é blecaute?

Vou repetir observações breves sobre o tema, as mesmas que apresentei por ocasião do projeto do deputado Aldo Rebelo:

(a) por que uma lei para proibir estrangeirismos e não outras tantas para proibir produtos estrangeiros? Afinal, as palavras seguem "as coisas" - os produtos, a cultura. Por que podemos usar jeans, ouvir rock, ver Hollywood, comer McDonals e não podemos dizer "delivery"? O contato cultural sempre produz alguma invasão. Cultural e lingüística. Quanto maior a assimetria econômica e cultural, maior a "invasão".
Não pense o distraído leitor que estou defendendo tais leis. O objetivo é argumentar que não há razão para leis que controlem as palavras.

(b) As pessoas que usam palavras estrangeiras são ridículas? Pode ser. Mas a humanidade é ridícula - o deputado incluído. E eu não me excluo do time. Quem madrugou para ver o casamento de William e Kate é ridículo, quem está usando imitação do anel da Kate é ridículo, quem vota para escolher vencedores e vencidos no Big Brother é ridículo, quem segue Lady Gaga é ridículo, quem vê TV Xuxa é ridículo etc. Vamos mudar isso com leis? Ora!

(c) O estrangeirismo mostra que "nossa" língua é forte: todas as palavras estrangeiras são adaptadas à fonologia e à morfologia da língua receptora. Exemplo: todos os verbos vindos do inglês são da primeira conjugação e são regulares. E como você acha que pronunciamos "marketing", "download" e "e-mail"? Mais ou menos como pronunciamos "beque" (de "back")... Pode haver um problema político em jogo, mais um entre tantos outros. Mas, do ponto de vista da língua, só há ganhos: ela se enriquece, cresce, incorpora novos termos (não fica com todos, pois descarta muitos), define melhor certos sentidos. Ou você acha que "entrega" é a mesma coisa que "delivery", que "salvar" é igual a "gravar". Quem "salva" corações flechados em cascas de árvore durante os piqueniques (olha uma delas aí!)?

(d) Eu me pergunto se as outras leis (de caráter econômico, ambiental, criminal etc.) também são elaboradas pelos legisladores com base em conhecimentos tão toscos. Torço para que eles só errem quando se trata de língua. Afinal, é um tema que todo mundo acha que conhece - e que, parece que pega mal estudar...

Acrescento: se é para manter a língua "pura", em qual estágio diríamos que não estava contaminada? Antes ou depois do domínio dos árabes na península ibérica? Antes ou depois da incorporação de palavras indígenas ou africanas?
O que faremos com o sutiã, o abajur, o futebol e o basquete? 
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Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp. Ele escreve semanalmente uma coluna na revista eletrônica Terra Magazine

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Alguma Poesia

Insensibilidade

Ao acordar cedo, meu nariz não sentiu cheiro algum.
Ando sem tato nas mãos, nos braços e nas pernas.
Não sinto o mundo nem as pessoas que nele vivem.
Estou doente: insensibilidade.
Não sinto ódio, nem amor, nem pena nem rancor. Não sinto saudades de nada nem de ninguém.
Estaria esta doença me matando aos poucos?
Estaria eu prestes a falecer e em minha certidão de óbito constar insensibilidade como causa de morte?
Não sei. Careço de sensibilidade para perceber isto ou aquilo.
Então, nada me toca?
Toca, mas não sinto.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Por que tantos porquês? Para quê?


A escrita é, sem dúvida alguma, um processo altamente sofisticado, complexo. Para se ter uma noção dessa complexidade, basta que observemos, detalhadamente, a composição de um tecido, de um pano, por exemplo. É que a palavra texto nasce do vocábulo latino textum, que significa tecido. Portanto, assim como o pano, o tecido, o texto é resultado de um encadeamento, de uma concatenação; concatenação esta, no entanto, de ideias.

Como um pedaço de pano, um parágrafo vai sendo costurado a outro, para dar firmeza ao tecido – leia-se texto. Por conta da complexidade do processo de escrita, e da complexidade do próprio sistema ortográfico da Língua Portuguesa (algumas questões são muito mal sistematizadas, como a questão do hífen, por exemplo), escrever supõe, algumas vezes, ter dúvidas, que vão desde o emprego de uma letra, de um ponto, até a organização das ideias dentro de uma frase ou período.

Às vezes, quando precisamos empregar um dos porquês, por exemplo, temos dúvida. Isso acontece por pelo menos três razões, suponho: primeiro, pela quantidade de diferentes porquês, claro; segundo, por desconhecimento das regras que devem ser seguidas; e, terceiro, pelo infrequente uso que fazemos da escrita. Com a finalidade única de ajudar aos que alguma dúvida tem sobre este assunto, deixo as seguintes orientações:

a) por que (separado e sem acento)

Empregamos esta forma nas perguntas diretas:

  • Por que ele não veio à escola?

E nas perguntas indiretas (as que vêm encaixadas numa sentença declarativa):

  • Não sei por que ele não veio à escola.

Nesse caso, das perguntas indiretas, repare que a expressão “por que” pode, perfeitamente, ser substituída por “o motivo pelo qual” ou por “a causa/razão pela qual”, ficando assim:


  • Não sei o motivo pelo qual ele não veio à escola.
Ou:
  • Não sei a razão pela qual ele não veio à escola.

Obs.: no que diz respeito à pontuação, note que as perguntas indiretas devem se encerrar com um ponto final, e não com um ponto de interrogação, como fazemos com as diretas.

b) porque (junto e sem acento)

De modo geral, usamos esta forma em nossas respostas e afirmações:

  • Ele não veio à escola porque estava doente.

c) por quê (separado e com acento)

Esta forma, usamos no fim das perguntas diretas:

  • Ele não veio à escola por quê?

E no fim das perguntas indiretas:

  • Ele não veio à escola e eu não sei por quê.

d) porquê (junto e com acento)

Neste caso, trata-se de um substantivo; por isso, é empregado sempre na companhia de um artigo (o porquê), de um demonstrativo (este porquê), de um possessivo (teus porquês), e por aí vai. Por essa razão também, podemos pluralizá-lo:
  • Roberto está na fase dos porquês.
  • Não entendi o porquê desta tua angústia.
  • É difícil detalhar todos os meus porquês.
Mais uma vez, espero ter ajudado algum (raro) leitor deste blogue. Até o próximo texto!