segunda-feira, 26 de agosto de 2013

VERBOS E JORNAIS


O futuro do subjuntivo de verbos como ter, reter, manter, obter, entre outros, faz-se, respectivamente, tiver, retiver, mantiver, obtiver, etc. Portanto, a chamada do jornal deveria ser escrita assim: “Servidor que mantiver greve ficará sem reajuste”. Observa-se, na oração acima, um claro deslize de conjugação verbal.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

TRAGO OU TRAZIDO, CHEGADO OU CHEGO?

Numa conversa entre amigos, na escola ou no trabalho, ao escrever ou falar certos verbos, como “trazer” e “chegar”, é comum que fiquemos em dúvida sobre que forma do particípio usar, se a regular, as terminadas em –ado e –ido (trazido/chegado), ou se a irregular (trago (sic!) /chego (sic!)). Isso se dá pelas possibilidades que nos fornecem os chamados VERBOS ABUNDANTES, aqueles que apresentam duas ou mais formas de terminação equivalentes.

Por esse motivo, ao empregarmos os verbos “trazer” e “chegar” em suas formas de particípio (passado), tendemos a seguir a mesma linha de raciocínio de outros que apresentam mais de uma possibilidade de terminação, como “pegar” (pego/pegado), “pagar” (pago/pagado), “ganhar” (ganho/ganhado), etc. É aí que nos equivocamos. 

É que os verbos "trazer" e “chegar” só apresentam formas regulares de particípio (trazido/chegado), sendo um desvio normativo empregá-los em suas formas mais reduzidas, as chamadas irregulares, das quais já falamos acima (trago/chego). É claro que isso não impede que ouçamos essas formas pelas ruas, em casa ou por onde quer que andemos.

Para não ficarmos mais em dúvida, somemos o que foi dito acima aos seguintes exemplos:

ü  Se eu soubesse, teria TRAZIDO um livro para ler.
ü  Se eu tivesse CHEGADO mais cedo, teria tido uma surpresa.

Pronto, essa é a forma adequada de emprego desses verbos. Nada de "tinha trago" ou "tinha chego"!

A esse respeito, é importante notar que:

a)     “trago” é uma forma verbal válida, mesmo se tratando do verbo “trazer” (ao contrário das explicações que já ouvi por aí, de que “trago” é só de “tragar”); e que
b)     é a forma de 1ª pessoa do tempo presente do modo indicativo de “trazer”, não havendo problema algum em seu emprego nesse tempo e modo verbais. Veja:

ü  TRAGO sempre uma toalha em minha bolsa.

Por fim, vale reiterar que os verbos “pegar”, “pagar” e “ganhar”, mencionados acima, apresentam as duas formas de terminação, a regular e a irregular, pego/pegado, pago/pagado e ganho/ganhado. Além desses, há uma listinha de outros com dupla terminação. Confira alguns:

INFINITIVO
PART. REGULAR
PART. IRREGULAR
aceitar
aceitado
aceito
entregar
entregado
entregue
acender
acendido
aceso
eleger
elegido
eleito




segunda-feira, 19 de agosto de 2013

ESTOU “AFIM DE” VOCÊ OU “A FIM DE VOCÊ”?

“A fim de” e “afim” não se confundem, a primeira forma aparece sempre integrando locuções (a fim de / a fim de que), ao passo que a segunda aparece, ora como adjetivo, ora como substantivo. Entenda melhor:

A FIM DE / A FIM DE QUE

Essas duas formas expressam sempre a ideia de finalidade, podendo ser substituídas, respectivamente, por “para” e “para que”. Veja:

·        O garçom fez economias A FIM DE comprar um carro. [para]
·        O vitima gritou bem alto A FIM DE QUE a ouvissem. [para que]

É essa mesma forma que devemos escrever quando quisermos dizer que estamos A FIM DE fazer algo/A FIM de conhecer alguém ou mesmo que estamos A FIM DE alguém, na linguagem menos formal. Essas formas são empregadas com o sentido de “com vontade de”, “com a intenção de”. Note:

·         Não estava A FIM DE conhecer ninguém. [não tinha intenção]
·         Pedro não estava A FIM DE viajar. [não tinha vontade de]

No dia a dia, dizer que “está A FIM DE alguém” é o mesmo que ter algum interesse amoroso por essa pessoa. Portanto, quando escrevemos, devemos assim registrar:

·         Marcos está A FIM DE Joana. [interessado em Joana]

AFIM

AFIM é adjetivo. Desse modo, deve ser empregado quando quisermos estabelecer uma ideia de afinidade entre coisas ou pessoas. Essa forma, no mais das vezes, aparece no plural. Veja:

·         Gosto de Língua Portuguesa e áreas AFINS. [áreas semelhantes]

AFIM aparece mais comumente acompanhado das preposições “de”, “a”, “em” e mais raramente da preposição “com”. Observe:

·         Gostava de línguas AFINS da espanhola. [línguas que têm semelhanças com a espanhola]

·         As ideias da literatura contemporânea são AFINS ao Modernismo. [se assemelham às ideias de]

·         Davam-se muito bem porque eram AFINS nas ideias. [tinham afinidade de ideias]

Há ainda um último caso do emprego de AFIM. É quando ele tem valor de substantivo e designa a ideia de “parentes afins”, ou seja, “pessoas ligadas por vínculo matrimonial, não por vínculo sanguíneo ou por adoção”. Por exemplo, sogros e cunhados são parentes por afinidade [parentes afins]. Repare:

·         No testamento, os AFINS foram esquecidos.

Este texto se propõe a contribuir para o aprimoramento da escrita dos que o lerem. Forte abraço a todos e até a próxima postagem!

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

SENÃO OU SE NÃO? EIS A QUESTÃO

Diariamente, em casa, na escola ou no trabalho, vivemos situações em que temos que nos comunicar, necessariamente, por escrito. Nessas horas, ainda que o texto a ser produzido seja simples – uma carta, um e-mail ou um ofício – é comum nos surgirem dúvidas sobre a grafia de determinadas expressões, e aí nos perguntamos: “afim” ou “a fim”?... “debaixo” ou “de baixo”?... “senão” ou “se não”?... Mas, afinal de contas, escreve-se senão ou se não? A resposta é: depende. Veja como funciona!

Escreve-se "senão" (em uma só palavra) quando este termo assume a função:

1) de conjunção alternativa, podendo ser substituída por "caso contrário".

·         Devemos trabalhar, senão [caso contrário] o contrato será cancelado. 

2) de conjunção adversativa, sendo possível trocá-la pela equivalente "mas".

·         Vencemos a partida de futebol não por sorte, senão [mas] por competência.

3) de preposição, significando "com exceção de" ou "exceto", assim:

A quem, senão [exceto] a ele, devo fazer referência durante a palestra? 

4) E de substantivo masculino, significando "falha" ou "defeito".

·         Minha namorada é quase perfeita. Ela só tem um senão [defeito]

***

Por sua vez, grafa-se "se não" (em duas palavras) quando a expressão for:

1) uma conjunção condicional (substituível por "caso"), assim:

·         Se não chover [caso não chova], irei encontrar meus amigos. 

2) ou uma conjunção integrante, podendo ser substituída (juntamente com toda a oração que ela introduz) pelos pronomes "isso", "isto" ou "aquilo".

·         Perguntei se não iriam chegar atrasados [perguntei isso].

Espero que este texto seja um instrumento de facilitação para a escrita daqueles que o lerem. Um abraço a todos e até a próxima postagem!

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

QUANDO NÃO CABE "DEBAIXO"...


O feito é do jornal online Ac24horas
A distinção entre “debaixo” e “de baixo” é muito simples, mas os escreventes do periódico acima conseguiram ignorá-la. Uma rápida consulta ao G1 resolveria a questão, mas os redatores do jornal devem ter tido preguiça de realizá-la. Veja!


DEBAIXO ou DE BAIXO?

Usamos DEBAIXO sempre que a seguir vier a preposição DE: “O gato estava debaixo da mesa”; “Escondeu-se debaixo da cama”…

Se não houver a preposição DE, usamos DE BAIXO: “O apartamento fica no andar de baixo”.

FONTE: G1



domingo, 4 de agosto de 2013

ONDE VAMOS PARAR?

POR SÍRIO POSSENTI

No dia 13 de julho, Roberto Dias escreveu texto de denúncia na página 2 da Folha de S. Paulo, da qual é secretário-assistente de redação.

Sua tese é formulada já no primeiro parágrafo: “Quem sintoniza o rádio hoje no Brasil pode achar que os plurais foram abolidos na língua portuguesa”. Cita diversos títulos e passagens de músicas de sucesso (ou de músicas de cantores de sucesso) para sustentar sua teoria: “É nóis fazer parapapá” (Michel Teló), “As mina pira (Gusttavo Lima), “Traz bebida pras gatona, deixa elas malucona” (Neguinho do Kaxeta) etc.

Acha que Camões “sambaria miudinho para entender a vivíssima língua que o tem como referência”. Faço breves comentários sobre a questão e os dados mencionados.
O primeiro é que não há desaparecimento de plurais, mas que se trata apenas de uma forma diferente de marcá-lo. Ninguém pensa que o sujeito de “As mina pira” é singular. E todos entendem que ‘mais de uma mina’ pira.

A peculiaridade da forma consiste no fato de que o plural é marcado apenas uma vez (na primeira posição), em vez de três (em todas, como manda a gramática da norma culta). Pode-se gostar ou não disso (gosto é outro departamento), mas é fácil verificar que se trata de uma forma sistemática, como o mostram “as mina / as gatona / duas cerveja” etc.

Sobre o título “O que cê vai fazer”, que não tem nada a ver com plurais, diz o articulista que Sorocaba oficializou o fim de “você”. Ora, sabemos que o pronome tem uma história longa (de “Vossa Mercê” a “você”, passando por “Vosmecê” etc., segundo os registros mais formais). E todos sabem que “ocê” e “cê” são muito frequentes. Alguns de nós até sabemos que a fala de “nossa mãe” a “nosso pai” em “Terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, é “cê vai, ocê fique, você nunca mais volte!”. Nem por isso se pode dizer que o escritor oficializou a forma “cê” antes de Sorocaba.

Os dados que Roberto Dias cita merecem análise. Na verdade, muitos do mesmo tipo estão sendo descritos mais ou menos sistematicamente nos estudos recentes e cada vez mais numerosos do português falado no Brasil. Desde o título da coluna, aliás, “a gente cantamos”, um bom exemplo de silepse, que os leitores de gramáticas conhecem e que os leitores de literatura antiga conhecem ainda melhor…

Mas o que conta mesmo é outra questão, que é a circulação pública sempre maior de aspectos da fala popular. Diversos aspectos que agora chamam a atenção sempre estiveram lá. Já apareciam em diversas letras de música caipira. É só ouvir Tonico e Tinoco, por exemplo.

O que há de novo é que cantores sertanejos (ou que exploram a onda sertaneja, universitária ou não) se tornaram sucesso urbano. Suas músicas deixaram de ser exclusivas do povão, e compõem hoje o repertório da “nova” classe média. Estão na televisão e em outros meios de grande divulgação. Basta ver, aliás, quem faz sucesso nos programas dominicais e quais foram as músicas “do ano” premiadas pelo Faustão. Coisas do tipo “Sabiá” não fazem mais sucesso. Agora é tudo “Kamaro amarelo”.

O que menos lamento são os traços populares. Ruim é sua irrelevância estética: por que se acha que “delícia, assim você me mata! / ai, se eu te pego” é letra boa, embora não tenha traços caipiras?

“Cuitelinho” é uma letra / música de extração caipira / folclórica. E é uma maravilha!
A intelligentsia brasileira até pode gostar de festas de S. João e de outras manifestações culturais populares. Mas acho que nunca vai chegar a considerar que dialetos populares sejam mais que conjuntos de erros.

PS – achei estranho o título “é nóis fazer parapapá” e me submeti ao tormento de ouvir um trecho no Youtube. O título faz sentido, descobri: a sequência é “a solução é nóis fazer parapapá”. “Parapapá” deve ser aquilo. E “fazer” é proferido com o “r” final, acreditem. Culto pra burro!

PS 2 – Humboldt não tem nada a ver com isso. Duvido que Roberto Dias o tenha lido. Ele deve achar que ele diria que se pode pensar em português padrão, mas não em português popular. Longe disso!! Abusando de uma analogia: supondo que Humboldt pensasse como Dias, e se ele acreditasse que se pode pensar (bem) em alemão, teria que dizer que não se pode fazer isso (bem) nem em português padrão… É melhor não citar frases soltas.

Sírio Possenti é linguista e professor da UNICAMP.