quinta-feira, 28 de abril de 2011

Alguma Poesia

Insensibilidade

Ao acordar cedo, meu nariz não sentiu cheiro algum.
Ando sem tato nas mãos, nos braços e nas pernas.
Não sinto o mundo nem as pessoas que nele vivem.
Estou doente: insensibilidade.
Não sinto ódio, nem amor, nem pena nem rancor. Não sinto saudades de nada nem de ninguém.
Estaria esta doença me matando aos poucos?
Estaria eu prestes a falecer e em minha certidão de óbito constar insensibilidade como causa de morte?
Não sei. Careço de sensibilidade para perceber isto ou aquilo.
Então, nada me toca?
Toca, mas não sinto.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Por que tantos porquês? Para quê?


A escrita é, sem dúvida alguma, um processo altamente sofisticado, complexo. Para se ter uma noção dessa complexidade, basta que observemos, detalhadamente, a composição de um tecido, de um pano, por exemplo. É que a palavra texto nasce do vocábulo latino textum, que significa tecido. Portanto, assim como o pano, o tecido, o texto é resultado de um encadeamento, de uma concatenação; concatenação esta, no entanto, de ideias.

Como um pedaço de pano, um parágrafo vai sendo costurado a outro, para dar firmeza ao tecido – leia-se texto. Por conta da complexidade do processo de escrita, e da complexidade do próprio sistema ortográfico da Língua Portuguesa (algumas questões são muito mal sistematizadas, como a questão do hífen, por exemplo), escrever supõe, algumas vezes, ter dúvidas, que vão desde o emprego de uma letra, de um ponto, até a organização das ideias dentro de uma frase ou período.

Às vezes, quando precisamos empregar um dos porquês, por exemplo, temos dúvida. Isso acontece por pelo menos três razões, suponho: primeiro, pela quantidade de diferentes porquês, claro; segundo, por desconhecimento das regras que devem ser seguidas; e, terceiro, pelo infrequente uso que fazemos da escrita. Com a finalidade única de ajudar aos que alguma dúvida tem sobre este assunto, deixo as seguintes orientações:

a) por que (separado e sem acento)

Empregamos esta forma nas perguntas diretas:

  • Por que ele não veio à escola?

E nas perguntas indiretas (as que vêm encaixadas numa sentença declarativa):

  • Não sei por que ele não veio à escola.

Nesse caso, das perguntas indiretas, repare que a expressão “por que” pode, perfeitamente, ser substituída por “o motivo pelo qual” ou por “a causa/razão pela qual”, ficando assim:


  • Não sei o motivo pelo qual ele não veio à escola.
Ou:
  • Não sei a razão pela qual ele não veio à escola.

Obs.: no que diz respeito à pontuação, note que as perguntas indiretas devem se encerrar com um ponto final, e não com um ponto de interrogação, como fazemos com as diretas.

b) porque (junto e sem acento)

De modo geral, usamos esta forma em nossas respostas e afirmações:

  • Ele não veio à escola porque estava doente.

c) por quê (separado e com acento)

Esta forma, usamos no fim das perguntas diretas:

  • Ele não veio à escola por quê?

E no fim das perguntas indiretas:

  • Ele não veio à escola e eu não sei por quê.

d) porquê (junto e com acento)

Neste caso, trata-se de um substantivo; por isso, é empregado sempre na companhia de um artigo (o porquê), de um demonstrativo (este porquê), de um possessivo (teus porquês), e por aí vai. Por essa razão também, podemos pluralizá-lo:
  • Roberto está na fase dos porquês.
  • Não entendi o porquê desta tua angústia.
  • É difícil detalhar todos os meus porquês.
Mais uma vez, espero ter ajudado algum (raro) leitor deste blogue. Até o próximo texto!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tipos e expressões

Datena posa, elegantemente, para as câmeras
Sempre que assisto a jornais ou a programas em geral, mais nacionais do que locais, consigo ser incomodado por algum repórter ou apresentador. Não sei se isso ocorre mais pela minha disposição para ser incomodado ou se pela capacidade que tem os repórteres e apresentadores de chamar a atenção.
Quando digo “incomodado”, refiro-me a expressões e tipos que circulam pela mídia brasileira. Um exemplo, Faustão: “Ô loco, meu!”. Outro exemplo, Galvão Bueno: “Bem amigos da Rede Globo”. Ainda outro: Datena: “É brincadeira, hein!!”. Este último, aliás, é motivo para este texto.
Hoje, em meu horário de intervalo, como de costume, alternei entre leituras de jornais locais e o programa Brasil Urgente, apresentado pelo ilustre José Luiz Datena. Já declarei, em outras ocasiões, não gostar do tipo deste apresentador; melhor dizendo, do tipo de seu jornalismo. Como já “falei” aqui alguma vez, ele faz o típico jornalismo que Adilson Citelli, estudioso da linguagem, chama de sensacionalista. Mas há quem goste. Eu, particularmente, assisto mais por falta de opções que por gosto. E, às vezes, para rir um pouco.
Hoje, por exemplo, achei engraçado um fato ocorrido durante o programa: alguém escreveu a Datena chamando-o de demagogo. Ele retrucou pronta e ignorantemente, para não perder a prática: “Demagogo é você, sua mãe e o restante de sua família”. Quase morri de rir.
Depois, outro acontecimento me despertou: Datena falou à produção do Brasil Urgente que desde o início daquele programa tentava ter, ao vivo, o Márcio Campos, principal âncora de seu programa, e não conseguia. Em seguida, reiterou bravamente: “Portanto, produção, quero o Márcio Campos ao vivo, já, por favor!!” E repetiu. Quem já assistiu ao programa sabe que não estou mentindo, ele fala assim mesmo. Aliás, isso me lembra muito um certo Edvaldo que tem um certo quê de Datena.
Na hora, pensei com meus botões: não gostei dessa. Acho que não havia necessidade de falar daquele jeito, empregando a expressão “já”, indicando ordem, ou tentando mostrar a autoridade para com os subordinados. Há outras formas menos grossas de pedir isso a alguém, penso. Afinal, para que serve esse irônico “por favor”, depois de ter dito “Quero o Márcio Campos ao vivo, já?” Se serve, penso que só para revelar que o telespectador que taxou o apresentador de demagogo disse, no mínimo, uma verdade. Mas essa opinião vem de mim, que não tenho nem de longe a mesma expressividade que Datena.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para fugir da ambiguidade


Assim como falar, escrever se trata de um processo altamente complexo. É que a língua (tanto falada quanto escrita) contém regras e normas que precisam ser conhecidas e observadas por nós, falantes e escritores. Portanto, independente da variedade linguística empregada, ninguém fala ou escreve se não for por meio de regras previamente apreendidas; isto é, ninguém fala ou escreve sem gramática.

Por escrever se tratar de um processo complexo é que precisamos dedicar bastante atenção ao que dizemos e às palavras que empregamos. De outro modo, corremos o risco de não nos entenderem como gostaríamos, dando, às vezes, margem a dupla (ou mesmo tripla) interpretação do texto que construímos, seja ele oral ou escrito.

O pronome possessivo de 3ª pessoa “seu” e suas variações (sua, seus, suas), por exemplo, se não for bem utilizado, pode gerar ambiguidades. Observe a frase:

  • Em casual encontro com Marta, Pedro fez comentários sobre os seus exames.

Repare que o enunciado nos deixa sem saber a quem pertencem os exames sobre os quais Pedro fez comentários. Seriam de Marta? De Pedro? Ou de ambos? Não se sabe.

Para solucionar este tipo de imbróglio, conforme a intenção expressiva que temos, podemos substituir seu(s), suas(s), por dele(s), dela(s), além de outras expressões de tratamento. Veja como funciona:

  • Em casual encontro com Marta, Pedro fez comentários sobre os exames dela.
  • Em casual encontro com Marta, Pedro fez comentários sobre os exames dele.
  • Em casual encontro com Marta, Pedro fez comentários sobre os exames deles.

Percebam que, feita a substituição, determinamos com clareza a pessoa do possuidor, ou seja, especificamos, exatamente, a quem de fato e de direito pertencem os exames.

De alguma maneira, espero ter contribuído para o desempenho linguístico dos caros e raros leitores deste blogue. Até mais!

Justiça

De acordo com o site agazeta.net, os criminosos acusados de abreviar a vida de Francisco Ferreira da Silva, o “Franco Silva”, irão a julgamento hoje. Franco Silva era meu vizinho; Gesiel da Silva, acusado de atirar em Franco, treinou na mesma escolinha de futebol em que eu jogava; e Thiago da Silva, acusado de levar José Raimundo (baleado por Franco Silva) ao hospital, estudou onde estudei.
Franco Silva Ferreira da Silva
Ao me deparar com meus “ex-amigos” de infância sendo acusados de assassinar um de meus melhores vizinhos, fiquei duplamente triste, confesso: primeiro, por terem executado meu vizinho, evidentemente; e segundo, por saber que aqueles que cresceram junto comigo tomaram esse infeliz caminho. Agora, Gesiel e Thiago irão responder pelo que fizeram.

Horas depois da morte de Franco Silva, 12 de dezembro do ano passado, escrevi aos seus familiares uma carta em que lhes oferecia meus pêsames, carta que publiquei aqui neste blogue.

“Dito” essas coisas, o real motivo por que resolvi escrever sobre o que hoje noticiou agazeta.net, é que me impressionou a rapidez com que a justiça agiu para julgar os acusados de matar Franco Silva – depois de um ano os acusados já vão a julgamento. Seria justo que os jurados fossem ágeis para julgar todo tipo de criminoso; e não somente os casos em que a vítima envolvida seja alguém com algum status social, como o era, sabemos, Franco Silva.
De outra forma, dá a impressão de que alguns processos, quando chegam ao Tribunal de Justiça, ao invés de irem para baixo dos que já estão lá, ficam em cima destes.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Belos Versos



ALENTO - Paulo César Pinheiro

Violão esquecido num canto é silêncio
Coração encolhido no peito é desprezo
Solidão hospedada no leito é ausência
A paixão refletida num pranto, ai, é tristeza
 
Um olhar espiando o vazio é lembrança
Um desejo trazido no vento é saudade
Um desvio na curva do tempo é distância
E um poeta que acaba vadio, ai, é destino

A vida da gente é mistério
A estrada do tempo é segredo
O sonho perdido é espelho
O alento de tudo é canção
O fio do enredo é mentira
A história do mundo é brinquedo
O verso do samba é conselho
E tudo o que eu disse é ilusão