Nos últimos dias, criou-se uma polêmica em torno do livro “Por uma vida melhor”, produzido por autores ligados à ONG Ação Educativa e largamente distribuído pelo MEC.
Toda a controvérsia teve início a partir de um único exemplo pinçado do livro por algum sádico ou masoquista de plantão. Algumas emissoras de tevê se empenharam em fazer até programas “especiais” para “debater” o assunto.Digo “especiais” e “debater”, ambos os vocábulos entre aspas, porque, primeiro os entrevistados não disseram nada de diferente do que sempre dizem; e, segundo, porque nunca vi chamarem uma pessoa que produza remédios caseiros para falar o que ela sabe sobre as últimas descobertas para a cura do câncer; bem como nunca vi um mero admirador de plantas ser chamado para dar explicações científicas sobre as orquídeas. Isso só acontece no campo das línguas.
Admito que li quase tudo que foi escrito e assisti à maioria dos programas exibidos sobre a questão do livro. A cada leitura, a cada entrevista, a cada “debate”, vinha-me a ideia de escrever um texto. Depois, mudei de ideia. Por uma razão muito simples, não escrevi e não escreverei nada sobre isso: muitos lingüistas e estudiosos (não falo de jornalistas nem do Sacconi, por favor!) já escreveram artigos e mais artigos que dão conta de explicar (para quem quiser entender) suficientemente a polêmica criada.
Tendo isso em vista, a partir de hoje, apenas reproduzirei aqui alguns textos que, se tivessem sido lidos pelos críticos do livro de Heloísa Ramos, estes não teriam tido a coragem de dizer e escrever tanta bobagem como fizeram.
Post Scriptum 1: a maioria dos que criticaram o livro não o leram – se fossem intelectualmente humildes, cada um teria se feito a pergunta básica: como vou criticar um livro antes de lê-lo? Mais: se alguém o leu, leu o que não está escrito. O fato de eles não terem lido nem mesmo a página da polêmica explica, por um lado, mas não justifica, por outro, as muitas batatadas e os tiros no escuro.
Post Scriptum 2: aos que se interessarem pela leitura do livro, o capítulo inteiro que foi alvo da falsa polêmica, além de uma nota da ONG sobre a confusão criada e de vários artigos de verdadeiros especialistas, estão disponíveis no site da Ação Educativa. Não custa nada acessar, é só um clique.
Segue texto de Carlos Alberto Faraco:Polêmica Vazia
Corre pela imprensa e pela internet uma polêmica sobre o livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático (do MEC) para escolas voltadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA). Segundo seus críticos, o livro, ao abordar a variação linguística, estaria fazendo a apologia do “erro” de português e desvalorizando, assim, o domínio da chamada norma culta.
O tom geral é de escândalo. A polêmica, no entanto, não tem qualquer fundamento. Quem a iniciou e quem a está sustentando pelo lado do escândalo, leu o que não está escrito, está atirando a esmo, atingindo alvos errados e revelando sua espantosa ignorância sobre a história e a realidade social e linguística do Brasil.
Pior ainda: jornalistas respeitáveis e até mesmo um conhecido gramático manifestam indignação claramente apenas por ouvir dizer e não com base numa análise criteriosa do material. Não podemos senão lamentar essa irresponsável atitude de pessoas que têm a obrigação, ao ocupar o espaço público, de seguir comezinhos princípios éticos.
Se o fizessem, veriam facilmente que os autores do livro apenas seguem o que recomenda o bom senso e a boa pedagogia da língua. O assunto é a concordância verbal e nominal – que, como sabemos – se realiza, no português do Brasil, de modo diferente de variedade para variedade da língua. Há significativas diferenças entre as variedades ditas populares e as variedades ditas cultas. Essas diferenças decorrem do modo clivado como se constituiu a sociedade brasileira. Ou seja, a divisão linguística reflete a divisão econômica e social em que se assentou nossa sociedade, divisão que não fomos ainda capazes de superar ou, ao menos, de diminuir substancialmente.
Muitos de nós acreditamos que a educação é um dos meios de que dispomos para enfrentar essa nossa profunda clivagem econômica e social. Nós linguistas, por exemplo, defendemos que o ensino de português crie condições para que todos os alunos alcancem o domínio das variedades cultas, variedades com que se expressa o mundo da cultura letrada, do saber escolarizado.
Para alcançar esse objetivo, é indispensável informar os alunos sobre o quadro da variação linguística existente no nosso país e, a partir da comparação das variedades, mostrar-lhes os pontos críticos que as diferenciam e chamar sua atenção para os efeitos sociais corrosivos de algumas dessas diferenças (o preconceito linguístico – tão arraigado ainda na nossa sociedade e que redunda em atitudes de intolerância, humilhação, exclusão e violência simbólica com base na variedade linguística que se fala). Por fim, é preciso destacar a importância de conhecer essa realidade tanto para dominar as variedades cultas, quanto para participar da luta contra o preconceito linguístico.
É isso – e apenas isso – que fazem os autores do livro. E não somente os autores desse livro, mas dos livros de português que têm sido escritos já há algum tempo. Subjacente a essa direção pedagógica estão os estudos descritivos da realidade histórica e social da língua portuguesa do Brasil, estudos que têm desvelado, com cada vez mais detalhes, a nossa complexa cara linguística.
Desses estudos nasceu naturalmente a discussão sobre que caminhos precisamos tomar para adequar o ensino da língua a essa realidade de modo a não reforçar (como fazia a pedagogia tradicional) o nosso apartheid social e linguístico, mas sim favorecer a democratização do domínio das variedades cultas e da cultura letrada, domínio que foi sistematicamente negado a expressivos segmentos de nossa sociedade ao longo da nossa história.
O desvelamento da nossa cara linguística, porém, tem incomodado profundamente certa intelectualidade. A complexidade da realidade parece que lhes tira o ar e o chão. Preferem, então, apegar-se dogmática e raivosamente à simplicidade dos juízos absolutos do certo e do errado. Mostram-se assim pouco preparados para o debate franco, aberto e desapaixonado que essas questões exigem.
Linguista. Foi professor de português e reitor da Universidade Federal do Paraná.

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