sexta-feira, 25 de setembro de 2015

VIVER É RARO



Viver é a melhor coisa do mundo. Mas o que é viver? Muitos dirão, pura e simplesmente: viver é estar vivo, existir. Eu digo: viver não é somente existir, estar vivo, respirar. Um escritor inglês do século XIX chamado Oscar Wilde disse, certa vez, que “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. Quando li isso, rapidamente internalizei esta convicção e esta frase passou a ser o mote da minha vida.

Sempre busquei, em minha vida, ir além do simples fato de existir. Existir, e somente existir, é muito pouco, não me contenta. Entendi, de uns anos para cá, que viver é um fenômeno muito raro, como disse Wilde. E como podemos saber se estamos vivendo ou apenas existindo? Se olharmos para a maioria das pessoas, veremos que em nada se diferenciam entre si e que, como máquinas programadas, fazem tudo exatamente igual a todo mundo.

Posso dizer que repugno ser igual a todo mundo em tudo. É claro que não sou um extraterrestre nem vivo em outro planeta, mas procuro dar significância a tudo o que faz parte da minha vida ou que afeta a vida do outro; dou valor a tudo o que me cerca, até mesmo a coisas e atos minúsculos, aparentemente sem muita importância, como o modo de dizer “bom dia” a alguém. Seria eu um ser excessivamente racional? Talvez. Mas este é outro ponto com o qual me preocupo: não ser excessivamente racional.
Na correria do dia, esforço-me para não me tornar uma máquina, racional e insensível. Confesso que não é fácil. Considero que a racionalidade deve ser uma espécie de ferramenta de equilíbrio entre nossas razões e nossas emoções. Mas isso tudo é doloroso, porque é justamente aqui onde moram os nossos maiores conflitos. Mas viver é exatamente isso. Não é possível desfrutar o melhor desta vida distante das angústias, das surpresas, das adversidades, das ansiedades, dos conflitos que a vida nos traz.
Viver é ter liberdade e coragem de pensar, de agir, de dizer sim ou não; viver é pensar diferente, é enxergar por outros ângulos, é transcender, é subverter a ordem natural das coisas, é desafiar e desafiar-se. Viver é querer, é lutar, é conseguir, é perder, é ser proativo e não se contentar com o que está posto. O contrário de tudo isso é apenas “existir”, condição adotada pela maioria das pessoas, pela massa. Eu, ser inquieto, inconformado, vivo, luto todos os dias (desde a hora em que acordo até o momento de dormir) para me distanciar dos que apenas existem, porque entendo que “viver” não é para todos. Viver é raro. Viver é a melhor coisa do mundo.
 

 

sábado, 25 de abril de 2015

UMA HOMENAGEM

Professor, você chegou, com esse jeito, e conquistou todos que aqui estão.
Seu nome será lembrado por sua dedicação.

Aprendemos muitas coisas, apesar do pouco tempo que aqui você ficou. As sementes que plantou, com certeza germinaram.

Estas sementes serão, com carinho, bem regadas. E as mãos que as plantaram serão sempre bem lembradas.

Você demonstra, na prática, que ensina por prazer. Não visa só o salário, do contrário já teria ido outra função exercer.

Você ensina com amor, por isso o admiramos. Pensa na aprendizagem de todos os seus educandos.

Obrigada, professor!, por tudo que nos ensinou. Pena que ficou pouco tempo. Foi bom, porém acabou.

Maria da Conceição

Aluna do curso de Teologia da FADISI

O BRASIL DOS EXAGEROS

Exageros na desigualdade social;
Exagero na destruição de valores;
Exagero contra a dignidade humana;
Exageros de corrupção, indiscutivelmente o mal do século;
Exagero na cobrança de impostos, como água, luz, internet;
No país do desrespeito, nossos direitos são enterrados numa vala.
Somos o país do povo pobre, que se humilha e se consola com pouca coisa.
País do povo nobre, que trabalha e constrói uma nova história.
País do índio, do preto, do branco, do pardo e do caboclo, que juntos não recebem nada de respeito e compaixão.
País das grandes massas, que informações não retêm e vivem sempre aquém do terceiro mundo.

Robis Pierre
Aluno do curso de Teologia da FADISI (Faculdade Diocesana São José)






quinta-feira, 19 de março de 2015

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem palmeiras
Mas não canta o sabiá
Não há mais flores nas várzeas
Só miséria e muita fome
E o povo a mendigar

O céu continua lindo
Com estrelas a brilhar
A lua branca clareia
Formosa, lá nas alturas,
Ninguém a pode alcançar

Corrupção e poder
Se uniram, são uma só.
Saqueiam os cofres públicos
Deixam o país na pior
O pequeno passa fome para engordar o maior

O Brasil é hoje visto
Como o país da impunidade
As aves que aqui gorjeiam
São urubus, carcarás,
E os corvos espreitam de longe
Para seu quinhão agarrarem


Texto produzido pela aluna do curso de Teologia da FADISI, Maria Conceição M. Araújo, a partir de uma aula sobre as famosas canções do exílio de Gonçalves Dias e de Murilo Mendes

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

MAS, MAIS OU MÁS?

Devido à baixa frequência de produção textual em sala de aula durante as aulas de Língua Portuguesa (e ao excesso de análise de regras gramaticais desconexas do texto), quase sempre que precisamos escrever um texto (seja ele um bilhete, uma carta ou uma petição) nos surgem dúvidas relacionadas à ortografia oficial. Um dos dos dilemas ortográficos mais frequentes (que observo constantemente nos textos dos meus alunos) diz respeito ao emprego dos termos MASMAIS MÁS. São vocábulos bem parecidos,  mas que exprimem ideias diferentes, na construção do texto. Para dirimirmos boa parte de nossas dúvidas, observemos as seguintes informações.

A palavra MAS é mais comumente empregada como conjunção adversativa, ou seja, com o mesmo valor de porémtodaviano entantocontudoentretanto. Nesse caso, exprime ideia de oposição ou limitação. Veja:

  • Eu iria ao cinema, mas não tenho dinheiro.
  • Eu iria ao cinema, porém não tenho dinheiro.
  • Ele deu o seu melhor, mas não foi o suficiente.
  • Ele deu o seu melhor, contudo não foi o suficiente.

Já o termo MAIS é utilizado principalmente como advérbio de intensidade, transmitindo uma noção de maior quantidade ou intensidade, ou como conjunção aditiva, transmitindo uma noção de adição, acréscimo. Seu sentido se opõe a menos. Observe:

  • Ela é a mais bonita da escola.
  • Ela é a menos bonita da escola.
  • Vinte mais dez são trinta.
  • Vinte menos dez são dez.

Mas é preciso ter certa atenção, pois as palavras MAS e MAIS podem ser usadas ainda com outros sentidos. Confira:

MAS
  • Ele seria perfeito, não fosse um pequeno mas: ele fuma muito! (como substantivo - senão)
  • A atuação do ator foi brilhante, mas brilhante mesmo! (como advérbio – ênfase)

MAIS
  • Ele saiu mais o irmão e disse que ia demorar. (como preposição – junto com)
  • Não faço nada, os mais que resolvam o problema! (como pronome indefinido – os outros)
MÁS

Há ainda uma terceira confusão, esta menos frequente, entre MAIS, MASMÁS (forma acentuada graficamente). Contudo, não se engane, MÁS é apenas o plural do adjetivo , e se opõe a BOAS. Veja:

  • Não eram más ideias (eram boas ideias); ou
  • Estavam com más intenções (não tinham boas intenções)

Assim, caro leitor, espero ter contribuído significativamente com teu desempenho linguístico, estritamente no que se refere à escrita mais formal.

sábado, 31 de janeiro de 2015

POR QUE É IMPOSSÍVEL FALAR SEM GRAMÁTICA


Quando o assunto é língua, circulam, com certa frequência, na mídia brasileira (rádio, TV, jornais impressos, colunas de jornais on-line etc.), comentários, crenças e afirmações (na maioria das vezes elaborados pelos propagadores do purismo linguístico e da hipercorreção) que, paulatinamente, vão se cristalizando no senso comum, a ponto de, se não analisados com cautela, nos parecem teses inquestionáveis.

No interior dos comentários que mais reincidem, aparece a mitológica e histórica dicotomia fala/escrita, que sustenta a (falsa) ideia de que a fala seria (supostamente) desorganizada, sem lógica, sem regras, sem gramática; ao passo que a escrita seria exatamente o inverso: organizada, lógica, regrada, com gramática.

Antes de qualquer coisa, faz-se necessário desfazer esse mito antiqüíssimo: estudos de importantes pesquisadores modernos (como, por exemplo, Marcushi) não apresentam essas duas modalidades da língua (língua falada/língua escrita) de maneira dicotômica; contrariamente, postulam que as mesmas são duas caras da mesma moeda, isto é, duas modalidades da mesma língua; e que se influenciam mutuamente.

Se comparada a países europeus, a sociedade brasileira está, sabe-se, ainda muito distante de atingir graus significantes de letramento. Apresentamos (e me parece que ainda vamos apresentar por muitas décadas) altos índices de analfabetismo e agora que conseguimos garantir a educação primária à maior parte dos brasileiros. Somos uma nação que se informa mais por telejornais e pelo rádio que por leitura de jornais e/ou revistas.

Dessa forma, a concepção de língua que temos enquanto povo brasileiro é basicamente formada pelo que se diz nesses meios de comunicação e pelo que nos inculcaram nas aulas de gramática do ginásio – que, no fim das contas, é mais negativo do que positivo, diga-se. E mesmo a concepção de língua veiculada nos principais jornais impressos ou revistas de divulgação científica, como Veja, por exemplo, é reducionista: diminui a língua ao que é certo e ao que é errado, ao que se pode e ao que não se pode dizer ou escrever.

Portanto, se esses que compõem as camadas mais letradas da sociedade creem em teorias tão frágeis do tipo das que mencionamos aqui, teorias que não resistem ao menor confronto científico, a sociedade brasileira não poderia acreditar em algo diferente, já que, em sociedades estratificadas e hierarquizadas como a brasileira, os segmentos mais letrados é que, em geral, formam o ideário de língua do restante da população.
Mas, afinal, falamos mesmo sem gramática? A fala é sem lógica? Nossa resposta é negativa. 

A mínima análise de comentários e afirmações que tem por base esse tipo de crença é suficiente para pô-los por terra, para desmenti-los, visto que estes, embora aparentemente estejam mais do que firmados no ideário linguístico do senso comum, não têm o menor respaldo no plano científico dos estudos das línguas.

Não precisa ser especialista em linguagem para saber que um enunciado do tipo “Os menino comeu o bolo” contém dada organização estrutural, contém gramática, é construído sob dada norma; é, portanto, lógico. É um equívoco colossal dizer que um enunciado dessa natureza, constantemente proferido por milhares de milhares de falantes das variedades do português popular (e, às vezes, até por falantes de variedades de maior prestígio social – e entendido por outros tantos milhares, é bom que se diga) é desorganizado, sem estrutura, isento de regras, ilógico ou sem gramática. A questão é que suas regras são diferentes. Só isso.

A esse respeito, Carlos Alberto Faraco, notável linguista brasileiro, escreveu, em um de seus mais recentes livros (Norma Culta Brasileira: desatando alguns nós) o seguinte: "Toda e qualquer norma (toda e qualquer variedade constitutiva de uma língua) é dotada de organização" (Faraco 2008, p.37). Virando a página do livro, encontramos: “O fato de que toda norma tem uma organização estrutural deixa sem fundamento empírico enunciados do senso comum em que se afirma, por exemplo, que os analfabetos ou os chamados falantes do português popular falam sem gramática.” (Faraco 2008, p.38)

Logo em seguida, uma última citação do mesmo autor derruba definitivamente a crença de que falamos destituídos de gramática: Se toda norma é estruturalmente organizada, é impossível falar sem gramática. (Faraco 2008, p.38)