sábado, 31 de janeiro de 2015

POR QUE É IMPOSSÍVEL FALAR SEM GRAMÁTICA


Quando o assunto é língua, circulam, com certa frequência, na mídia brasileira (rádio, TV, jornais impressos, colunas de jornais on-line etc.), comentários, crenças e afirmações (na maioria das vezes elaborados pelos propagadores do purismo linguístico e da hipercorreção) que, paulatinamente, vão se cristalizando no senso comum, a ponto de, se não analisados com cautela, nos parecem teses inquestionáveis.

No interior dos comentários que mais reincidem, aparece a mitológica e histórica dicotomia fala/escrita, que sustenta a (falsa) ideia de que a fala seria (supostamente) desorganizada, sem lógica, sem regras, sem gramática; ao passo que a escrita seria exatamente o inverso: organizada, lógica, regrada, com gramática.

Antes de qualquer coisa, faz-se necessário desfazer esse mito antiqüíssimo: estudos de importantes pesquisadores modernos (como, por exemplo, Marcushi) não apresentam essas duas modalidades da língua (língua falada/língua escrita) de maneira dicotômica; contrariamente, postulam que as mesmas são duas caras da mesma moeda, isto é, duas modalidades da mesma língua; e que se influenciam mutuamente.

Se comparada a países europeus, a sociedade brasileira está, sabe-se, ainda muito distante de atingir graus significantes de letramento. Apresentamos (e me parece que ainda vamos apresentar por muitas décadas) altos índices de analfabetismo e agora que conseguimos garantir a educação primária à maior parte dos brasileiros. Somos uma nação que se informa mais por telejornais e pelo rádio que por leitura de jornais e/ou revistas.

Dessa forma, a concepção de língua que temos enquanto povo brasileiro é basicamente formada pelo que se diz nesses meios de comunicação e pelo que nos inculcaram nas aulas de gramática do ginásio – que, no fim das contas, é mais negativo do que positivo, diga-se. E mesmo a concepção de língua veiculada nos principais jornais impressos ou revistas de divulgação científica, como Veja, por exemplo, é reducionista: diminui a língua ao que é certo e ao que é errado, ao que se pode e ao que não se pode dizer ou escrever.

Portanto, se esses que compõem as camadas mais letradas da sociedade creem em teorias tão frágeis do tipo das que mencionamos aqui, teorias que não resistem ao menor confronto científico, a sociedade brasileira não poderia acreditar em algo diferente, já que, em sociedades estratificadas e hierarquizadas como a brasileira, os segmentos mais letrados é que, em geral, formam o ideário de língua do restante da população.
Mas, afinal, falamos mesmo sem gramática? A fala é sem lógica? Nossa resposta é negativa. 

A mínima análise de comentários e afirmações que tem por base esse tipo de crença é suficiente para pô-los por terra, para desmenti-los, visto que estes, embora aparentemente estejam mais do que firmados no ideário linguístico do senso comum, não têm o menor respaldo no plano científico dos estudos das línguas.

Não precisa ser especialista em linguagem para saber que um enunciado do tipo “Os menino comeu o bolo” contém dada organização estrutural, contém gramática, é construído sob dada norma; é, portanto, lógico. É um equívoco colossal dizer que um enunciado dessa natureza, constantemente proferido por milhares de milhares de falantes das variedades do português popular (e, às vezes, até por falantes de variedades de maior prestígio social – e entendido por outros tantos milhares, é bom que se diga) é desorganizado, sem estrutura, isento de regras, ilógico ou sem gramática. A questão é que suas regras são diferentes. Só isso.

A esse respeito, Carlos Alberto Faraco, notável linguista brasileiro, escreveu, em um de seus mais recentes livros (Norma Culta Brasileira: desatando alguns nós) o seguinte: "Toda e qualquer norma (toda e qualquer variedade constitutiva de uma língua) é dotada de organização" (Faraco 2008, p.37). Virando a página do livro, encontramos: “O fato de que toda norma tem uma organização estrutural deixa sem fundamento empírico enunciados do senso comum em que se afirma, por exemplo, que os analfabetos ou os chamados falantes do português popular falam sem gramática.” (Faraco 2008, p.38)

Logo em seguida, uma última citação do mesmo autor derruba definitivamente a crença de que falamos destituídos de gramática: Se toda norma é estruturalmente organizada, é impossível falar sem gramática. (Faraco 2008, p.38)